Número total de visualizações de página

terça-feira, 28 de março de 2017

      Fernando continuou frequentando a escola Lusitana até que pouco menos que um mes

segunda-feira, 27 de março de 2017

*
       Fernando não percebia porque só via meninos na sala, a sua mana também estava numa escola- meninos tenham atenção ao que escrevo no quadro - a professora interrompeu-lhe o pensamento, estava ali escrevendo letras brancas com um pauzinho muito branco na mão - senhora fessora pra que é que servem as letras ? - pois é Eduardinho não ouviste o que eu te disse ontem, as letras são para escrevermos o que pensamos- e as perguntas começaram a suceder-se como água caindo daquela fonte, todos os miúdos virando a cabeça para os que perguntavam, Fernando, interrompendo o desenho desenfreado, instável e emaranhado que fazia na folha do caderno, esperou, interessado e mais atento pela resposta, lá em casa fizera a mesma pergunta ao pai, que lhe respondeu:
          - Olha Fernando, se tu quizeres mandar um recado, uma lembrança ou se o senhor doutor quizer passar uma receita para tratar um doente, ou se a tua mãe quando está em Lisboa quizer escrever uma carta para a tua avó, todos têm que usar as letras,
      Fernando começava a ver abrir-se a confusão, ainda insensivel à realidade, começava a entrar no campo intenso da fantasia. Não perdia tempo, sem saber o que era perder tempo, o tempo para ele era desconhecido como o fundo do mar, como o que vinha nos barcos, como o destino e a viagem das gaivotas. Começavam a abrir-se-lhe algumas luzes do pensamento.

domingo, 26 de março de 2017

*
     As aulas começavam sempre a seis de Outubro, se o calendário não prolongava mais um dia as férias de verão por esse dia seis ser domingo. E a escola Lusitana, do professor Buisel, nesse dia de  de tempo ainda perdulário de calôr, ausente de chuva e ventania, alegrava-se com a algazarra que os garotos que vinham  chegando, ali distribuiam e trocavam, brincadeiras dos mais  velhos à mistura e em contraste com o espanto,retraimento e timidez  dos que ali entravam pela primeira vez. Se a escola era aquilo, gostava muito.  Sobraçava, com cuidado e apertando bem contra o corpo a bolsa que a mãe lhe entregara - vê lá, não percas nada, são as tuas coisas para a escola - dissera-lhe ela quando se despedira dele, carinhosa, antes de sair de casa.
      E o professor, quando o viu entrar no salão lajeado de ardósia cinzenta, sorrio-lhe - deves ser o Fernando, o filho do capitão do porto, grande amigo meu, olha, sobe as escadas, com esses da tua idade, vai lá para cima, tens lá a professora, minha filha, à tua espera - impressionado com aquele homenzarrão, que o tratava com afabilidade, pensava na rudeza de outros homenzarrões que conhecia. Obedeceu, subiu a escada,  seguindo curioso, outros alunos que iam para cima, entrando com eles na sala de aula, onde uma mulher que lhe parecia pouco mais que menina e da mesma idade da Ermelinda, lhe indicou uma carteira onde outro colega se sentara.
            - Meninos - disse ela, sorrindo para todos, ocupavam mais de metade da sala- vamos começar, tirem a cartilha maternal, o caderno e os lápis dos sacos e atenção ao que vou escrever no quadro.

   

sábado, 25 de março de 2017

*

  1.       Passaram pelo edifício Sarria, onde, em tempos antigos, a  câmara municipal, o notariado e o registo civil tinhem o seu sítio. Nove horas, muita gente entrando, gente que trazia para ali muitos problemas, gente que ali vinha encontrar mais problemas, gente que para ali vinha descarregar preocupações: todos com o ar dos que estão atrasados para apanhar o comboio, sempre esquecendo que a vida também está dentro dos atrasos.
  2.      Fernando seguia curioso, ainda não infectado pelos mistérios da burocracia e da organização política da nação - Melinda estas pessoas vivem todas aqui? - Não menine, venha menine, deixe lá as pessoas irem pra onde elas querem.
  3.      E, deixando o largo entraram na  parte estreita da Rua Direita, que ao contrário do que é costume pela força das circunstâncias e do destino, é bem recta e a parecer  a Fernando mais comprida que o fio do carro de linhas que ele às vezes desenrolava lá em casa. Ao passar numa montra de chapéus - olha Melinda tantos chapéus, pra que é que aquele nomem lá dentro quer tantos chapéus, o papá só tem aquele que deixa sempre no bengaleiro ao pé da escada!- venha menine, assecola é logo ali naquela rua donde estamos chegande.     

sexta-feira, 24 de março de 2017

*
O espanto pelas coisas novas à sua volta continuava. Diferente dos miares da gata, da renda de bilros que a tia avó trabalhava no rolo grande, dos cheiros das sardinhas assadas na cozinha: pessoas assomando-se às janelas da sua altura, um auomóvel saindo duma casa, um homem com uma bicicleta à mão tocando uma flauta - óh Melinda que quer o homem apitando? - menino o homem afia tesouras e facas, deixe lá o homem, não pare que é tarde - e mudaram uma vez mais de rua, para outra, um cão ladrando perseguindo um gato e cruzaram outra rua que como a outra vinha lá de cima, do lado da direita lá para baixo - óh Melinda olha, lá prabaixo está um rio, é aquele rio que vejo da janela do quarto do pai? - sim menino, a Ermelinda um pouco impaciente mas cuidadosa sem repreender o Fernando, o patrão mais que uma vez lhe determinara que as perguntas do menino deveriam ter sempre respostas dela.
      Não havia confusão na cabeça do garoto, as confusões sucederiam mais tarde com a desordem, com as controversas, com as balburdias, as faltas de clareza, a mistura disparatada, as atitudes opostas perante situações semelhantes.
     E mais outra rua cruzada, outra vez vindo da direita lá de cima para a esquerda lá para baixo - óh Melinda, as ruas vêm todas lá de cima? - óh menine atão o menine na vê qesta donde vamos na vai pra baxo?- Ermelinda metendo dialecto algarvio na memória de Fernando.  
 
         

quinta-feira, 23 de março de 2017

Ali, na rua, começaram as surpresas, a rua mais larga que a sua rua, as casas mais altas que a casa dos pais, os barulhos maiores que os do quintal da casa da avó. Cruzando uma rua que vinha a subir lá de baixo, a rua da ribeira, ouviu a voz estentória dum homem que gritava na rua, lá em baixo, pondo as mãos na boca, em forma de trombone, dizendo uma data de nomes, de sardinhas, carapaus, safios e outros peixes que Fernando desconhecia.

- Óh Melinda porque é que ele está gritar tanto?
- Ora menine, praque as pessoas sabam o pêxe qhá ali na praça do pêxe!
- Onde é que o homem apanhou tanto peixe?
- Ora menine, o pêxe apanha-se no mar, donde havera de ser!
Ali, na rua, começaram as surpresas, a rua mais larga que a sua rua, as casas mais altas que a casa dos pais, os barulhos maiores que os do quintal da casa da avó. Cruzando uma rua que vinha a subir lá de baixo, a rua da ribeira, ouviu a voz estentória dum homem que gritava na rua, lá em baixo, pondo as mãos na boca, em forma de trombone, dizendo uma data de nomes, de sardinhas, carapaus, safios e outros peixes que Fernando desconhecia.

- Óh Melinda porque é que ele está gritar tanto?
- Ora menine, praque as pessoas sabam o pêxe qhá ali na praça do pêxe!
- Onde é que o homem apanhou tanto peixe?
- Ora menine, o pêxe apanha-se no mar, donde havera de ser!