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quarta-feira, 30 de julho de 2014

Dúvidas

Dúvidas que são espinhos bem cravados
Que eu muito, muito, pretendo arrancar
Sei que são passos perdidos, mal dados,
Trofeus malignos que hei de envergar


          Foram por mim pecados cometidos
          Caminhos ou atitudes bem inúteis
          Decisões, respostas mal concebidas
          E inclinações quase sempre fúteis


                        Confissões que pretendo assinalar
                        Desejo há muito que tenho escondido
                        E que agora  bem pretendo gravar


                                  Bem duvidando que seja perdoado
                                  Aguardando que a pena merecida
                                  Decida o que reste do meu fado 


                   



               

Um abafo inaudito.Tempos modernos. Lanigiro asorp uo.

Com um abafo de flanela das minhas tentações desci à rua dos passos perdidos e encontrei-me numa loja vazia, onde um vendedor antipático e untuoso tentava vender-me um pouco de vento, de brisa que soprava naquela tarde ao mesmo tempo que abria um armário feito de água e vinho vintage dentro duma garrafa  invisível cheia de areia movediça onde eu, inconstante e louco, me afundava nu, comendo uma salsicha de coquilhas misturada com soluções de granitos extraídos da tumba dum faraó. O alfarrabista não desistia e enquanto lavava as mãos, como Pilatos, puxava a trela dum tigre enorme, com pintas provocadas pela saliva o cuspo dum polícia que limpava as mãos à parede e rasgava os impressos virgens das multas. Aí eu perdi a paciência e ditei um requerimento solicitando para conseguir poder entrar na piscina municipal e finalmente sentar-me à beira do orçamento. E saí da livraria,  decidindo onde é que eu não ia, enquanto ouvia a sinfonia original da sirene do carro da judiciária.

Tenho uma esposa capaz

Que além de bela e formosa

Se mostra sempre sagaz

E sempre bem criteriosa




Teno uma nora querida

Que sempre e a toda a hora

É a nora preferida

Por mim e pela Mari, a sogra




E temos um filho gigante

No tamanho e no saber

Que será sempre o garante

Da família f'liz viver




Ainda temos um neto

Cujo nome é Frederico

É rijo, é bem esperto

Preparado p'ra ser rico




E também aqui eu estou

Não me sentindo culpado

De no tempo que já passou




Não os haver mais amado

terça-feira, 29 de julho de 2014

O grau da nossa compreensão

Deus, o nosso Criador, o nosso Progenitor, é infinito. Logo,  de impossível para a compreensão humana. Mas que se sente, mas que eu o sinto não por completo como sinto, não por completo o meu corpo, o meu ser, a minha mente. Por ser infinito está para lá da minha compreensão. Por ser infinito está para lá da minha visão. Mas tenho perfeita consciência que o sinto. Porque se sinto o meu corpo, se sinto o meu ser, se sinto a minha mente tenho que sentir que venho doutra parte, embora seja uma parte incompreensível para o meu entendimento, para a minha mente. Não existe alguma coisa que se forme do nada. Mas pretender que Deus provem doutro ser é pretender entender onde se formou o nosso entender e conhecer a razão porque se forma seja o que fôr que existe na Terra leva
à conclusão de que temos de conhecer a razão do que existe fora da Terra e a razão porque Deus existe. O que é pura estultícia, é pura sem razão.
        Vivemos no mundo limitado pela Terra. Fora desta, a nossa visão apenas abarca uma parte do universo. Só esse nosso sentido distingue parte do que está fora da Terra - as estrelas, alguns planetas, algum meteoro. Uma estrela a um ano de luz de distância da Terra significa que está a 2567030 milhões de quilómetros de distância de nós. Mais de dois triliões e meio de quilómetros, distância difícil de entender fora da frieza dos números. Pretender conhecer ou afirmar o que por lá  existe ou não existe é pura fantasia. E se passarmos ao infinito, ´só poderá definir-se como incompreensão total. E de forma semelhante, o que serão bondade, compreensão, e outras virtudes, em grau infinito.
         Logo, a incompreensão e a capacidade de avalia-las, também são infinitas. O que nos dá a compreensão da nossa pequenez. Talvez infinita.   

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Viagem na arca dos espíritos - 14 -

        Senti que a arca tremia e apressei-me a entrar. De imediato vi o meu irmão Afonso, se hoje fosse vivo teria a bonita idade de cento e quatro anos.
               - Alberto, fartei-me de esperar aqui por ti, já falaste com todos os nossos irmãos...
               - Faltavas tu, ainda ontem falei a um amigo que me refeririu as tuas caçadas em Moçambique !
               - Nem calculas quanto me arrependo das caçadas, aqui tenho cumprido o meu purgatório encontrando muitos dos animais que abati. Passamos aqui muitos dias rodeados de animais ferozes e não ferozes que aqui convivem connosco pacificamente. Nem imaginas o que é estar rodeado de rinocerontes, leoas, búfalos, elefantes, sei lá quantos mais, que nos tratam como amigos, todos cá vêm parar, todos têm o mesmo estatuto de paz e concórdia que os humanos! Ao princípio, pouco depois de cá chegar, quando me vi rodeado de tantos animais reconhecendo muitos dos que cacei, tive receio, mas de imediato, perante a placidez de todos, desde os crocodilos aos elefantes, logo me acalmei e compreendi. Aqui a paz é a regra e a concórdia, a lei. E ninguém entre os humanos e entre os animais sai desse caminho, que depressa para todos se torna um hábito salutar e agradável...
                 - Até porque ali decerto que não necessitavas de dinheiro que era o que te movia a caçar. Por isso, por essa necessidade, sempre gostaste das regiões com muitos animais e sempre escolheste  lugares onde exercias os teus cargos oficiais, nessas regiões muito afastadas da capital de Moçambique. E com a tua esposa Maria criaste nove filhos, que poderiam ter sido dez, se um não falecesse pouco depois de nascer . Mas diz-me tens falado com o nosso Pai e a tua mãe?
                 - Claro, vejo-os quase todos os dias. Mas olha tenho que te deixar, combinei com um nosso pentavô, um Castro, conversar daqui a pouco..
                 - Afonso, se calhar esse pentavô Castro é um que tem uma foto num museu em Mormugão, foto que vimos eu e a Mari quando lá fomos..
                 - É esse mesmo, adeus Alberto, um abraço para todos, também já tens uma descendência numerosa ! Adeus!
          E antes que eu me despedisse, a imagem do Afonso misturou-se com a neblina dentro da arca.   

domingo, 27 de julho de 2014

Um futuro dinossáurio

Quem és tu que estás detrás do biombo dos meus sonhos e que me acenas envolvida na fantasia, suspensa pela dúvida, e envolvida pela cortina diáfana duma reticência maquiavélica? A distância é um castelo de suspeitas e a minha lente analítica amplia e deforma a percepção da tua existência. Estás noutra dimensão, onde não existe vaidade, nem se fala de virtudes, só se sentem alegrias. Ali, os dicionários só têm páginas pares, ninguém tem as rugas das preocupações, desconhecem as sombras do negativo, do não só se encontram os ossos dinossáuricos,  o negativo foi sepultado há um bocado do tempo, quando o criador definiu a sua inutilidade e eliminou essa experiência com um sõpro celeste sepultando essa coisa inútil lá dentro do tempo. Permitindo no entanto, que aqui e acolá, alguns investigadores, arranhando a face do planeta, o encontrasse e compreendesse a lição.

Algo que consegui

De noite consultei a minha sombra
Inspirei-me nalgumas ilusões
Andei por brenhas, subi a penhascos
Indaguei à lua onde me encontrava
A uma criança eu pedi conselho
A um amigo solicitei esmola
Ao mar implorei a serenidade
E a Deus Pai afastar-me da fatuidade


                  Se eu nesta vida algum bem conseguir
                  Por onde passe alegrias alcance
                  Os dias sejam como suaves carícias
                  Todas as noites me sinta embalar
                  Lembrando o conchego da minha Mãe
                  Que à noite me acompanhava ao deitar
                  Sempre com um sorriso p'ra me dar
                  E alguns afagos p'ra me conceder 

sábado, 26 de julho de 2014

As entrevistas pólíticas

       
           É uma delícia lermos entrevistas que os políticos concedem.
           As respostas, primam pela riqueza misteriosa dos seu conteúdo, nas entrelinhas. Primam nos cuidados de responder com lições de elevada dose de explicações que nada têm a ver com as perguntas, parece que andamos num carroussel tentando chegar a um ponto fora do trajecto circular que percorremos montados num cavalo de madeira que não se cansa de galopar à volta do eixo central, distraindo-nos com música intensa e o movimento circular com algumas variações sempre iguais e persistentes.
As respostas, empregando obscuros termos técnicos, não permitem a concentração suficiente para que quem as ouve, mal consiguindo acompanhar o raciocínio de quem as concede. E, com marcada frequência, o assunto da pergunta é esquecido, quem ouve as respostas, começa a interpretar o novo assunto e esquece o tema principal, numa técnica muito empregue por quem deseja não apresentar a resposta que sabe correcta, mas politicamente inconveniente. E derivá-la, de forma suave, suspeita, de difícil compreensão,   para outro tema que explica com mais comodidade e  satisfação.
        São cortinas de fumo combinadas quase sempre com demagogia e discurso rico, pomposo, de palavras caras entremeadas com alguns sorrisos e anedotas oportunas.
     

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Porque será?

       -Então aquele senhor de Oeiras -  dizia hoje uma senhora no supermercado - julgado por ter depositado setenta mil euros na Suiça, apanhou dois anos de prisão efectiva e outro que branqueou milhões, ainda não se sabe quantos, o que lhe acontece?
       - Minha senhora esse outro ainda não foi julgado, não se sabe ainda se é culpado.
       - Pois é, naturalmente é porque o outro era mais gordo, olhe, agora está mais magro depois de passar um ano na prisa, e este não é gordo...    

Viagem na arca dos espíritos - 13 -

Até que enfim, acabo de ver o meu irmão José Manoel!
           - Olá José Manoel, dá-me um grande abraço !
O meu irmão abraça-me forte, poucos abraços demos durante o tempo que vivemos juntos, talvez por minha culpa, talvez pelo ambiente em que vivíamos, talvez pela nossa formação.
            - Ora viva, Alberto, eu sei que tens andado muito nessas viagens na arca, não nos víamos há mais de vinte anos, pelas contas que fazem ai na Terra.
            - José Manoel, já me perdoaste?
            - Perdoei o quê?
            - Não sei se te lembras, fiz-te algumas partidas, uma delas a pedra que atirei um dia, andavas tu de biciclete, as minhas críticas junto à nossa Mãe,pelas demoras em acabares o teu curso de engenharia...
            - Olha Alberto, como dizia o nosso Pai, "o que lá vai, lá vai"...Basta um dia aqui para esquecermos tristezas e agruras que passámos na Terra e para nos lembrarmos o que diz a Bíblia e todos os outros livros santos. O que me agrada muito é saber que tens uma boa vida e que a tua descendência vive em boa harmonia. O que é uma pequena, ínfima amostra do que aqui se passa.
Nem imaginas o que é conhecermos os nossos antepassados, mas repara, todos aqui são bons, até aquele que a crónica da Tórre do Tombo refere como condenado em Sevilha, aqui vive contente e em plena harmonia com todos nós. Os piores aí são aqui dos melhores. Parece que o nosso Criador, é o que por aqui referem, os limpa na Terra e aqui chegam sem mácula...
         - José Manoel, diz-me, segundo o que eu escrevi no meu livro "Sonho de sorte" será que o mal do dinheiro desaparecerá aqui na Terra?
         - Como compreenderás, não podemos falar do futuro, o que te digo é que tudo o que escreves se conhece aqui, é assunto das nossas conversas. E por conversas, tenho que ir para uma, é um compromisso que tenho, adeus, um grande abraço...
      Tentei ainda fazer-lhe outra pergunta, mas a sua imagem esfumou-se e eu tive que desembarcar da arca.        

Viagem na arva dos espíritos - 12 -

            E eis que surge a minha irmã Maria Luiza, Com o sorriso bonito, a cara morena e o cabelo azeviche  dos seus doze anos.
                 - Luiza! Que prazer, não foi possível despedir-me de ti quando partiste para esse outro mundo. E vejo que conservas as mesmas covinhas na face, quando, como agora, sorris!
                 - Não, não foi possível despedirmo-nos,  nem sequer foi possível despedir-me do meu filho e das minhas netas, vê lá! Mas enfim, não me posso queixar porque aqui estou muito mais contente que na maior parte do tempo que aí passei. Enfim, não são coisas para recordar, aqui só recordamos o bem e o bom que aqui passamos, tudo o resto esquecemos, mesmo que o queiramos recordar, não o conseguimos, sentimos eu e todos os que aqui estão, um certo desconforto quando ensamos do tempo que passamos na Terra. Vê tu que falo aqui com pessoas que deixaram há séculos, esse planeta onde vives,e que me dizem que aqui nunca passaram indisposições, arrelias, desgostos.
                   - Luiza, já falei com as outras nossas irmãs e, dos nossos irmãos só me falta falar com o José Manoel...
                   - Olha ele disse-me há momentos que amanhâ irá ver-te !   .
                   - Luiza, diz-me quem decide aí  quem e quando me irá ver ?
                   - Isso não sei, sei que com grande intensidade pensei que te iria ver hoje  e, de súbito, apareceste-me à minha frente, pensei que já te tinhas despedido da família e vindo para cá, Mas enquanto esperava ver-te, vi-me dentro duma neblina intensa onde tu surgiste, o que nunca me tinha acontecido com outras pessoas que aqui têm aparecido.
                    - Luiza, agora lembrei-me dum episódio. Quando tu tinhas catorze anos, e eu nove, um dia estavas penteando-te e disseste-me que invejavas o meu nariz porque o teu tinha aquela ondulação de que não gostavas, lembras-te?
                    - Lembro-me, lembro-me. E ainda tenho o nariz igual, o que aqui pouca importância tem. Olha,. , gostei muito, muito,  de te ver, Mas tenho que sair para outro  compromisso, aqui não existe a pontualidade mas todos estamos onde temos de estar, pode ser  incompreensível mas é assim, nem o sentimos. Estamos onde temos de estar. Um grande abraço!
           E a mana Luiza perdeu-se na neblina onde havia entrado para me ver.        
   .

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Os livros que escrevemos

Cada dia que passa, mais peço ao nosso Criador, se mereço a sua atenção, que me conceda mais tempo. Não pela simples razão  de viver mais, mas porque cada dia que passa mais sinto que mais tenho para escrever.  Resta pensar que o que escrevo poderá ser útil para os meus semelhantes e/ou para todos os animais que compartilham a Terra connosco. O que escrevemos poderá servir de simples entretenimento para quem nos lê, o que já não é mau. Poderá conter alguns ensinamentos e contribuir para a diminuição da ignorância, nalguns ramos do saber, o que ainda será melhor. Poderá servir de lenitivo para algumas agruras de alguma gente ou contribuir para alegrar mentes caídas em tristeza.
           O primeiro livro que escrevi. "Sonho de sorte", (para o público em geral . antes apenas havia escrito um pequeno livro, relatório duma viagem oficial por conta do governo de Angola), versava dois temas: acabar com o dinheiro e erradicar a pobreza. Embora a tivesse pago do meu bolso,,  a edição foi mal distribuída, talvez por isso, talvez porque os temas teriam de ser abordados doutra forma. Em vez dum romance deveria ter especulado sobre os temas doutro modo. Talvez com a colaboração dum economista, relatando uma entrevista incidindo sobre esses temas. O último livro que escrevi, "Pensamentos subtis(por vezes não), versos livres(ás vezes não), contos curtos"   editado por mim este ano, é uma colectânea de diversos escritos meus reunindo pensamentos, versos e contos. Ainda não sei qual aceitação  que estes livros tiveram porque quase todas as opiniões e críticas provieram de amigas ou amigos. Ainda não sei se obteve qualquer um dos fins atrás referidos. Tenho a presunção que sim. Mas, presunção e água benta....
O que sei é que ambos me deram uma grande satisfação , estou convencido que ganhei alguns anos de vida.escrevendo-os e que esses escritos e tudo o que escrevo no meu blog mantem-me a mente activa, muito mais do que em muitos anos da minha vida.


       .   .

Quem me vende um pouco de vento?

Pedi um crédito a um amigo  para lhe  comprar uma mão cheia de vento, daquele donde se extrai o perfume da primavera. Disse-me que teria de adquirir também um saco das suas preocupações. .Recusei, dizendo-lhe que eu só necessitava de brisa marítima, do suave frescor da alvorada e uma pitada da aragem que sopra dos penhascos da serrania diante da minha casa.
            Faço perfumes dos ventos
            Destilando as e aragens
            Misturo-as com sentimentos
            E com a tua bela imagem

terça-feira, 22 de julho de 2014

Mensagens em código

            Tenho um cadastro terrivel, segundo consta na Tôrre do Tombo, torre construida com as esperanças dos incrédulos do século dezanove, esse século que ficou célebre por ser anterior ao século vinte e posterior ao deszasete, século impar que se seguiu por um par, que não é par do reino deste nosso país à beira mar plantado, uma condição esquisita, jamais pensei e pensarei que um país possa existir nessa condição de plantado, visto que, segundo sei e a ciência agronómica o confirma, nada medra se plantado ou plantada à beira mar  Aliás essa torre nada tem de torre, não tem paredes nem ameias, é apenas um arquivo. Esta mania dos portugueses de dar nomes a coisas diferentes das coisas diferentes que os nomes indicam, ora essa, agora por o nome de torre a um monte de papeis é daquelas coisas que o diabo se lembra para confundir os santos e os ingénuos que não sejam santos. foi assim que nasceu a linguagem em código. Se eu escrevo- santos da casa não fazem milagres isto pode querer dizer o que o povo quer dizer ou pode significar, para quem recebe uma mensagem em código e tem as chaves do código ( chave:santo significa _corruptos, casa significa _roubam, não significa _sempre, fazem significa _o, milagres significa _tesouro nacional).fica com a mensaqgem verdadeira: "corruptos roubam sempre o tesouro nacional.",
Mensagem inacreditável no nosso país de santos.
E assim se transmitem os segredos da nação.

Fado de ti

Embora sempre embalado
Nos mares da fantasia
Continuo cantando o fado
O fado desta alegria


             Ainda que me falte a voz
.            Do fadista marceneiro
             Chega p'ra cantar a sós
             Por todo um dia inteiro


                        Canto o ceu, o sol e o mar
                        A lua, o vento e as estrelas
                        Bem alto ou a sussurrar
                        A uma mulher das mais belas
                                 
                                   E assim o meu tempo passa
                                   Escoa-se entre os meus dedos
                                   Pois contemplo a tua graça
                                   Escutando os teus segredos 
                                            

domingo, 20 de julho de 2014

Sobre mitos

            Conhecendo os mitos antigos compreenderemos melhor os modernos.
            O tema principal da mitologia clássica: "o grave e constanre, no sofrimento humano"(James Joyce).
            E, citando Joseph Campbell,:  "A causa secreta de todo o sofrimento é a própria mortalidade, condição da vida. Quando se trata de afirmar a vida, a mortalidade não pode ser negada". 
            Será que a sabedoria só pode ser atingida através do sofrimento? Tudo o que não enxergamos, ou de que apenas uma fracção sabemos que poderemos adquirir, requer sofrimento? Para reconhecermos o nosso Criador será necessário sofrer em permanência? São interrogações que nos deixam indecisos, perplexos, invadidos por alguma tristeza.
              Então, se a bondade deve vencer a tristeza, assim o demonstrou o filho de Deus, na Terra, se a contemplação do que nos ofereceu a vida nos traz alguns resquícios de sabedoria, eu penso que a sabedoria, alguma sabedoria, pode ser adquirida sem sofrimento, sem ser necessário sofrimento sem necessidade de termos de passar por vicissitudes.
              É um tema que terei de discutir comigo.
              E digo discutir comigo porque, quando o faço, nunca tenho nem sou influenciado nem me submeto a qualquer tabu.               

sábado, 19 de julho de 2014

sorrisos

O sorriso que vemos na face de quem passa por nós ou de quem encontramos e saudamos, pode significar e reflectir o que lhe vai na alma, o seu estado de espírito - preocupações, prazeres, alegrias, tristeza, etc...Um médico muito se serve dessa interpretação para auxiliar o seu diagnóstico, para o qual, em muitos casos,  é a ferramenta principal.
       Eis alguns sorrisos e a sua normal ou possível interpretação:
          Sorriso amarelo, um sorriso sem a colaboração dos olhos: reacção a uma situação inesperada, desfavorável, disfarçando o incómodo causado.
           Sorriso branco: uma forma de sorrir quando o sujeito  que o apresenta vai de espírito vazio, vei sem pensar, vsi alheio, de pensamento inerte, indiferente. É um sorriso vicioso, adaptado ao nada, que revela apatia, indiferença, sensibilidade nula, nem esse sujeito ouve ou sente o bater do coração.
           Sorriso franco:  um sorriso aberto, de rugas na boca e nos olhas, que revela sintonia com quem conversa ou com quem encontra, ou sinceridade na partilha de ideias, na aceitação de argumentos, ou ainda alegria na amizade e aceitação do interlocutor.
           Sorriso de dúvida. sorriso com frequência acompanhado do levantar de uma ou das duas sobrancelhas e dum gesticular das mãos e braços.
           Sorriso de discórdia ou negação: em geral acompanhado por diversos gestos de braços, dos dedos, da cabeça.
         E poderíamos continuar a enumerar muitos outros sorrisos  a que a psicologia faz referência.           


sexta-feira, 18 de julho de 2014

O meu problema

 Abri a caíxa do tempo e dentro, transfigurando-se numa mistura de caixas fechadas, todas com o ara neutro, inerte, seco e estéril  daquelas caixas que alguns indivíduos têm nos bancos porque desconfiam da segurança dos seus colchões. As caixinhas filhas da grande caixa do tempo giravam lá dentro com frenesi inusitado, deslizando dos meus dedos se pretendia segurar uma qualquer. Se conseguia segurar e abri uma, ela acomodava-se ao conchego da minha mão, se conseguia abri-la,  a fantasia, a saudade, a ilusão, encaravam-me com desconfiança coladas ao fundo da caixa e  afastavam-se velozes, se pretendia agarrar alguma para conhecer os seus segredos, descobrir as suas intenções, entrar nalgum acordo favorável, desfaziam-se e evolavam-se  entre os meus dedos gerando um vazio, um sentimento neutro, uma insatisfação surda, irreprimível, irrequieta e insana.
       Um físico respondeu-me que o tempo é composto de espaço e de velocidade. Um químico definiu  o tempo como o produto duma reacção entre diversos elementos. Um filósofo satisfez-me um pouco mais dizendo-me que o tempo é uma mistura de saudade e alegria, dentro do colchão da fantasia. Há mais de vinte séculos, um filósofo grego disse que só sabia que nada sabia sobre o tempo. E a nossa empregada doméstica respondeu-nos: " ora o que é o tempo, eu cá não tenho tempo p'ra nada, sei lá o que é o tempo!".
         Para mim, o problema é que me está nascendo uma verruga na mão...




      

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Viagem na arca dos espíritos - 11 -

           Hoje senti o chamamento de dentro da arca dos espíritos. Acorri pressuroso e depois de fechar a tampa, apareceu a minha irmã Manoela, lindíssima como sempre, bem arranjada, vestida a rigor como se fosse para uma festa - aliás como eu sempre a encontrava quando ia a sua casa papar um dos seus belíssimos almoços, na companhia do Vasco. o seu segundo marido, a grande paixão da sua vida.
                - Olá Alberto, avisaram-me no meio dum passeio a cavalo pelos lindos prados destes sítios, avisaram-me que estavas viajando na arca...
                 - Eu sei, Manoela, que antes e depois de te casares com o teu primeiro marido, uma das tuas grandes e preferidas distrações eram os teus passeios a cavalo na quinta que o Guilman, o teu marido comprou no Ribatejo. aliás também te comprou o belo alazão que montavas. Nesses tempos eu era miúdo, apenas tinha visto uma vez  o Guilman, já velhote, na Praia da Rocha. Tenho mesmo uma foto tirada nesse dia, lembras-te?
                  - Claro que me lembro, foi depois dum almoço na casa do nosso Pai, naquela praia.
                  - Mas o que fizeste dessa quinta e do cavalo que herdaste do Guillman?
                  - Esse meu marido que encontro aqui com frequência, deixou a Terra e veio para cá poucos anos depois que o conheceste e eu vendi a quinta e o cavalo. E aqui vivemos contentes, não damos pelo tempo, não temos tristezas, só alegrias, para compensar os maus momentos que lá passámos.
Com frequência falo com os nossos antepassados, temos muito que conversar com todos eles. Ao mesmo tempo vamos dando conta do que se passa na Terra, em particular com a gente da nossa família em Portugal, em Moçambique, no Chile. Aqui não se passa um momento de tédio, é um rosário de alegrias sem fim, de contas que nada nos custa desfilar.
                   - Manoela, estás mais bonita !
                   - Obrigado Alberto. Mas olha tenho de sair daqui, estão-me chamando.
             E esfumou-se, sem deixar rasto.                                

Pressentimento

Sempre que me assalta um pressentimento
Que incida sobre o que se passa em mim
Seja nesse ou noutro qualquer momento
Num grupo de ideias que não tem fim
            Podem ser palpites, preocupações
            Meros projectos cheios de assimetrias
            Simples divagar, simples ilusões
            SaIpicadas de muitas alegrias
                         Então acabo sempre preocupado
                         Embora tente conservar a calma
                         À minha secretária ali sentado
                                       Com esta saudade que me persegue,
                                       Que então ocupa toda a minha alma
                                       E embora tente olvidar,  não consegue
                                      
                         



O meu livro das entrelilnhas

Consegui completar outro livro, escrevendo apenas nas entrelinhas. Não encontrei uma editora que o aceitasse para publicação, Revoltado com a falta de consideração pelos meus méritos, resolvi mobilizar as minhas fracas economias e lançar no mercado uma "edição do autor". Não encontrei quem a distribuísse. Estafei-me visitando dezenas de livrarias, nenhuma quis aceitar esse meu livro, sempre alegando que o tema do livro não se enquadrava na orientação da empresa. Resultado: tendo falta de espaço na minha casa para albergar a edição, em profundo desespero, resolvi deixar as o livro das entrelinhas no caixote da biblioteca municipal, o caixote dos ":Livros grátis" ali exposto, de fraca capacidade. Pelo que tive de deixar na rua a maior parte dos .meus  livros das entrelinhas.
Entretanto e aqui para nós, e  numa entrelinha desta mensagem.... 

terça-feira, 15 de julho de 2014

No que me perturba

                 No que eu penso, no que me perturba, no que me situa dentro do que já foi, por  fora das estrias do meu querer, está a razão deste existir, estará a justificação destes incómodos ou foi uma simples e alegre partida do destino?. Não do meu destino, não do destino do que eu já fui, não do futuro doutra vida que já vivi. Quando os sinos tocam na igreja da minha cidade, o que sempre me perturba é o toque dos sinos que faltam na torre que falta nessa igreja. Se esses sinos estivessem lá, será que eu me teria casado nessa igreja? Os sinos desaparecidos da igreja desaparecida onde me casei, agora substituída por um horrendo caixote de apartamentos, se agora ainda lá estivessem, será que não me teria casado ali? São interrogações que parecem estapafurdias, incongruentes, fantasiosas. Mas nunca podemos adivinhar nem saber qual seria o futuro  dum passado diferente. Nem sequer podemos afirmar que  esse futuro não se realizou.

domingo, 13 de julho de 2014

Como realizar uma fortuna

Uma entidade financeira abre sucursais na Suiça, no Luxemburgo, além das que ´possui em Portugal. Instala-se naqueles países como entidade privada com  intensa propaganda baseada no prestígio que possui . Através dos contactos dos seus administradores, contacta e convence particulares possuidores de fortunas, a investir na sucursal da Suiça, onde oferece forte remuneração para os capitais ali depositados e enviados pela empresa mãe onde os particulares possuem as suas fortunas, que ali rendem menos de um por cento e com um imposto forte, de mais de vinte por cento do juro obtido. Na Suiça, a filial financeira oferece juros muito superiores, isentos de impostos em Portugal. Mas, na Suiça, para a conta do investidor, o capital enviado começa a sofrer erosão, de cinco, dez ou mais por cento do capital depositado. Mas as informações para o cliente continuarão sempre a referir o capital enviado mais os juros prometidos. Em seguida a filial envia o capital já erosionado para o Luxemburgo e a parte desviada para um off-shore em nome do administrador que iniciou a operação. Na filial do Luxemburgo o processo repete-se e noutra filial, em Portugal, da entidade financeira mãe, repete-se o processo. Desta forma todas as filiais podem e vão manifestar nos seus relatórios a existência dos capitais recebidos, na cadeia financeira, embora não os possuam. E na filial de Portugal na realidade apenas existe uma percentagem do capital inicialmente enviado para a Suiça. E o cliente continua a receber das filiais onde depositou a sua poupança, relatórios convincentes e satisfatórias para a sua ganãncia.  E, se algum cliente pede o retorno do seu capital e dos juros prometidos, a filial em Portugal tem o suficiente para a devolução. Claro que os clientes, em particular os mais abastados têm de ser sempre e a qualquer hora, muito informados pelo estado das suas contas. Mas quando soa o alarme, dá-se o mesmo que se deu com a "Dona Branca" e com o funfo Madoff.
              A dona Branca não sei se ainda está presa ou se desapareceu. O Madof está na prisão, parece-me que condenado a 150 anos de prisão - porque não a prisão perpétua? Tal vez porque os 150 anos poderão ser reduzidos paulatinamente, se não os foram já reduzidos, passados seis anos. E aqui, há negócios semelhantes, há prisão, há julgamentos, sequer há constituição de arguidos pela existência de tais negócios ?
               Se a banca inglesa não conseguiu prender um dos maiores ladrões que a defraudaram em centenas de milhões de libras...


Nota: o processo pode mesmo ser iniciado doutra forma: com o capital do depositante e sem a sua autorização para tal. Nos relatórios que recebe, o seu capital e os juros,  estão intactos - são apenas números!

sábado, 12 de julho de 2014

Apanho algumas conchas

Sou um mensageiro empedernido, sagaz e contundente
Embrenho-me nos espaços da minha ausência
Dou gargalhadas eliminando o tédio
E coleciono vaga-lumes nos meus bolsos
Mas antes abro uma garrafa dum bom carrascão
E desfaço todas as teias dos meus pesares
            Caminho descalço pela areia da minha praia
            Aspiro a brisa quente que o mar me oferece
            Apanho algumas conchas de cores suaves
             Leio a história daquele ser que a habitou
             Nela escrita pelas ondas, pela areia, pelos ventos
             E afago-as, tateando-as dentro dos meus bolsos
                             Sento-me e tento traduzir os sons do mar
                              Que o vento me traz com o seu olor forte
                              Fecho os olhos e reparo no passado
                              Que ele me revela, dessas conchas
                              Na garrafa, meto algumas delas e deito-a ao mar,
                              Quem tem saudade delas talvez as possam encontrar        

Ingratidão

Os chamados animais irracionais respeitam a floresta
E respeitam o fógo, a água e a luz
Outros animais, os que se dizem racionais,
Ainda estou para saber quando,
Não respeitam a floresta
E a luz, a água, o fògo, só quando os fere respeitam


                            O Criador deu-nos a Terra
              E nela, a água,  a floresta, o fògo, a luz
              E por companheiros todos os animais
              Deu-nos a liberdade de escolha,
              De pensar, de decidir, de amar
              Sem quaisquer entraves ou condições








E os outros aninais, que chamamos de irracionais
Nascidos na Terra em liberdade
Respeitaram e respeitam aquilo que Deus lhes deu
Mas o homem, por violência ou mau sentido,
E a mulher, por fraqueza ou má virtude,
Agora vêm atraiçoando quem lhes deu tudo

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Vou atirar-me nos braços da fantasia
Entrar nos campos diáfanos da beleza
Rodear-me das grandes flores das alegrias
E mergulhar nos perfumes da singeleza...


           E se então tu, minha amiga, apareceres
           Damos as mãos, bailamos, entramos na roda
           Sentiremos, de forma etérea, esses prazeres
           Com uma música suave que mais ninguém nota

quinta-feira, 10 de julho de 2014


E, seguindo mais ou menos, a minha dieta, mantenho-me saudável com os meus oitenta e sete anos de idade cronológica

A minha dieta

A minha dieta é a seguinte: pequeno almoço: sumo de laranja, posta pequena de salmão grelhado, pequena tira de pão integral(x). Almoço: arroz integral misturado com um ovo (xx) e um copo de vinho tinto(xxx). Às cinco ou seis da tarde: um ou dois pêssegos, uma mão cheia de frutos secos, (nozes, pinhões, amendoins ou amêndoas). Jantar: um ovo estrelado, um copo de leite magro com yoghurt magro. Café sem assucar.
x - mas de autêntico páo integral, feito com a farinha integral, e não como o que se compra, em feito em geral com metade ou menos de metade de farinha integral.
xx - O arroz integral,depois de cozido, misturado com a gema e a clara do ovo e levado ao micro-ondas durante três minutos.
xxx - Dois decilitros. Não interessa um vinho caro. Um vinho do ano, se for bom, se agradar ao paladar de cada um, é suficiente. E é dispensável, mas, parece que está provado, é salutar.
           Para mim, dá resultado. E não se gasta nada em tantos produtos caríssimos, vendidos e propagandeados a torto e a direito. E não passo fome.
           Uma recomendação importante:  uma fatia pequena de pão integral, até cinquenta gramas, e duas a três colheres de sopa de arroz integral (depois de cozido).
           Apesar de ter uma barriga proeminente, não passo fome com esta dieta e vou perdendo o peso a mais que  a balança  me indica.
            Julgo que seja uma utilidade para quem me visita no blog, ou no fb.. 

Insensatez

O que eu vou escrever, é insensato
Insensato como uma qualquer dieta
Insensato como o poder mais lato
Criado por um sábio, por um profeta
              A insensatez é uma grande virtude
              Se não fosse virtude, a insensatez
              Seria aceite a um poderoso e rude?
              A um monarca ao fim do primeiro mês?
                              Há qualidades que muitos desdenham
                              E há defeitos que muitos exaltam
                              Depende daqueles que mais se empenham
                                            A relevar os pecados de alguns
                                            A aceitar tudo dos que mais ordenam
                                            Por não ter pejo, nem pudor nenhuns                                                          
                                           

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Andando assim, me envaideço

Ando por cima da minha cabeça
Caminho por debaixo dos meus pés
E nesse andar não há quem se envaideça
Desperdice ou deite fora os seus aneis






Um andar difícil e andar virtuoso
Muito complicado, de alguma arte
Em cima, em baixo, nesre meu gozo
Eu, no meio, vou para qualquer parte






Sempre me ficam-me  bem estas andanças
Se eu assim sou, fora da minha sombra
Só ando procurando uma mudança






Que não tarde a tirar-me deste enredo
Que a todos meus amigos tanto assombra
Que sempre guardarei no meu segredo

terça-feira, 8 de julho de 2014











Tu, com amor e todo o coração
Muito me tens ajudado e amparado
Arrancando esse estranho aguilhão,
O tédio, sempre à espreita ao meu lado


              
               E se nessa vida p'ra onde vamos
               A vida que passou podemos ver
               Tal memória dirá que não perdemos
               Nos tédios, a alegria de viver


                           
                            Não queria nestes versos, entre outros
                            Deixar de agradecer-te, minha querida
                            Os anos e alegrias bem sentidas


                                      
                                       Esquecidos que foram os maus momentos
                                       Alegrias que apagaram tormentos
                                       Com tua bondade por ti consentidos

A vida que vou vivendo

Três filhas e um filho eu tenho
Nesta vida que vou vivendo
Agora pouco me entretenho
Com os anos deles passando .

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Os passos dentro de mim

Os passos que eu dou lá fora
Diferentes dos dentro de mim
Estes sinto-os a qualquer hora
Não têm distância nem fim

No Panteão Nacional

           Nada sinto contra o facto de que os restos mortais de Sofia de Mello Breyner hajam sido trasladados para o Panteão Nacional, com a divulgação de extensa e merecida homenagem. Julgo que ninguém se importa, depois da morte, com o que acontece aos seus restos mortais. Porém, o que não consigo entender é que semelhante homenagem, não seja prestada a tantos nossos outros grandes poetas e poetisas portugueses. Exceptuando Camões e Fernando Pessoa, parecem esquecidos poetisas e poetas,   Guerra Junqueiro, Antero de Quental, António Nobre, Fernanda de Castro, Natércia Freire, Florbela Espanca, entre outros. Será por razões políticas? Ainda menos o entendo, nem me interessa discutir a razão da política justificar a sua intrusão no valor das poetisas e dos poetas. Doutro modo entraríamos nos processos empregues noutros tempos para denegrir gente de valor. 

domingo, 6 de julho de 2014

Citação

Nem todos sabem nadar e há quem nasça com uma pedra agarrada ao pescoço.
.                                                de Fernanda de Castro em"Os cães não mordem"

Um pouco de meteorologia

Discorrer sobre a meteorologia e previsão do tempo não é privilégio, responsabilidade ou compromisso dos respectivos cientistas. Com tantos cursos que há nas universidades portuguesas não me consta, que uma universidade disponha dum que prepare e forme alunos em tal matéria. Posso estar enganado, o que me parece normal e justificado dado que julgo ser de algumas centenas os cursos superiores que as nossas faculdades dispõem para os que pretendem tirar um canudo. Na ilusão de que tal objecto os habilita com garantia, para um bom salário, constituir família e proporcionar aos filhos uma formação decente.
           Uma das provas que não existe tal privilégio está no povo britânico. Nessa ilha, mais de cinquenta e três milhões de súbditos de sua majestade, começam por norma e bons costumes, as conversas referindo-se ao tempo meteorológico dos últimos dias, à previsão do tempo para os próximos tempos e ou às consequências das condições climatéricas que estão decorrendo. E, pelos mais eruditos, aos problemas que daí advirão para a agricultura, para a macroeconomia e para o desemprego e bem estar dos lares ingleses.
           Na minha vida profissional, nos cinco anos antes de me reformar, dediquei a minha actividade dirigindo e executando um projecto que, entre outros trabalhos, incidiu na montagem de cinco postos meteorológicos na zona central do Algarve, para complementar as directrizes sobre a rega naquela zona. Embora o período de observações tenha sido curto, nesses anos e até dois mil e treze, sem excepção, o período em que se verificaram as temperaturas mais elevadas, foi o compreendido entre quatro e quinze de julho. Nesses dias sempre tivemos ceu sem nuvens,pouco vento, calor forte atraindo turistas. Neste Julho de 2014 temos a excepção, temperaturas amenas, dias, como o de hoje, de grande nebulosidade, ventos moderados.
            O turista britânico está indignado! 

Sem viagem

Interrompo a viagem por alguns dias, Tive de me afastar da arca.


Nem sempre podemos fazer
Aquilo que mais nos agrada
Muito ficou por dizer
A quem foi por nós amada

sábado, 5 de julho de 2014

Viagem na arca dos espíritos - 10 -

           Quando eu esperava ver a Manoela, minha irmã, surge-me de súbito a minha Mãe, muito sorridente, encostando a sua face à minha, pena de não a sentir, mas soube-me como um beijo que me dava ao se despedir de mim, depois de me deitar, no meu quarto da casa de Portimão, ao lado do quarto dos pais.
               - Alberto, não me deixavam vir alguns dos meus parentes, agora consegui fugir-lhes...
               - Mãe, que gosto, que enorme prazer me dás em ver-te de novo, não te via há quarenta e nove anos, sei que onde estás o tempo não tem sentido, nem importa, mas aqui na Terra sentimos que passa como dantes, se bem te lembras.
                - Alberto gostei imenso dos sonetos que escreveste sobre mim, fizeste-me chorar de saudade, estava precisamente a mostrar o teu livro a alguns dos nossos antepassados e à Maria Fernanda que o apreciou muito, falou-me até do primeiro que escreveste. E soube que a tua previsão que puseste nesse livro, sobre acabar com o dinheiro e erradicar a pobreza, é uma  boa previsão !
                 - E quando se realizará, Mãe?
                 - Isso não te posso dizer, todos aqui estão proibidos de falar aos que ainda cá não estão, sobre o que quer que se vá realizar no futuro. E entre tantos milhões que por aqui andam nem um  único desobedeceu, basta pensarmos em fazer tal coisa que caímos numa branca, como se diz na Terra e desaparece a intenção.
                 - Querida Mãe, não posso deixar de te pedir uma grande desculpa por me ter zangado contigo algumas vezes, ainda por cima sem razão e por motivos fúteis, penso nessas minhas culpas sempre com remorso. E de algumas traquinices minhas como aquela de roubar o dinheiro do mealheiro da tua mãe, da avó Carolina, embora ela me tenha perdoado. Senti que ficaste muito triste por te contarem essa malandrice minha...
                  - Deixa lá, tudo isso deixa de importar, de ter valor ou qualquer significado quando aqui chegamos, todos ficamos a saber, depois de aqui nos instalarmos, que por cá não há castigos para pagar culpas, ficamos nestas paragens a saber que todos somos mais ou menos culpados do que fazem nossos filhos, por isso as culpas anulam-se compreendes? Mudemos de assunto. Sei e tenho visto que tens uns bonitos e bons filhos, netos e bisnetos, então aqueles lá do Chile que maravilhosos! E o teu neto. meu bisneto, o Frederico, que bom caminho que leva, bem não digo mais nada, não quero que me dê uma branca que me impeça de falar mais contigo.
                   - Mãe, continuas a pintar, a cantar tocando ao piano e a dançar, as coisas que mais gostavas de aqui fazer, enquanto te conheci?
                   - Nem podes imaginar quanto! Aqui só podemos criar e mostrar alegrias, se alguém pensa em lançar tristezas cai numa das tais brancas e muda logo a agulha para o divertimento, mesmo os que mais sisudos aí eram. Ocupo-me em todos os momentos a satisfazer pedidos, uns pedem-me retratos, lápis e tintas não me faltam, outros pedem-cantigas, piano e o teu pai à guitarra ou outros acompanhantes, estão sempre dispostos. E os que apreciam, como eu, de dançar, desafiam-me passo a passo.
                   - E ainda te mascaras e ainda intrigas quando te mascaras,Mãe?
                   - É o que mais gosto de fazer e tenho companheiros para essas mascaradas, olha os italianos de Veneza e os gregos da antiga Grécia, são dos que mais me acompanham!
                   - E o Pai, ainda te acompanha muito?
                   - Quase todos os dias, ao piano ou à guitarra e comendo os pasteis de nata que eu lhe faço todos os dias. Nas mascaradas e nas danças, não, nunca apreciou muito isso.
                    - Mãe, julgo que sabes que a tua neta Clarissa, além do emprego que tem, obtém um bom complemento fabricando pasteis de nata, cuja receita diz ter sido segredada por ti...
                    - Claro que fui eu que lhe segredei a receita e, sabes, estão iguais aos que eu fazia. Lembras-te de quando tinhas cinco anos, num baile de beneficência no Pavilhão da Praia da Rocha, andares a vender os pasteis de nata que eu fiz, a cinco tostões cada um  e mascarado de alentejano?
                     - Ainda me lembro, Mãe, como me lembro que comi quase metade dos que levava no tabuleiro...
                     - Um grande beijinho meu querido filho Alberto. Tenho de ir, estas entrevistas são sempre pequenas porque devemos estar em muitos sítios...
           E a minha Mãe desapareceu, atirando-me beijos.                                               

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Cortar o caule duma flor

Não há carinhos, nem afagos, nem ternuras
Que consigam compensar a côr, o olor, toda a beleza
Que qualquer flor, num vaso, num jardim ou no campo,
Nos entrega, sem excepção em toda sua singeleza


Por isso, cortar o caule que sustenta uma flor
Impedindo que forme as sementes e se reproduza
È provocar o aborto de muitas vidas e impedir
A côr, o aroma e a beleza de tantas novas flores


Ainda que minúsculas, não há flores feias
Mesmo as mais negras mostram beleza no brilho
E está provado que quando cortas o caule duma flor
A mãe planta protesta e emite um grito de dor

Viagem na arca dos espíritos - 9 -

          Não tardou nada apareceu-me o meu irmão João. O mais parecido com o nosso Pai. Os mesmos traços indianos, o mesmo físico, corpo, braços e  mãos fortes. Tão fortes que em Moçambique, quando um pneu furava, tiradas as porcas da roda, não usava o macaco, era ele que levantava carrinha enquanto o ajudante tirava a roda com o pneu furado, enfiava a sobressalente nos pernos, e colocava as porcas.
                 - Olá Alberto, vens para cá ou estás de visita?
                 - Não, João estou viajando nesta arca de que te deves lembrar na casa do nosso Pai.
                 - Sim, a arca de cânfora que ele trouxe da Índia. A tua Mãe é que me disse que hoje querias ver-me aqui.
                 - Diz-lhe que espero vê-la amanhã, não sou eu que determino quem me aparece nesta minha viagem. João recordas aqueles pequenos almoços na minha casa de Portimão? Começavas o pequeno almoço às nove horas, acompanhando-nos, eu ia para o emprego e tu continuavas  conversando com a Mari e petiscando, uma fruta daqui, um pedaço de queijo dali, uma ou duas bolachitas de chocolate do pacote, uma chávena de café com leite até que eu chegava de volta do trabalho, cerca das treze horas, ele e a Mari levantavam-se e da copa, saíam comigo para o almoço.
                 - Por certo que me lembro, eu passei aí uns belos dias na vossa companhia.
                 - E, na carpintaria que montaste em Lisboa, também fabricaste as persianas de tola para a casa onde vivo.
                 - Esse negócio da carpintaria que faliu pouco tempo depois foi mais um mau negócio. Nós os Quadros homens, todos temos tido pouco jeito para negócios, As mulheres Quadros têm sido mais sábias, mesmo as nossas antepassadas que aqui tenho conhecido, foram mais hábeis. Bem, Alberto, podemos conversar por cá, muito no futuro. Um abraço, tenho de ir!
              Tinha muitas perguntas engatilhadas mas não consegui faze-las.             

Viagem na arca dos espíritos - 8 -

      Na arca surgiu-me o meu irmão Francisco. Magro e esguiu, como sempre o conheci. Passou tormentos e anos difíceis. Mas apareceu-me com outra cara, cheia de alegria, mas não a que sempre lhe conheci de indivíduo vendido e espezinhado pela vida.
               - Olá Alberto. o nosso Pai anunciou-me a tua viagem, pensei que estavas cá chegando definitivamente, mas vejo que não!
               - Felizmente não, embora saiba que aí não se passa nada mal, espero e gostarei de estar por cá na Terra por mais uns vinte ou trinta anos -  parece que outra aqui não teremos -, assim o vaticinou o médico cardiologista que me assiste. Claro que quem sabe do meu futuro é o nosso Criador, eu vou gozando muito estes anos que me restam aqui na Terra. Da minha vida não me queixo, ao contrário da tua por aqui, deves ter ficado satisfeito por te embarcarem definitivamente para essas paragens. Mas diz-me, é verdade que lá pela Guiné onde estiveste durante quarenta a cinquenta anos, é verdade que estiveste rico por duas vezes e por duas vezes perdeste as fortunas que tinhas amealhado em incêndios de fogo posto por teus empregados?
                 - Olha Alberto, não me lembro disso, aqui só recordamos os bons momentos que lá passámos, Nem as maldades que alguns aí cometeram aqui são conhecidas ou recordadas.
                 - Chico, falei algumas vezes com a tua ex-.companheira e com três dos teus filhos, a Fernanda, o Nuno e o João. Com o Nuno é que falo de vez em quando, ele ganha a vida com uns trabalhos de informática. Com os outros só falei uma vez. De ti a recordação mais antiga que tenho foi a de uma visita que nos fizeste na casa dos meus pais na Praia da Rocha teria eu os meus dez ou doze anos, lembras-te?  Até me deste uma lição sobre a forma de conservar os travões da biciclete.
                   - Ah, isso deve ter sido lá pelos anos trinta e tal, foi uma boa viagem esse que eu fiz! Tinha uns bons cobres nesse tempo. Mas nada que se compare com tudo o que aqui tenho.
.                       O Chico, olhou para trás, parecia que o chamavam, acenou-me com as mãos um adeus e diluiu-.se naquela neblina escura da arca.                          

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Viagem de arca - 7 -

           Os meus sete irmãos tardam a aparecer. Mas eis que o que era aqui na Terra o mais velho, a Maria Fernanda. Vem com a figura e o semblante dos seus vinte e dois anos de idade quando aqui vivia. Eu havia sido informado, parece-me que pelo meu Pai, que no lugar para onde todos vamos, não há idades, cada uma ou cada um apresenta-se com a idade que, quem a olha, mais apreciou aqui, por recordações, por fotos, pela história de cada um. Desta vez, a Maria Fernanda apareceu-me com a sua figura airosa de antes de casar, dizendo-me:
                - Sabia, pelo nosso Pai, que viajavas na arca de cânfora que o Pai comprou depois de casar com a tua Mãe. Eu aqui vivo, nesta outra vida, rodeada de amigos do meu tempo na Terra e de muitos antepassados poetas que me procuram. Li os teus dois livros, fiquei admirada com o que escreves, não imaginava que a tanto chegasses pois lembro-me de quanto custa escrever os primeiros livros, os primeiros versos, os primeiros contos. Mas nos próximos deixa sair mais do teu coração.
                 - Maria Fernanda - disse eu - que tal achas as obras das tuas netas ?
                 - A Mafalda, tem feito obra não inferior à da Rita. Apesar desta já ir no vigésimo sexto livro, a fundação Antonio Quadros não lhe fica atrás em valor. Doutra forma ele, que aqui é muito apreciado, ai não seria recordado sem a obra dela, a fundação. Estaria provavelmente esquecido. E, não é por ser meu filho, mas porque foi importante a sua contribuição para a literatura. Aqui onde estamos sem sentirmos o tempo, não se distingue quem quer que seja pelo seu intelecto, mas trazemos, de lá da Terra, esse bichinho da cultura, pela minha parte, não cesso de escrever, tenho material que chegaria para editar mais vinte ou trinta livros. Aliás pelo que aqui me informaram, num futuro não muito longínquo, para vós não serão necessários os livros, os habitantes da Terra - o que sucede e sucedeu há muito em muitos outros planetas existentes ou que existiram - conversarão e conhecerão toda a obra escrita por comunicação mental.
                      - E tardará muito, Maria Fernanda?
                      - Não te posso dizer quanto. Aqui sabemos, se o desejarmos saber, o que irá acontecer. Porém, como aqui não existe tempo da forma que existe aí, nada sabemos - nem sequer pretendemos saber - de medidas de tempo seja para o que for. Aqui, o universo do nosso pensamento, expande-se ou contrai-se quando pretendemos desvendar qualquer incógnita, dúvida ou problema. Algum dia
continuaremos a conversar.
                      - Maria Fernanda, o que eu mais apreciava em ti, era seres incapaz de culpar alguém por maior pecado que cometesse. Tinhas sempre uma palavra de louvor, suavizavas sempre o que comentavas a respeito de quem a voz comum era a de crítica acerba.
                       - Sempre pensei que de nada serve apontar os erros e os pecados dos outros por maus que fossem. Para que serve isso?  Só serve para sairmos da alegria em que vivemos.
                       - Disseste que continuaremos a conversar, quando será?
                      - Mesmo que o soubesse não te diria, como deves saber pelos teus antepassados com quem tens falado, aqui não existe a pergunta - quando? -  E pela mesma razão, não existe a resposta.
            E a Maria Fernanda vestindo aquele lindo vestido branco. vaporoso, delicado e diáfano, afastou-se, sorridente.                          
  

Sofrendo em algarvio

             As duas amigas contavam vantagens infelizes, relatavam pormenores com salpicos de lamentos, situações doentias empoladas pelo desejo de impor e evidenciar  as suas desgraças.  Pessoas que sempre pretendem ser as mais infelizes, quando se trata de confessor desditas sofridas.
                 - Má na  quêras saber Etelvina, das dores assenhadas que tenho tido nas partes do mê lade esquerdo!
                 - Pôzeu  nem te oço Aidete, com as zumbideiras  nos ouvidos mas o más mar de tudo tenho os intestinos inferiores que parecem que estalam, tam duros, tam duros que nem me consigue virar a dormir. E só na semana que vem , na quarta-feira, tenho consulta mrarcada.
                  - E eu, eu Etelvina, já arecebi o papel da renâincia manética, aquilo tá escrte tudem chenês nem o mê merido que tem o nono ano, apercebeu nada.
                  - Eu fui à consulta ontem mas a médeca , que tamem se chama  Aidete, só me disse  queu tenhe de comer menos pão, menos batatas, menos bananas, menos massas, menos espaguetes, menos bacalhau com batata, ora é tudo o queu gosto mais, mas mesmo com os tejolos que cá tenho na barriga, ando sempre com fome.
           Levantaram-se as duas e caminharam, continuando sofrendo e contando desgraças,