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terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Folhetim - Sonho de sorte - 24 - por Alberto Quadros

                                                              IX
           
            Catorze anos antes.

           Fernando acabara o curso e o estágio obrigatótio numa fábrica de acessórios. Vivia em Lisboa, num quarto assolarado, com janela para o Sul, avistando o Cristo Rei na outra margem e a basílica da Estrela, a norte. Aguardava a chegada dos pais que haviam viajado de carro, por Espanha, devendo regressar no fim da tarde desse dia. Telefonaram de Badajoz, onde haviam passado a noite. Pelo que, como o dia convidava a passeio, resolveu ir até Sintra, onde almoçaria e passearia pela cidade nas horas seguintes.
           Pouco conhecia da povoação. Estivera lá apenas uma vez, na companhia de amigos pouco interessados nas belezas históricas, mais dedicando a atenção às amigas que os acompanhavam naquele dia. A memória lembrou-lhe as duas altas torres cónicas, o "ex-libris" de Sintra e que, como então soubera, encimavam a cozinha daquele palácio, tambem conhecido por Paço de Sintra. Para onde se dirigiu depois de terminado o almoço.
            Fernando, enquanto caminhava, ia recordando o mesmo passeio que anos atás fizera na companhia de amigos. Amigos que ainda conservava e amigos que haviam optado por outras amizades. A curiosidade ocupava-lhe agora o pensamento, curiosidade pelo interesse involuntário
que lhe guiava os passos e que manifestara desde que decidira ir até Sintra, almoçar naquele restaurante, olhar para as torres cónicas, decidir o passeio e a visita ao palácio.
            Entrou, percorreu a cozinha e diversas salas. Na última, uma família escutava com atenção um guia que descrevia  pormenores num dos azulejos, O homem sabia do ofício, inserindo oportuas anedotas e comentários alegres, provocando risos e sorrisos. Fernando passou pelo grupo - duas raparigas e um rapaz que, pelas semelhanbças de feições deveriam ser os filhos do casal que os acompanhava - tentando não perturbar o relato do guia. Este, avistando-o, um pouco atrevido interrompeu a dissertação e disse-lhe:
                  - Junte-se ao nosso grupo estes senhores com certeza não se importam!
( continua )   

Sobre o meu folhetim

              Tento apresentar, pelo meu folhetim, em prosa simples uma idéia traduzida e culminando numa proposta: diminuir, até à eliminação, o dinheiro e a sua necessidade, reduzindo e eliminando a pobreza. Que atraia pelo inusitado e pela fantasia. Que apresente algo de importante e vital. Uma contribuição para uma desejável e possível alteração no sentido da vida, dependendo da vontade das mulheres e dos homens. E criei a novela deste folhetim, para amenizar a leitura, mas com a vontade de traduzir aquela ideia numa proposta viável.
              O capitalismo talvez seja agora o melhor sistema de vida. Mas, como tudo o que existe, será um dia ou numa época substituido, talvez só quando as mulheres e os homens não necessitarem do dinheiro para viver bem e  com dignidade. 

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Folhetim - Sonho de sorte - 23 - Autor: Alberto Quadros)

                  - E se fôssemos andar um pouco por Sintra? Julia, vamos àquele palácio nacional, o Paço de Sintra, onde nos conhecemos e começámos a namorar?
        Todos concordaram com a visia, o palácio não ficava longe, as duas grandes chaminés geminadas e cónicas bem à vista.
        Percorreram as grandes salas do palácio, admirando as paredes forradas daquela extraordinária azaulejaria com mais de cinco séculos.
        Carlos era o guia turístico de serviço, uma vez mais dando provas da sua memória:
                  - Dom Diniz decretou que os responsáveis pela conservação do Paço de Sintra seriam os mouros forros de Colares - disse ao sairem da última sala - E propôs:
                  - Vamos agora tomar um café aqui ao lado, o vosso guia paga.
        Entretanto , quando se levamtavam para sair, um cauteleiro aproximou-se:
                  - Há horas de sorte, são os últimos dois bailhetes, são vinte mil contos!
       Carlos segurou o braço da Laura e disse para Fernando, que parecia distraido:
                  - Fernando, olha quem aqui esá, o cauteleiro que te vendeu o tal bilhete da confusão dos vinte mil contos - e Fernando petrificado, voltou-se para encarar o homem e disse:
                  - Oh senhor cauteleiro, lembra-se de me ter vendido um billhete? Um que parecia ter o mesmo múmero do primeiro prémio nessa semana?
                  - Ah! Já sei, o mil trezentos e vinte e seis, vendo esse número todas as semanas, mas hoje não o posso servir, só me resta o catorze mil novecentos e vinte e cinco e o quinze mil e  trinta e um. - E Fernando, para Julia, que assistia divertida:
                  - Julia, que dizes?
                  - Olha querido, compra, compra, vamos ver se o tipo dos sonhos não te faz comprar outra vez um bilhete com os números trocados! - E Fernando pegou no bilhete catorze mil novecentos e vinte e cinco.
                  - Agora tambem vou eu comprar lotaria, vamos ver quem tem mais sorte. - Disse Carlos, recolhendo e pagando o outro bilhete.
         No regresso, Laura, inconformada, comentou:
                  - Carlos, parece que tambem te apareceu o homenzinho dos sonhos!
                  - Tenho esperança que me apareça, se me contemplar com alguma sorte, Laura, dado que somos casados com comunhão de bens, agarras logo a tua metade. Se tiver prémio, fica descansada que não o oferecerei.

                                                                  ######

         Por vezes é salutar dizer pára! Mesmo que continues a andar, pára! Deixa esse manto de sensações que te rodeia como invólucro peganhento. Pára! abstrai, pensa no que te fica dentro. Mesmo que continues a andar. O mais dfícil é o primeiro minuto, E esse teu eu profundo começará a sorrir-te, não com o teu rosto mas com revelações das primeiras migalhas de serenidade.
( continua )

Uma vintena

Um pai tem qualquer homem
Duas pessoas um casal
Três partes o corpo humano
Quatro cantos um quadrado
Cinco quartos a unidade
E seis sempre a meia dúzia
Sete dias a semana
Oito versos até aqui
Nove se à dezena tiro um
Dez decímetros tem um metro
E onze um grupo de futebol
Doze dúzias uma grosa
Treze tiros podem matar treze
Catorze são sete mais sete
Quinze litros é muito vinho
E dezasseis ainda mais
O dezasete pouco se usa
O dezoito é mais redondo
O dezanove quase vinte
E com este vinte me fico 
 

domingo, 29 de janeiro de 2012

Quando se sabe é muito fácil - ou - A tortura do computador

(Lenbrando Ivone Silva)

Carrego no imagem
Carrego no enter
Nada acontece
Volto ao link
Escolho o ficheiro
Selecciono aqui
Visualizo ali
Nada no blog
Mas eu insisto
Pois se já fiz isto
Mais duas vezes
À direita, à esquerda
O link é falso
Nada acontece
E dizem eles
Sem dó de mim
Que o material
Tem sempre razão
Volto à  escolha
Dizem que é facil
Que um burro o faz
E eu que julgava
Não ter tal parente
Vou sempre insistindo
Eu nunca desisto
Vou, vou tentando
Pr´a frente e pr´a traz
Sempre insistente
De cima pr´a baixo
De perto e de frente
Abrindo o ficheiro
Com serteza absoluta
Que o quero apagar
Que o quero lixar
E pelo sim pelo não
Por mais ou por menos
Eu vou reciclando
E acabo encerrando.

Folhetim - Sonho de sorte - 22 - .(Autor - Alberto Quadros)

           Carlos, desde muita novo, desenvolvera grande capacidade de iniciativa. No liceu sera suficiente olhar dez ou vinte segundos cada página dada na lição anterior para as fixar durante imenso tempo. Após a formatura superior de economia dedicou-se de imediato à editora, auxiliando o pai, obrigado pela doença a dispor de pouco tempo para a empresa. E, em casa, seis prateleiras que ocupavam de cima abaixo as paredes, na sua maioria continham livros de arte, história e filosofia. no entanto, Carlos ali não colocava um livro sem o catalogar e sem o folhear, como folheava os livros do liceu. Surpreendendo os amigos, conhecia sempre e com minúcia notavel qualquer livro que se escolhesse na sua biblioteca.
           Possuindo muita facilidade de palavra, humor fluente e elegância nas respostas, com frequência era convidado para palestras ligadas à sua formação ou à actividade da empresa editora onde já exercia desde há alguns anos a função de gerente. Não publicava um livro sem o folhear do princípio ao fim e, se lhe perguntavam como tinha paciência para tanto, respondia sempre "se não gosto do que vejo escrito, faço-o por dever de ofício, se gosto, faço-o com prazer".

           Em Sintra, Laura estacionou o carro junto a uma esplanada e dedicou-se, com o marido e os amigos, aos refrescos e às queijadas. E tambem à continuação do tema sobre a sorte.
                 - Continuo a pensar que a sorte não existe, o destino sim - e Laura acrescentou - diz-me cá Fernando antes desses sonhos quando foi que tu e Julia tiveram sorte? Dessa sorte de que falávamos há pouco no carro, sorte como a sorte dos vinte mil contos, se vos tivessem saido, sorte de vos surgir qualquer coisa muita inesperada, muito boa, de possibilidade quase zero?
                  - Penso que há várias respostas. Muito inesperada e muito boa para nós foi a notícia da gravidez de Julia, da primeira e da segunda...
                  - Bem, essas penso que nem inesperadas nem de possibilidades zero!
                  - Ora! Sorte como a dos vinte mil contos não foi sorte, foi desilulsão, desgosto e tambem preocupação... Um pouco de temor pelo que o futuro nos vai dar com esta coisa dos sonhos, - Fernando acrescentou - e estou a sentir-me nas mãos do imprevisto. Mas igualmente  começo  a sentir alguma curiosidade e algum prazer desta passagem do sonho à realidade.
( continua )                                 

sábado, 28 de janeiro de 2012

Folhetim - Sonho de sorte - 21- (autor: Alberto Quadros)

                      - Laura, não estamos a tratar de negócios com qualquer sujeito ou sujeita!
             Mas Laura  insistia:
                      - Julia, como é, passas a ser uma milionária sem pasta? - e Carlos, condescendente, acalmando os ventos:
                      - Laura, deixa-os proceder como queiram, aliás de certeza que não vão ganhar mais nada, eu continuo a não acreditar em sonhos...
                      - Os sonhos - disse Fernando - têm sempre um significado, rezam os tratados dos senhores psicólogos. Do que recordo de Freud, ele dizia e defendia que os sonhos reflectem experiências inconscientes, desejos reprimidos...
             Julia atalhou:
                      - Sim, contudo essa teoria não menciona este dá e tira, dá-te agora uma data de massa, em seguida obriga-te a tirá-la do bolso e entregá-la a um felizardo qualquer.
             E Fernando:
                      - Diz-me Julia, não ficaste contente por eu ter oferecido cem contos ao empregado do restaurante? Não gostaste de ver a expressão dele quando lhe entreguei os papeis do prémio do
totoloto?
                      - Sim, saí do restaurante como que aliviada, sentia-me vaidosa ao ver  que todos os empregados presentes e muitos clientes te olhavam de forma aprovadora, até houve palmas! Mais uma vez o meu marido me surpreende.l Confesso-te Fernando, não esperava que aproveitasses tão depressa esta oportunidade!
                      - Supõe agora, Julia, que teremos vinte ou trinta mil contos doutro prémio para dar, não
será que , depois de os distribuir, ainda nos sentiremos melhor?
             Carlos interrompeu:
                      - Isso não acontece..l.Ninguém tem assim tanta sorte, sorte a pedido não aparece, nem sonhamos de acordo com os nossos desejos...
             Entrando no novo tema de convesa, Laura disse:
                      - Eu é que não tenho sorte alguma, não me aparece um homenzinho nos meus sonhos. Eu não acredito na sorte, acredito no destino marcado, como diz a letra daquele fado antigo. -  e o marido, argumentando com ar trocista:
                      - Mas querida, essa é a atitude mais burguesa, a sorte é um conceiro imaginário, já o era para os gregos que, na sua mitologia representavam a sorte pelas três Moiras ou Parcas, figuras tenebrosas e que seriam as obreiras do tecido da vida de cda cidadão, utilizando a Roda da Fortuna como tear. A roda marcava a posição boa ou má da sorte do individuo. Se a roda parava numa posição mais acima ou mais abaixo, assim se julgavam os gregos com mais ou com menos sorte. Já a mitologia romana encarava a sorte de forma muito diferente, acreditavam menos no destino, para eles a sorte dependia da deusa Fortuna, dos seus favores, não do acaso, sendo a Fortuna, como mulher, sensível à audácia, à ousadia, à virilidade....
                      - Tu tambem tens a fortuna dessa tua enorme memória! - interrompeu-o Fernando.
(continua)

Participando

Num conjunto de personagens
Que  se envolvem numa intriga complicada
Numa missão importante
Ou numa discussão  ou jôgo intelectual

Uns, participam por desmedida ambição
Alguns apenas pelo prazer de conversar
Outros pelo gosto de aprender
Poucos pelo interesse de ensinar

Se os participantes são leais
Ou empregam argumentos racionais
Se escutam com permanente serenidade
Se não interrompem o que os outros dizem

Com expressões agrestes a meio das frases
Levantando a voz para abafar o que outros proferem
No final todos lucram ao conseguir
Uma vez mais, encontrar um pouco da verdade. 

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Folhetim - Sonho de sorte - 20

        Fernando, sorrindo para Julia e para o casal amigo, aguardou os comentários. Sentia uma satisfação intensa porem indefenida, sublime, agradecendo-se intimamente pelo acto que praticara, continuando a desfrutar do espanto, da surpresa e da incredulidade manifestada pelo empregado de mesa. E prometeu a si mesmo que, se o sonho continuasse a concretizar-se , voltaria e voltaria e voltaria  a dar, tudo o que tivesse que dar e que a sorte lhe proporcionasse.
       Julia, depois de alguns segundos a olhar, sorrindo, para Fernando, abraçou-o e beijou-o, enquanto Carlos e Laura se levantavam e tambem os abraçavam.
              - Esperamos que essa sorte te acompanhe para podermos passar mais momentos tão bons como este. E sorte...Vocês sabem o que disse Ofídio sobre a sorte? "A sorte afecta tudo, lance sempre o seu anzol, no riacho onde menos esperar haverá um peixe" - E Laura continuou:
              - Eu sei uma de Séneca: "A sorte respeita os valentes, e oprime os covardes".
              - Já agora, eu tambem tenho uma, esta de Tenessee Williams: "sorte é acreditares que tens sorte".- rematou Julia.
              - Bem, meninos, acabem lá com essas manifestações de falsa cultura. Sabem que mais? Parece-me que o próximo passo será tentar de novo a lotaria, peço que me ajudem a encontrar aquele cauteleiro e me auxuliem a distribuir o prémio gordo que me vei sair - disse Fernando.
              - Olha maridinho, vê lá se te enganaste e deste ao empregado de mesa uma aposta sem prémio, olha que com o bilhete dos vinte mil contos... Vê o que ele pensaria de ti se agora te tivesses enganado ou se a senhora do quiosque...Não, ela não se enganou, viu o prémio na máquina.

                                                                      #####

          Foi o início do cumprimento da regra da sorte. Vejamos se seria permanente, se existiria vontade e empenhamento na sua aplicação.


                                                                   VIII


          Os dois casais enfiaram-se no automovel do Carlos, deixaram Algés e meteram-se no caminho de Sintra. Julia e Laura comentavam, com risos e galhofa, a conversa durante o almoço. Os maridos iam falando na política do governo, os avanços da corrupção  e da crise, as últimas novidades da indústria automovilística. Nunca referiam problemas no emprego, nunca falavam mal de quem quer que fosse e evirtavam sempre , sem esforço, assuntoss desagradaveis.
          Laura, de súbito, elevou bastante a voz, muito acima do  ruido do transito e exclamou:
              - Então queres tu que eu acredite que, se vocês obtiverem de novo um prémio de jôgo de vinte mil contos ou coisa parecida, o teu marido vai disttibuir todo esse dinheiro pelos pobres?
              - Parece-me que sim, já viste o que ele fez aos cem contos!
              - Não te dá  a ti nem sequer uma comissãozinha? Além disso, vocês são casados com comunão de bens e tu...
          Fernando, que interrompera a aconversa com o Carlos, afirmou:
              - Não serviria de nada, não é Julia? O nossos partão dos sonhos não autorizaria...
              - Mas, olha lá, se já tiverem a massa na mão ou na vossa conta o dinheiro do prémio?
(continua)










  

O que muito devo

Conto os dias, faço as contas
Eu que nunca soube fazer contas, da vida, na minha vida
Eu que ponho sempre o eu acima de ti,
Porque já esqueci o que é embalar uma criança
E a inquietação que me provocava, a mim, criança, uma trovoada
E o sussurro que produz uma palmeira agitando os seus ramos
Ou a conversa dos pássaros nos jacarandás
Que mal conto os meses e os anos
Que classifico de irrisório um segundo ou um minuto
Que sinto o peso do ferro, do bronze, da moeda
Mas não sinto a leveza da sinceridade
Nem o peso da hipocrisia
Não saio à rua para condenar a maldade
Nem para apregoar pelas ruas e pelas vielas
Que muito devo por ser livre,  por viver em liberdade.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Folhtim - Sonho de sorte - 19

     Quase por regra os dois casais envolviam-se em discussões amigaveis, por vezes bastante  inflamadas mas que sempre terminavam com um comentário oportuno e contundente, num argumento inteligente, inatacavel, ou numa anedota que deixava os quatro bem dispostos até ao final da refeiçjão.
     Foi Carlos quem quebrou o silêncio declarando:
          - Essa homenzinho dos vossos sonhos é um grandessíssimo sacana! - e acrescentou - Eu gastaria o prémio numa bela jantarada...
      Mas Fernando não concordou:
          - Não Carlos, já conbinei com a Julia o destino a dar ao prémio vamos dá-lo ao  primeiro necessitado que nos apareça - e aqui foi a vez de Laura respingar:
          - Oh Julia tu, tu aceitas, ficas-te?
          - Fico-me, fico-me, como disse o meu maridinho já está tudo combinado.
      O empregado de mesa que os servia, interrompeu-os, enchendo de vinho os copos vazios. Fermando, vendo-o triste e cabisbaixo, perguntou-lhe:
          - Senhor Duarte, que cara é essa, algum problema lá por casa?
          - Temos lá um grande problema, o meu filho necessita ser operado, pela caixa é impossivel, morre antes, disseram-me que só tem vaga para ser operado em Dezembro do ano que vem. Para operá-lo fora do hospital, só a operação vai-me custar cem contos e terei de entregar já, um sinal de vinte contos para que a operação se faça dentro dum mês... O médico disse-me que ele tem de ser operado já....
       Fernando olhou para Julia, viu no olhar dela a compreensão e a concordância com a resposta a dar ao que o empregado de mesa dissera:
          - Senhor Duarte, tem essa parte do problema resolvido, aqui tem esta aposta do totoloto, tem ai´ cem contos, que pode receber depois de amanha no quiosque da esquina. - E entregou-lhe o papelinho da aposta, que entretanto sacara da carteira.
          - Senhor engenheiro, mas e´ uma grande ajuda, eu logo que puder vou-lhe pagar...Olhe que lhe vou pagar, eu nao me esqueço.
          - Nao, senhor Duarte, e´ uma oferta, e´ uma oferta! Ah! Nao pode contar isto a niinguem, mas mesmo a ninguem.
          - Hei de lhe pagar, senhor engenheiro, tenho de lhe pagar.
          - Senhor Duarte, nada quero receber mas ... Se insiste em me pagar, como nada quero receber, o que pode fazer e´ dar esse dinheiro a quem veja com uma grande necessidade, como a que o senhor tem agora. E nao falamos mais nisso, va´ la´ buscar a nossa sobremesa. -  E o Duarte, um pouco atarantado, nao conseguiu dizer mais nada e afastou-se.      
  (continua )    







     

Duas palmeiras

A palmeira que cresce em frente da minha janela
Uma irmã doutras que plantaram noutras ruas
E que já está quase da altura do primeiro andar
Do monstro de apartamentos  em frente da minha janela

Como todas as ásvores que se prezam
Tem o tronco bem direito, orgulhoso, vertical
Que se expande em quinze folhas recortadas
E que aguentam o vento como todas as folhas que se prezam

Tambem existia uma palmeira no quintal da minha avó
Já enorme quando a mim me chamavam de menino
Que eu sempre observava quando subia ao terraço da nossa casa
Ou quando ia brincar no quintal da minha avó

Há dias, nesse quintal vi com tristeza
Que cortaram,deceparam, eliminaram, essa palmeira
Parei no sítio onde ela viveu
E ali fiquei e vivi meia hora de incerteza.  

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Folhetim - Sonho de sorte - 18

             Fernando encontrou o papelinhoda aposta, comparou-o com a informação da televisão:
                 - Devemos ter algum prémio, há aqui nada menos que cinco múmeros acertados, de quanto será o prémio...Quase que aposto que é de cem contos - E Julia, não o deixando contimuar:
                 - Qual quê! Cinco números acertados? O prémio tem de ser maior, continuo não acreditando nessa história do sonho. Apostas? Então aposta comigo, se te sairem mais ou menos do que os cem contos, ofereces-me o prémio...Vale?
                 - Aceito a aposta - disse Fernando... Mas se sairem os cem contos, vou cumprir a regra do homenzinho, vou oferecê-los às irmãs da Nossa Senhora da Conceição.
                 - Fixe, aposta aceite -. e ambos emudeceram, agora mais interessados pelas notícias da televisão.

           No dia seguinte, um domingo sereno de dezembro, a caminho do restaurante, pararam  no primeiro quiosque que encontraram aberto. Fernando entregou à senhora que o atendeu, o papelinho da aposta, dizendo-lhe:
                  - Bom dia! Veja lá se dá uma grande alegria aqui à minha esposa...
           A dona do quiosque meteu o bilhete na máquina e disse:
                  - Pois minha senhora, já ganhou o dia, tem aqui um prémio de cem contos, depois de amanhã já poderá recebê-los...- E devolveu o papelinho  a Julia.
                  - Não, não são para mim, são para o meu marido!- E Julia arrastou Fernando, pegando-lhe no braço, não querendo mais conversas com a propretária do quiosque, viciada em falatórios e mexericos.
            Entraram pouco depois no restaurante onde, por hábito antigo, almoçavam aos domingos, com frequência na companhia Carlos e da esposa Laura.
                  - Aqui tens. Laura, - disse  Carlos - o casal milionário e que agora com certeza já não
acredita em sonhos...
                  - Ah! Ainda não sabes a última - disse Julia - conta-lhes, conta-lhes, Fernando!
                  - Bem, afinal o bilhete estava branco, fiz uma certa confusão entre os algarismos e...Olha, o primeiro prémio foi para o Porto...- E Fernando prosseguiu na explicação:
                  - Entretando o homenzinho do sonho apareceu à Julia em novo sonho, agora temos um prémio de cem contos no totoloto - E acrescentou: - Mas desta vez, e de acordo com a Julia, vou oferecer este outro prémio, sempre quero ver o que acontece.
            Carlos, de imediato, atacou:
                  - Podias oferece-lo a mim, necessito de facturar...Mas vamos primeiro ao bife, que já arrefeceu.
             Julia continuou relatando todos os pormenores, as últimas novidades sobre o assunto dos sonhos. Após o final do relato, durante alguns segundos reinou um silêncio, algo inusitado.







   






 acredita em sonhos 





 


_             

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

A escuridão

A primeira coisa que odiei na vida: a escuridão
Se o Sol tanto ilumina
Tanta luz nos dá e espalha
Se á noite temos a luz das estrelas, meteoros e cometas
Porquê temos escuridão num quarto fechado,
Porquê a escuridão dentro duma caixa hermética?

Será uma condição da vida?
Uma compensação pela luz?
É a ausência total do pensamento?
Será mais uma experiência do Criador?
Um desabafo de Deus pelos nossos pecados?
Ou uma probabilidade imensa do futuro?

São interrogações sem resposta para mim
Ou a que muitos respondem com um encolher de ombros
Dizendo que é assim mesmo ou outras respostas parvas.
Só sei que continuo a detestar a escuridão
A abrir a luz sempre que sinto a escuridão envolver-me
E a não compreender porque o Criador não a elimina.

Folhetim - Sonho de sorte - 17

          Fernando recomeçou a conversa quando iniciavam o pequeno almoço:
             - Falta qualquer coisa...Falta contares...
             - Ah!...Já pensava que não tinhas interesse...- e, recolhendo as chávenas e os pratos, foi dizendo:
             - O homem veio com a mesma lenga-lenga, disse-me o que te tinha dito a ti...Mas, com duas diferenças...
            - Quais, quais? - Interrogou Fernando, sorrindo e demonstrando grande curiosidade.
            - É que agora não é na lotaria mas no totoloto...E a outra diferença é que agora o prémio vai ser bem menor, cem contos, se cumprires as mesmas regras.
            - Mas êle tambem te impôs as mesmas regras?
            - Tintim por tintim, as mesmíssimas...
            - Como disse o Carlos, o homenzinho é um completo sovina...E então no totoloto...Não compro isso!
            - Ai! Agora não! Se não compras tu, sou eu que vou jogar...Cem contos são sempre cem contos, agora quero eu ver o que acontece...

          Saíram juntos e, no quiosque na esquina, Julia pagou duas apostas do totoloto, enquanto Fernando lia, distraido, os títulos diversos dos jornais do dia.
          Julia guardou as apostas e encostou-se ao marido com um sorriso carinhoso e, enquanto lhe metia sub-repticiamente uma das apostas num dos bolsos exdteriores do casaco, foi dizendo para o marido:
              - Sempre quero ver  se eu ganho os cem contos...

                                                                VII

          Numa noite, depois do jantar e dos costumados telefonemas para os amigos, sentaram-se na sala para ver e escutar o noticiário da noite na televisão. Estava a findar o sorteio do totoloto. Julia, procurando na mala a aposta comprada, depois de a ver, disse para o marido:
              - Nada, nem acertei num só número!
              - Contigo o prémio do sonho não saíu - comentou Fernando, trocista - ainda por cima o homenzinho do sonho não gosta duma mulher tão bonita, não tem bom gosto! - Mas Julia interrompeu-o:
              - Olha lá, e se tu tivesses prémio? O que êle me disse foi qe tu e não eu, irias ter um prémio de cem contos no totoloto...
              - Como ter um prémio? Só pode ganhar quem joga e eu, como sabes, não compro totoloto..
              - Não compraste mas comprei eu, ofereci-te uma aposta, daquelas que a máquina fornece ao calhas...- disse Julia com ar comprometido.- Ora vê no casaco, puz num dos bolsos a aposta, podes ter algum prémio...       
    ( continua )
  

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

A senhora árvore, essa distinta senhora

O homem e a mulher respeitam muitas coisas na vida
Umas impostas pelos preceitos, outras por tradições
Entretanto, às árvores raro concedem a atenção devida
Respeitam muito mais o fõgo que as imola
Dentro da condição de seus ancestrais na natureza.
Se cada indivíduo deste mundo, plantasse uma árvore
Nem que fosse uma só árvore, durante a sua vida
Nunca mais a esqueceria, como nunca mais esquecerá
O dia de ventura em que lhe nasça um filho

Então consideraria a árvore seu antepassado
Não permitiria que a molestassem,
Como não permitiria o dolo a seus filhos
Em vez de ter cabeça, tronco e menbros
A árvore tem folhas, ramos, tronco e raizes.
Quando uma semente germina e nasce uma árvore
Ela fica agarrada à terra, nela permanece e cresce,
Resistindo a ventos, caraclismos e tempestades
Contribuindo com artes de génio para inundar
Toda a atmosfera  de oxigénio, vital para todos nós.

O homem, que a lei castiga se outro homem tortura
Nunca emitiu uma lei que castigue quem torture a árvore
Aboliu o costume oriundo de antigas tradições
De apertar os pés às crianças, nalguns paises do oriente.
Cortar e matar uma árvore, salvo raras e convenientes excepções
Começaram desde há muito todos os humanos,
Para as empregarem em casas, em outras construções, em utensílios,
Alguns até servindo para matarem o homem
Ou todos os outros animais que aqui nos acompanham na Terra

E mais,  não compreendo os homens e muito menos as mulheres
Que todos os dias sentem prazer ao observar um bonsai,
Uma árvore muitas vezes mutilada,
Que fica dentro duma casa, aprisionada numa vaso, como troféu.
Cortam-lhe os ramos sempre que despontam,
Cortes recordados em cicatrizes nos ramos principais.
Gostam portanto de observar uma árvore decepada
Como gentes antigas gostavam de ver prensadas
Os pés pequeninos de  muitas das suas meninas.

Folhetim - Sonho de sorte - 16

         Julia, Fernando e os dois filhos, formavam uma família muito unida pelos sentimentos, educação e esperiências vividas. De forma admirável, haviam conseguido inculcar nos filhos tudo o que de melhor tinham herdado dos pais: a suavidado no trato, o desprezo pela inveja, a aversão pelas discussões inúteis, o gosto pelas artes. Naquela família, os anjos triunfavam sempre sobre os demónios, o Sol sobre as sonbras, a calma sobre a agressividade.
         Encararam ambos a situação ocorrida, em silência, sem comentários. Já em casa, Julia disse:
             - Fernando, os miúdos vão ter uma grande decepção, de manhã contei-.lhes, já começaram a imnaginar coisas... Logo à noite temos de lhes falar...
             -  Tenho esperança que apareça o homenzinho do sonho. Será dificil, não sonhamos quando queremos nem no que aqueremos, ningúém tem sohos "a la carte".
             - Sim, esquece, depois do jantar aconversaremos mais, se nos sobrar paciência para tanto.

          E passaram-se sete noites sem sonhos até que numa manhã ensolarada, Fernando acordou com os beijos repetidos da Julia.
             - Fernando, querido, acorda... acorda! Agora serás tu que te vais rir do sonho que tive esta noite! - e continuou, perante o ar estremunhado do marido - Apareceu-me o homem dos teus sonhos parece-me que eu tenho mais encanto! - e acrescentou enquanto Fernando se espreguiçava - Então, não estás cheio de ciúmes  por um homem por um homem me vir visitar?
             - Qual homem? Ah! Sim, está bem, um homem num sonho...E a conversa foi longa?
             - Não, muito curta, mas interessante, não queres saber?
             - Sim, conta lá, conta, enquanto eu me preparo para o pequeno almoço...- E deram outro beijo, continuando a despertat diversos apetites.
       
           Julia há muito que se habituara, nas conversas com o marido, a múltiplos compassos de espera. Até durante o namoro assim havia sido, a primeira resposta rápida, nessa época, havia surgido ao aceitar-lhe o pedido de casamento e o beijo que se seguiu.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Lamentamos a pouca sorte quando a probabilidade é mínima; mas pouco nos alegramos ou pouca importância concedemos a tanto que nos acontece na vida com probabilifade ainda mais reduzida. Como termos nascido nesta condição, neste lugar, neste tempo.

Folhetim - Sonho de sorte - 15

          Ao meio-dia Fernando foi ao banco e não tardou a ser recebido, pelo Cunha, o gerente. Quando o atendeu já tinha o envelope que continhe o bilhete em cima da secretária.
             - Lembra-se o que eu escrevi por extenso nas costas do envelope o número do bilhete?
             - Sim, então não é o seis mil duzentos e trinta e um? - perguntou Fernando.
             - Não. Como vê , aqui está escrito o número do bilhete que se encontra dentro do envelope, é o mil trezentos e vinte e seis. Aliás vamos já confirmar, pode verificar que esse bilhete está branco...- disse o Cunha, rasgando o envelope, extraindo o bilhete e entregando-o a Fernando..
             - Senhor Cunha, desculpe esta confusão, se me sair outro prémio vou ter mais cuidado - disse Fernando depois de olhar para o bilhete.
             - Engenheiro Fernando Garcia, suponho que quer comprar um automovel, não há problema, se necessitar de crédito resolve-se já o assunto.
             - Não, muito obrigado, vou aguardar mais uns dias... Boa tarde. Desculpe-me uma vez mais.
          Fernando despediu-se e saíu do banco pouco conformado com todo aquele imbróglio.

          No restaurante, depois de se sentar à mesa, Julia, que o esperava, desabafou:
              - Então, não demores mais, não trazes bôa cara, algum problema no banco?
              - Sim, fiz uma grande confusão, afinal os vinte mil contos fugiram para o Pôrto, no banco o gerente explicou-me tudo, tal e qual como o vendedor do carro nos contou...- e relatou a conversa com o Cunha.
              - O quê? Mas se tu me disseste que ouviste na televisão, não acredito que te tenhas enganado dessa forma. Olha lá tens a certeza que o Cunha é homem sério?
              - Tenho, como já te disse, é pessoa de confiança. Aliás, êle meteu o bilhete dentro do envelope à minha vista e eu vi-o escrever lá o número...Olha, paciência, foi uma daqueles erros sistemáticos que todos temos às vezes, sobretudo em momentos de nervosismo ou de inquietação.
           As surpresas, bôas ou más, são sempre inesperadas. Raramente concretizam desejos, fantasias ou sonhos persistentes. Por vezes, trazem lágrimas, outras vezes conforto, alegrias. Se nos desesperam com a realidade, estão a medir a nossa força e têmpera. Se nos provocam admiração, espanto, incredulidade, fazem-nos crer mais, avivam-nos as esperanças nas nossas convicções sobre o futuro.       

A não esqucer

É muito facil encarar a pobreza
                     Dos outros
É muito dificil aceitar o encanto
                     Dos outros
Mais difícil ainda sentir o sofrimento
                     Dos outros
E muito mais fácil rirmo-nos da pouca sorte
                     Dos outros

Muito fácil correr pela  vida, sem olhar
                     Para os outros
Muito difícil sentir a chuva sem gabardina
                     Nos outros
Mais difícil sentir a fome irremediável
                     Dos outros
E muito mais fácil não reparar nos desastres acontecidos
                     Aos outros

A quem voltaste as costas
A quem negaste um olhar
Diz-me cá de quem tu gostas
Com quem aprecias falar

Todavia

Se oferecemos o pouco que nos custa,
                      Exigindo a pronta retribuição
Se sempre interpretamos o que nos dizem
                      Como sendo o que queremos que nos digam
Se não respeitamos as condições
                      Ou as reservas que nos pedem
Se logo que oferecemos a mão
                      Pretendemos conquistar toda a alma
Se logo que um sorriso nos concedem
                       Queremos que nos entreguem todo o corpo
Se concordamos com tudo isso
                       Mas insistimos
Então deveremos encontrar outro meio
                       De viver outra vida.  

sábado, 21 de janeiro de 2012

Folhetim - Sonho com sorte - 14

        No dia seguinte Fernando chegou mais cedo, às oito horas já tinha os mapas de trabalho corrigidos. Passados poucos minutos, todos os chefes de secção estavam a postos, procedendo à  distribuição das diferentes tarefas.  Responsavel pela coordenação e ordenação do trabalho, há tres anos que ali se empregara, tendo acima de si na hierarquia da fábrica, apenas o director e proprietário.
         Ao fim da primeira volta de inspecção, a secretária chamou-o através do telemovel:
             - Engenheiro Fernando, chamam-no ao telefone, é do stand de automoveis, têm urgència em falar consigo!
             - Etelvina diga-lhes que lhes ligo dentro de um ou dois minutos.
          Não tardou a telefonar para o vendedor do carro que iria adquirir:
             - Bom dia, diga-me o que se passa, já podemos ir levantar o carro?
             - Engenheiro Fernando há um problema com o banco e, conforme combinámos ontem à tarde...
             - Que se passa, não me diga que há problema com o cheque!
             - Bem, disseram-me que o bilhete de lotaria que ali depositou nem sequer tem a terminação...Que houve confusão da sua parte, o primeiro prémio da lotaria saíu no seis mil duzentos e trinta e um e o seu bilhete, tem o número mil trezentos e vinte e seis, Pedem que vá ao banco assim que puder.
          Ficou atónito. Telefonou de imediato ao gerente do banco, o Cunha, seu conhecido desde o primeiro dia de trabalho na fábrica.
              - Senhor Cunha, que se passa com o cheque que entreguei para comprar o automovel e que o banco devolveu ao stand de automoneis?
              - Engenheiro Fernando o bilhete que aqui deixou, está branco, houve decerto confusão da sua parte. Lembra-se que após me entregar o bilhete o depositei no cofre dentro dum envelope lacrado, como sempre procedo em casos semelhantes? De manhã assim que cheguei aqui ao banco, telefonei à Santa Casa para confirmar o prémio. Responderam-me de lá que o primeiro prémio foi para o Pôrto...
                     

Se vivemos

Enquanto passa a vida
Enquanto passamos pela vida
Enquanto nos diluimos na vida

Quando nos embalamos na sorte
Quando julgamos a sorte
Quando ganhamos a sorte

Perdemos beijos e abraços
Perdemos carinhos e afagos
Perdemos cansaços e amores

Gozamos festins e sabores
Gozamos luzes e cores
Gozamos tudo e nada gozamos, no fim

Porque aqui ganhamos a vida
Porque aqui estamos na vida
Porque aqui criámos mais vidas.

Folhetim - Sonho de sorte - 13

       - Seja amanhã, seja depois, vamos começar a gasta-lo, que achas de trocarmos já o carro? Tem mais de seis anos e há também...
       - Mas Julia, que fazemos que fazemos em relação àquelas regras? - interrompeu Fernando.
       - Quais regras, qual carapuça, não me venhas dizer...Sabes, o melhor que temos a fazer é irmos esta tarde escolher o carrinho, passas um cheque e acabou-se.
       - Pois é mas...E se a regra do sonho se cumpre?
    Julia não o deixou continuar, aproximou-se carinhosamente de Fernando e deu-lhe um beijo prolongado.
       - Vá, faz-me esta vontade, querido. Vamos sair, são quatro horas temos tempo de encontrar o stand aberto...
        - Julia o dinheiro não estará à nossa ordem antes de tres dias!
        - Ora, ora, passas um cheque, pronto!
        - O carro só poderá ser levantado quando o banco debitar o cheque na nossa conta - disse-lhe Fernando.
    Há muito que se habituara a ponderar antes de qualquer decisão. Empregando o tempo, a calma e a serenidade necessárias, de acordo com a importância do assunto. Detestando tudo o que representasse rotina, Fernando nunca cedia a um impulso repentino, tinha uma disciplina de espírito que o conduzia a um raciocínio lógico no qual apioava qualquer resolução a tomar.
     Julia, muito mais impetuosa, cedendo muito depressa à sua intuição, partindo de alguns princípios do género "as coisas são como são", equilibrava, pelo seu modo decidido, alegre, carinhoso e sensato, as demoras do marido nas resoluções. Por isso, não cedendo, continuou:
         - Está bem, combinas tudo isso com o vendedor...Vou arranjar-me para saírmos.
    
      O tempo, lá fora, continuava agreste e, na sala, uma forte penumbra traduzia-se na ausência de contornos, em todos os objectos. As paredes não eram mais que sombras difusas que entristecia o ambiente. Fernando, sentado numa poltrona, entretinha-se a pensar nas condições a impôr para a compra do carro. Avisaria o vendedor do automovel que só daí a dois, melhor, daí a tres dias se concretizaria a venda. Estabeleceria com êle a forma de não fugir à promessa feita a Julia, mas precavendo a alternativa de que o negócio não se realizaria se o prémio da lotaria desaparecesse, ao cumprir-se a ameaça incluida na regra que o homem do sonho estabelecera.  
       

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

A melhor expressão algarvia( para mim )

JÁ AGORA, LOGO AMANHÃ!

Folhetim - Sonho com sorte - 12

V

       A caminho de casa, após relatar ao marido o comportamento dos filhos no fim de semana, Julia  perguntou-lhe:
          - Conta-me a grande novidade de que me falaste quando chegámos.
          - Bem, prepara-te. Não é uma novidade, são duas.
          - Bôas ou más? Mas conta, conta e não te distraias da condução, - atalhou Julia.
          - Olha, a primeira é que me saíu um prémio na lotaria...de vinte mil contos...- disse Fernando quase em surdina.
          - Ouvi bem...Diseeste vinte mil contos? - perguntou Julia abrindo a boca de espanto durante alguns segundos e olhando para o marido que, impávido, conduzia seremamente por entre o emarenhado do trânsito, intenso àquela hora.  
       Fernando, maneando a cabeça, confirmou, acrescentando:
          - Sim, minha Julia!
          - Podemos receber essa massa toda...Já foste ao banco depositar o bilhete?
       Estacionando o automovel, o marido respondeu:
          - Sim Julia, fui lá antes de vir esperar-te. Vamos para casa almoçar e já te conto o resto, a segunda novidade.
       Entraram em casa. Fernando sentou-se à mesa:
          - Julia a segunda novidade: não sei se poderemos gastar o dinheiro do prémio.
          - O quê? O quê? - perguntou Julia, sorrindo de incredulidade.
          - Bem, é melhor contar-te tudo desde o princípio - e Fernando, depois de mastigar e engolir durante alguns segundos, contou-lhe, referindo-lhe todos os pormenores, o sonho na penúltima noite, as regras impostas, a compra do bilhete de lotaria ao cauteleiro de cara estranha, quase igual à cara do homem do sonho.
           - Isso é uma fantasia muito grande, afinal já recebeste ou não recebeste o prémio? - declarou Julia, inconformada.
           - Olha Julia, fantasia ou não, certo me parece que nos sairam vinte mil contos(*) na lotaria. No banco disseram-me que o dinheiro só estará à nossa ordem dentro de três dias.

* o escudo era a moeda que circulou até ao ano 2001 e  um conto significava mil escudos

Falar claro, falar exdruxulo

Tenho uma gnose brilhante
Nao padeço de discrasia
Nem abuso de ditirambos
Pratico eclogas bondosas

Nao digam que sou maçaruco
Nem que abuso do patibular
Nao conheço algum eunuco
Nem sei electrolitos criar

Antes prezo faceirar-me
Nao me chamem macacorio
Ninguem costumo burlar
Nem gosto de ir a velorios.

Mao me acusem de aglossia
Nem tao pouco de cabotino
Nao tenho essa mania
Sigo sempre o meu destino

So´ me praz muito envidar
Em pacata sinecura
E a Deus terei de orar
P'ra sair desta tortura.

Folhetim - Sonho com sorte - 11

         Deitou-se, esperando pelo sono e que aquele anjo aparecesse.Aplicou o truque habitual para adormecer, agarrando-se ao romance de serviço estacionado na mesa de cabeceira. Duas ou tres linhas  lidas e entrou na fantasia: o que iria obter com todo aquele dinheiro. Mais tres linhas de leitura e parou, voltando a matutar no mesmo. O que teria de fazer para oferecer tanta massa, falo ou nao falo `a Julia, para ela nao tenho segredos e muito menos de noticias como esta. Falo ou nao falo...Digo...Se digo, o que me dira´ ela? As regras do homenzinho... Vou poder oferecer vinte mil contos...Sera´ que poderei oferece-los sem que se saiba? O Carlos e´ amigo, muito capaz de guardar segredo...
         Fernando apagou a luz do quarto. Apenas entrava uma leve penumbra atravessada com frequencia pelos relampagos da tempestade que grassava la´ fora. O tamborilar forte da chuva nos vidros nao o distraia dos dilemas que lhe atacavam o raciocinio. Vagueando, duvidando, descobrindo alternativas sem encontrar soluçao definitiva ou decisao aceitavel, passou a maior parte da noite quase sem dar por isso e sem adormecer.
         Duas horas de sono interrompido pela estridencia do despertador implacavel. De sonhos, nada. O emprego na fabrica ocupa-lo-ia com as exigencias habituais das segundas-feiras, nao lhe sobrando tempo para mais especulaçoes sobre o homenzinho dos vinte mil contos.

         Quase sempre almoçava num restaurante perto da fabrica. Julia chegaria no "alfa" da uma da tarde, meteu-se no automovel para a esperar na estaçao. No caminho decidiu-se, contaria tudo `a esposa. Discutiriam os pro´s e os contras de qualquer decisao, paciencia, que acontecesse o que o destino determinasse.
          Enquanto esperava pela chegada do comboio `a estaçao, decidiu telefonar ao Carlos:
             - Carlos, e´s tu´ ?
             - Sim, sou eu, dormiste bem, visitou-te de novo o homenzinho?
             - Qual q ue^ !  O tipo baldou-se...E eu, a remoer o assunto, dormi duas horas.
             - E agora, que vais fazer aos vinte mil contos? Vais gasta´-los ou vais fazer alguma asneira?
             - Olha, decidi que primeiro quero contar tudo `a Julia, discutiremos o assunto e somaremos os dois uma resoluçao.
             - Fernando, parece-me que estas mais lucido e inteligente que ontem - retorquiu Carlos, com uma gargalhada.
             - Carlos vou agora depositar o cheque no banco Imperio, conheço bem o gerente, o Cunha.
             - Confias nele?
             - Conheço-o bastante, o meu patrao, o dono da fabrica confia muito nele, disse-mo mais que uma vez.  

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Aos que leem este blog

Aos que leem este blog, enviem-me os vossos comentarios, as vossas crticas, para o blog ou para o meu endereço albertoquadros@netcabo.pt.

Procuro

Procuro nao pensar nas coisas simples Como panoplias, palimpsestos ou protonemas Nem sequer noutras, mais complicadas Como o ar que respiro a leveza duma pluma Ou a simplicidade de alguns teoremas Nao consigo dar os passos que ja´ dei, Ver a imagem dum objecto que nao existe, Dar um beijo ao amor distante, Dizer adeus a quem dorme comigo, Provar uma iguaria que ainda nao fiz. Posso no entanto frequentar os meus sonhos, Povoar este meu espirito com a saudade, Enriquecer a minha bolsa com a tua imagem, Rogar `a vida mais alguns desejos E pedir a Deus mais alguns dos seus conselhos.
Folhetim Sonho de sorte - 10 No dia seguinte, eram nove da noite, Fernando telefonou ao Carlos: - Menino, por acaso ouviste ss noticias? - Nao, rebentou alguma bomba? - Quase... Fica sabendo que ganhei o primeiro premio da loraria! - Ena! Quando ? Sera que... - Sim! Vinte mil contos, vonte mil contos! - gritou Fernando ao telefone. - Toma, razao tinha o cauteleiro. Mas o homenzinho do teu sonho...- atalhou Carlos. - Sim, sim, o homenzinho preveniu-me desta sorte...O problema...- e Fernando calou-se, hesitante. - Nao me digas que tens problemas para gastar essa massa toda! Se queres, eu ajudo, vou amanha contigo ao banco e dividimos... Fernando, pensativo, esperou alguns segundos e continuou: - O problema, deves lembrar-te... Ora bolas, agorda recordo as regras impostas pelo tal homenzinho dos sonhos...Quando vi o numero do primeiro premio escarrapanhado na televisao, fiquei em estado de choque...Estava em casa, a Julia foi de visita aos pais, levou os miudos. A primeira coisa que me veio `a cabeça foi o tal homenzinho, assim o chamas tu, e as regras que me impos... - Fernando, nao me digas que vais seguir as ordens do santo, do teu sonhado santo! Tu, que sempre proclamas a tua independencia e que dizes nao receber ordens de ninguem! - Nao sei, terei de pensar...So´ daqui a dois dias poderei receber a massa, tenho tempo para ficar calmo. - retorquiu Fernando, acresentando: - Amanha falaremos sobre este tema, quando formos tomar uma bica ao cafe´. De certeza que o cauteleiro aparecera´ para receber a gorgeta. - Que bem a merece...Meter-te no bolso vinte mil contos! Fernando pousou o telefone, voltou a olhar para o bilhete premiado. Logo de seguida, pegou no telemovel e marcou o numero do de Julia para lhe dar a noticia. Lembrando-se do sonho, nao fez a chamada. Poderia suceder muita coisa, poderia ter visto mal o numero anunciado na televisao poderia o locutor ter errado, poderia ter acontecido qualquer outro imprevisto. Nada custaria esperar pelo dia seguinte. E depois, as tais regras do homenzinho ...Recordava um artigo sobre sonhos onde o autor referia que, depois de nos deitarmos, enquando adormecemos, o desejo repetido de um determinado sonho pode concretizar-se nalguma noite seguinte.
Quanto mais grave a crise, mais ha a possibilidade de um acirramento da luta de classes.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Estou e não estou

Vou e não espero
Fico e aguardo
Aprendo não vejo
Deslumbro-me não quero,
Vibro, não compro.

Se vou caminhando
Sem pensar no físico
Nestas águas mornas
Sem sofrer desgosto
Desta vaga solidão

Sinto um forte anseio
Um maior desejo
Por escrever uma carta
Penso na hora
Em que me esqueceste


Volto atrás no tempo,
Vou e volto,
Dou reviravoltas
E saltos dentro de mim
Não sentindo nunca.

Ou são idas ou vindas
Ando, não vou.
Sem vergonha penso,
Critico agora
Com todo o vigor.

E fico de fora
Depois de saíres
Se leio essa frase
Que tu me enviaste
Em carte fechada.

"Ridícula, como as outras"
Disse-o o maior poeta
Ao dar comigo sentado
Num café de Lisboa
E ler uma quadra original
Que acabou de escrever:

"Há luz do tojo e no brejo
Luz no ar e no chão
Há luz em tudo o que vejo
Não no meu coração" *

* de Fernando Pessoa

Soonhos com sorte - 9

III
Situações delicadas e diversas tinham consolidado a amizade entre Júlia e Laura,uma ligação fortíssima, semelhante, na intensidade à existente entre os maridos. Partilhando o mesmo apartamento nas férias ou, após grandes discussões que haviam começado pouco antes, arrancavam para uma viagem ao estrangeiro ou dentro de Portugal, planeada ao milímetro e alterada em cada dia que passavem fora, o que sempre constituia uma obrigação estabelecida como complemento impreterível do plano. "Não há plano que não se possa desprogramar" - dizia Carlos quando os amigos lhe criticavam a pusilanimidade. Noutras ocasiões aconselhava "às vezes a volta ao contrário é melhor, mais interessante". Ou lembrava: "até d.Afonso Henriques adiou uns meses a tomada de Santarém para casar com a menina dona Mafalda".

Carlos, completado o doutoramento, não teve tempo para gozar férias. O tratamento e a debilidade devidas a doença cancerosa, incapacitou o pai de continuar a dirigir a empresa tipográfica, com vinte e dois trabalhadores efectivos. Não sendo pessoa capaz de cruzar os braços e perder a esperança, nem lhe passou pela cabeça a hipótese de venda da empresa. Carlos, filho único e de amor intenso pelos pais, verificou que a tenacidade destes compensava e muito diminuia os temores e as preocupações que essa doença sempre provoca. Entretanto, a bôa assistência médica dum grande amigo, preparou-os para o pior. Nos primeiros três meses após a operação a que o cancro obrigou, o pai não abandonou os projectos que decidira para a empresa, nem abandonou outros por iniciar. Carlos não hesitou no auxílio ao pai, substituindo-o quando foi diagnosticada e confirmada a doença, tratamentos que o impedia de fazer o que mais gostava, a sua ocupação na empresa.
Desde miúdo acompanhava o pai nos trabalhos da tipografia fundada. Aos dez anos sabia trabalhar com algumas das máquinas, nas férias ganhava os seus tostões e o pai mostrava-lhe e explicava-lhe sempre as contas que fazia para as encomendas que obtinha e executava. Desde que entrara pela primeira vez na tipografia, o pai dizia-lhe quase todos os dias: "só poderás trabalhar aqui se o desejares". Quando adoeceu e Carlos lhe disse que não se preocupasse, que tomaria conta da empresa, até nesse dia o pai lhe disse: "sò se quizeres e gostares desse trabalho, se não o quizeres nem o desejares, contrataremos um gerente".

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Na vida de todos nós a sorte é encarada como uma excepção. E porque não poderá acontecer que a excepção apareça um dia como regra na vida de alguém? Se bem recordarmos, muito nos aconteceu na vida, fora das nossas expectativas, de forma inesperada e enriquecendo-a.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Sonho de sorte - 8

Laura, nascida em Lisboa, em setembro de 1969, casada com Carlos após terminar o curso de economia. Morena, de cara e corpo trigueiros, cabelo curto, frisado, natural, em pequenas ondas, herança de antepassados angolanos. Brilhavam-lhe os olhos castanhos, que sobressaiam num rosto bonito. Sobrancelhas estreitas que se elevavam sempre que ouvia um comentário cáustico e ordinário ou se sentia incomodada sem razão, desagradada pela atitude ou pelas palavras de quem lhe falava. Quase sempre alegre, sempre disposta para sorrir, adorando espicaçar o marido e os amigos se a conversa o proporcionava.
A maior amizade estableceu-a com júlia, desde a universidade. Casadas no mesmo ano, participaram em muitas manifestações e comícios, inscrevendo-se em partidos políticos de ideologia oposta. Laura e o marido acreditando mais na social-democracia, enquanto Júlia e Fernando se inclinavam para um partido centrista. Os dois casais encontravam-se quase todos os dias, raro o domingo em que não almoçavam no mesmo restaurante, acompanhados pelos filhos e por vezes pelos pais. Travavam discussões e proferiam comentários sobre a política vigente, o que nem sempre contituia o prato forte das conversas no restaurante ou fora dele.

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A amizade não se establece, não nasce por acaso, por querer, nem à primeira vista, por "coup de foudre" ou por um "flechazo". Não tem lugar para se encontrar nem hora marcada para começar. De um amigo nunca desconfiamos, raras são as reticências, os equívocos, as ambiguidades, os segredos.
A amizade, ao contrário da saudade e do amôr, não se esbate nem se destroi com a distância nem com o tempo. A amizade permite a censura, induz à reflexão, permite sempre e sem zanga, a contradição, a discordância, a polémica.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

À volta de mim

Caminho à volta de mim
Pensando no que aprendi dalgumas ciências.
Descobriram, não quero saber como,
Que de sangue temos à volta de cinso litros
E de água, nada mais nada menos,
Que uns módicos noventa e cinco por cento.

Que nos dividimos, ainda estou para saber quando,
Em cabeça, tronco e quatro membros,
Que somos compostos de carnes, de ossos,
Músculos, gorturas, sucos diferentes
E até referem alguns, bem conscientes,
Que possuímos uma alma e um espírito.

Mas o que êsses cientistas não referem,
Por mais que se esforcem, por mais que discutam,
Cavando bem fundo por toda essa ciência,
Por todo o mundo e sobre uma resposta decente,
É quantos litros de amôr tenho pelos meus filhos,
E quanto pesam, minha Mãe, as saudades que tenho de ti.

sonho de sorte - 7

Em Luanda, Júlia, com três anos de idade, frequentou uma escola que seguia o método Montessori. Passados três meses já lia e compreendia o que lia, demonstrando-o com as histórias aprendidas e que em casa contava aos pais e aos dois irmão mais velhos. Em 1975, pouco antes da independência de Angola, os pais de Júlia, trabalhando num banco de Luanda, regressaram a Portugal, transferidos para a filial do mesmo banco, em Portalegre. Júlia, com sete anos de idade, passou a frequentar uma escola primária oficial naquela cidade, dirigida por dona Celeste, professora muito exigente, disciplinadors, rígida, ocultando uma bondade natural e um carinho enorme pelas crianças. De quarenta e um anos de idade, feições austeras muito devidas ao aborto a que se submetera e que conseguia manter secreto, dona Celeste exibia um ar tristonho, melancólico por vezes, numa amargura justificada pelos namoros traiçoeiros.
Naqueles tempos, uma professora de instrução primária em escola oficial, que engravidasse sem casar, conhecido o aborto, não se livrava do despedimento. O Estado Nôvo e os costumes antigos não admitiam tais exemplos. Dona Celeste, no entanto, conservara o instinto maternal, traduzido num carinho e atenção permanentes sobre as crianças, que disfarçava com modos rudes, secos e severos. Era uma professora exemplar, o que demonstrava continuamente no ensino, sempre baseado em contos, histórias ou fábulas, quer se tratasse gramática, de matemática ou ciências.
Júlia, munida das boas bases da escola primária, passou os sete anos do liceu "com uma perna às costas", como era costume dizer-se. Admitida na faculdade de economia de Lisboa, compriu os cinco anos do curso com as melhores classificações, culminando-o com uma tese de doutoramento em 1997. Ainda foi convidada para assistente mas, já casada com Fernando, preferiu o emprego na fábrica onde o marido trabalhava, aceitando o convite irrecusável, pelas boas condições que o doutor Fonseca, o accionista principal e director, lhe ofereceu.

Carlos Azevedo, formado e doutorado em economia, nascido em Maio de 1967 em Évora. Com um metro e setenta de altura, magro, de físico bem constituido, cabelo farto e negro, um pouco grisalho aos lados, da cara rapada, olhos castanhos e brilhantes, maçãs do rosto salientes, nariz um pouco adunco, lábios finos e queixo proeminente. De andar firme, voz forte, bem dominada e treinada por quatro anos de professorado, na faculdade, após o doutoramento. Vestindo de modo simples, calças, camisa e pulôver, poucas vezes exibia casco e gravata. Simpático, agradável, fino na conversação, judicioso, calmo e ponderado na polémica, era o maior amigo de Fernando, numa amizade posta muitas vezes à prova nas situações onde mais difícil é ser-se amigo, mais fácil esquecer a amizade.
A tarefa do doutoramento em economia, ligada à antiguidade clássica, deixara-lhe gosto intenso pela história, o que constituia alternativa e entretenimento para os tempos livres. No escritório, Carlos recheou as prateleiras de uma das paredes, com livros de história. Ilustrava com muita frequência as conversas, narrando factos ocorridos em tempos antigos, alguns inventados, outros resultantes de pequenas ocorrências em épocas passadas. E que enriquecia com pompa caricata quando se tratava duma impostura atrevida ou adornava em português vernáculo, se referia uma história picante.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Em cada minuto

Cada minuto que passa
É mais um minuto que vivemos
Aproveitemo-lo

Nem que seja apenas gozando
O despertar numa alvorada
Alegremo-nos

Cada minuto que vem
Será mais um minuto que a vida nos dá
Não o desperdiçemos

Nem que seja para gozar a água
Que nos cai do chuveiro e nos molha
Refresquemo-nos

Cada minuto que decorre
São sessenta segundos de vida
Sintamo-los bem

E dentro de cada minuto
Aproveitemos e agradeçamos a oferta
Nem que seja apenas retribuindo-a com um beijo.

Sonho de sorte - 6

Um mês depois de Fernando entrar para a escola, o proprietário faleceu. A professora Graciete recomeçou a dar as aulas, assoberbada com os alunos das quatro classes, dividida entre o ensino, um namoro tempestuoso com um comerciante da cidade e a saúde já muito precária da mãe. As deficiências do ensino na escola, mantiveram-se durante os quatro anos que Fernando a frequentou. Pelo que, com nove anos de idade, pouco antes de terminar a quarta classe, o seu pai, ciente das fracas habilitações escolares do filho, contratou um professor amigo, que deu lições suficientes a Fernando para o habilitar com sucesso à admissão ao liceu local.
Apesar da preparação sofrivel que levsva do ensino primário, cumpriu o primeiro ano com a média de dez valores, passando à tangente em todas as disciplinas. Melhorou, num progresso contínuo, as classificações, terminando o último ano liceal entre os melhores do seu curso. Entrando sem dificuldade na faculdade de engenharia e escolhendo a especialidade de engenharia de máquinas, concluiu o curso com uma das melhores classificações, sendo convidado em 1995, para trabalhar numa fábrica de acessórios e complementos para automóveis.

Júlia Silvestre, nascida em Angola em Janeiro de 1991, casada com Fernando. Alta, esguia, de cabelo tão negro que o contraste com o cabelo e as sobrancelhas negras lhe realçavam o tipo de mulher portuguesa, numa cara bonita que nunca necessitava de "batons" nem de carmins para concentrar nela os olhares dos colegas nos tempos da vida universitária e de todos os homens que agora se cruzavam com ela, na rua. Vestia com a elegância natural que numa mulher induz sempre a ideia de bom gosto e "aisance". Não usava nem gostava de usar qualquer joia para adorno, raramente se detinha nas montras para admirar brincos, pulseiras, colares ou aneis.

sábado, 14 de janeiro de 2012

Se

Se tenho cócegas, não me coço
Posso fazer sangue, um infecção, uma septicemia
Sei lá que mais
Se tenho sono não me deito
Posso nunca mais acordar
Se mal governam o meu país
Tenho que me resignar
Se falam mal de mim
Deixá-los, cansar-se-ão
Se nos roubarem, formarei uma comissão
Realizarei um inquérito
E a respectiva investigação
Se agredirem um polícia
Este deverá ter o valor
De não se queixar do agressor
Onde se gasta demasiado,
A culpa é do orçamento desiquilibrado.
Se me encomendarem uma tarefa urgente
Tenho de classificá-la com prudência,
Entre todos os assuntos pendentes.
Se me disserem que pouco falo,
Direi que as críticas pouco me alteram o discurso
Se os "media" murmurarem,
Direi que não leio, não ouço.
Raro vejo televisão, raro leio jornais
Pelo que não posso responder
E dou um doce a quem adivinhar
Quem me disse todos os "ses" anteriores.

Sonho de sorte - 5

II
Fernando Garcia, nascido em Évora em Março de 1968, alto, magro, espadaúdo, cabelo negro, barba densa, bem escanhoada, sobrancelhas negras e espessas, olhos muito vivos, castanhos. De vestir sòbrio, casaco e calças azuis escuras ou beges, camisas de cores claras, sem floreados. Envergava gravata por força da etiqueta ou em ocasiões muito especiais. Nos dias agrestes, vestia um sobretudo curto, por vezes um cachecol com duas voltas ao pescoço, nunca luvas ou chapéu. Engenheiro civil trabalhando numa fábrica de acessórios de automóvel, vivia em Lisboa num bairro junto ao Jardim da Estrela, numa vivenda antiga de cuja traseira se avistava um "ficus" gigante e dois jacarandás que disputavam o sol a uma araucária orgulhosa, no jardim bem cuidado de um vizinho. Lá em baixo, o Tejo.
Passara os anos de infância naquela pacata cidade do Alto Alentejo. Frequentou uma escola primária dirigida pelo proprietário, que se ocupava dos filhos mais velhos, nas terceira e quarta classe. A filha, conhecida e tratada como a menina Graciete, ensinava a primeira e segunda classes, aos miúdos mais novos. A mãe, dava aulas de piano. Esta senhora submetia todos os novos alunos das famílias mais abastadas, a uma prova de capacidade para o piano. De forma sistemática, comunicava aos pais que os filhos tinham muito "bom ouvido", conseguindo assim mais uns parcos cobres com o ensino da música. O rendimento da escola era escasso, o pai da Graciete nunca recusava a admissão dum aluno pobre. Dizia aos amigos: "todos têm a mesma capacidade à nascença, entre os mais pobres pode haver um génio". Pelo que poucos pais pagavam de forma regular as mensalidades devidas à escola. Fernando não escapou ao teste da mãe de Graciete, ainda aprendeu algum solfejo e pedaços de obras musicais, o "Danúbio azul" e outras de dificuldade semelhante.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Quantos assim vivem

QUANTOS OLHAM E ESTÃO CEGOS
QUANTOS FALAM E ESTÃO MUDOS
QUANTOS GASTAM UMA VIDA
SEM VIVER SÓ UM SEGUNDO

OLHAM SEM SABER PORQUE OLHAM
FALAM SEM PENSAR NO QUE DIZEM
PERDEM A VIDA NUM INSTANTE
SEM SABER QUE ESTÃO VIVENDO.

SÃO TESOUROS ESQUECIDOS
SÃO OURO NO FUNDO DO MAR
NÃO TÊEM DIAS VIVIDOS
NEM VÊEM O TEMPO PASSAR

SEQUER

Sonho de sorte - 4

Fernando, poucos momentos depois, quando a cauteleiro desaparecia do café, interrogou Carlo:
- Nunca tinha visto por aqui este cauteleiro, tu conhecias este?
- Fernando, sabes que eu nunca compro jôgo.E também não me lembro que o faças, ainda por cima um bilhete inteiro! Julgo que nunca vi este homem vendendo cautelas, Enfim, volta cá ao sonho...
Fernando, sem hesitar, respondeu-lhe:
- Vais-te rir, acredita, tudo começou na noite passada...Com um sonho de que recordo muitos pormenores, o que é raro acontecer-me depois de acordar.
- Um sonho...-disse Carlos com ar irónico e ambíguo.
- Sim, simplesmente um sonho. Apareceu-me um sujeito de ar muito bondoso, cara simpática, voz insinuante. Sem qualquer preâmbulo anunciou-me:"vais entrar num jògo que será também uma tarefa, vais ganhar agora vinte mil contos e depois muito mais. Mas com uma condição: só poderás gastar o que ganhaste em ofertas ou investimentos destinados ao benefício de pessoas carenciadas, mantendo quanto possivel o anonimato. Poderás gastá-lo nas despesas necessárias para a partilha, mas nunca como contributo para as tuas posses ou para as da tua família" - e acrescentou, a finalizar - "se não cumprires esta regra não há prémios, perderás os prémios recebidos e guardados, e desaparecerão todos os efeitos do que fizeste".
- Não nos grama o homem...Que tortura... - replicou Carlos, sorrindo.
- Escuta, deixa-me continuar. Não sei se notaste o meu espanto quando vi o cauteleiro, aquele que me vendeu este bilhete. É que ao vê-lo, a cara dele parecidíssima com acara do homem do sonho!...Fiquei como que hipnotizado, "com uma branca" como agora se diz. E quando dei por mim, estava a pagar o bilhete...Tentei que o cauteleiro me desvendasse mais alguns pormenores mas, nesse momento, ele safou-se. Passei todo o dia cheio de interesse e curiosidade pelo sucedido, tentando descobrir, vislumbrar, o significado do sonho. Duvidava e pensava que não se trataria mais do que uma coincidência e não de uma mensagem camuflada ou presságio interessante. Que aquele sonho nada traduzia, que seria um mistério oculto numa metáfora insondável, nada mais representando que uma aspiraçãao, desejo ou ambição secreta. Após percorrer dezenas de páginas de um dicionário de sonhos e de alguns tratados de psicologia, lido dezenas de "blogs" dedicados a sonhos, acabei esperançado que a realidade, num futuro próximo, talvez me contemplasse com uma surpresa agradável. Ou que o tempo, o que quase sempre acontece com as fantasias, se encarregasse de me fazer esquecer tudo isso.
- Bem, amanhã anda a roda, verás o resultado. Lá no fundo, parece-me que gostarias de acreditar no sonho. Que tal consultares uma bruxa? Vamo-nos embora!

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Quadra popular

"Há tantos burros mandando
Em homens de inteligência
Que às vezes fico pensando
Se a burrice é uma ciência"
do maior poeta popular português(em meu entender)- António Aleixo

Versos da minha desfaçatez

Sinto-me por vezes no lado esquerdo
E reparo que me falta o direito
É qualquer coisa subtil, etérea, abandonada,
Um leve movimento vibratório,
Que não existe porque se meteu antes no esquerdo
Sem admitir que foi para Sul ou Nascente,
Sem permitir o que se lhe consente,
Sem encontrar tudo o que aqui está,
Dem remoer mais que um pensamento
No almofariz enorme da esperança,
Misturando-o com o Leste ou com o Oeste
Fazendo estudadas negaças à fortuna
Não permitindo o que já está feito,
Nem admitir tudo o que resultou,
Depois de consultado o tratado,
Obtida a transparente solução
Do cruzamento daquela borboleta
Que provocou o mau tempo no canal
Ao encontrar-se com o coleóptero seu vizinho.

Sonho de sorte - 3

Decorria o último ano do século vinte.
Fernando, com aquela sua forma de sorrir onde adivinhava alguma reserva,sentou-se junto a uma mesa do café. Carlos esperava-o com muita curiosidade, despertada pelo telefonema que recebera de manhã.
Os dois, amigos de longa data, conheceram-se quando tinham a idade de onze anos. Partilharam na adolescência muitas aventuras, passaram muitos verões namesma praia e, na universidade, acompanharam o mesmo grupo de amigos, nas passeatas, nos festejos e nas horas de estudo. Cimentaram uma amizade resistente, duradoura e leal. E que conservaram, já trintões e com famílias constituidas.
Mal se sentara Fernando disparou:
-Na noite passada tive um sonho. Não sei que pensar... Não sei se não é mais que uma fantasia...
-A fantasia é gratis, o pensar uma coisa rara. Recordares um sonho revela pelo menos, que o sonho te afectou. Sonhaste com desastres, complicações, viagens ao futuro?
-Parece-te simples, mas quanto mais recordo o sonho...
Um cauteleiro aproximou-se. Fernando olhou-o e, com ar muito espantado, disse-lhe:
-Venda-me um bilhete inteiro, quanto é? - e pagou, recebendo o bilhete.
Mais admirado ficou Carlos. Nunca vira Fernando comprar lotaria, jogar em qualquer jogo.
- E quanto dá o primeiro prémio? - peguntou Fernando
- Vinte mil contos! Há horas de sorte! - respondeu o cauteleiro.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

A química da minha vida

A química da minha vida
É uma arte especializada,
Não tem pesos nem medidas
Nem tem de ser rotulada.

Tem pózinhos e tem mézinhas
Que guardo no escritório
Ao contrário de muita gente
Não preciso dum laboratório

Na busca da minha verdade
Obtive da vida a mudança
Juntei o grito da saudade
Ao eco da minha esperança

Sonho de sorte - 2

Mas...Será que existem impossiveis? Imaginem um governo que, após uma eleição verifica que as finanças do país se encontram numa situação saudavel com pequenas dívidas externa e interna, mantendo os cofres do estado bem recheados. Esse país e esse governo poderão realizar o que se expressa neste livro.Lástima que raramente tal aconteça, pena que os bons empenhos de alguns, não se concretizem na sua execução, e que a determinação de muitos, com frequência, não seja suficiente para anular os caprichos e os desígniosd outros que, detendo as alavancas pricipais do poder, se ocupan no desvio da maior fatia dos meios existentes para objectivos condenaveis. COnhecem-se exenplos, por má fortuna, não raros.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Olho o meu pulso

Olho para o meu pulso
Vejo a minha pele,
Entro,
Vejo células mortas,
Encontro as vivas.
Entro numa,
Atravesso o mar
De mil cores,
O citoplasma.
Entro no núcleo,
Passo mais plasma,
Grande actividade,
Tudo se expande,
Tudo se reproduz,
Quantas que saiem,
Quantas que entram.
Entro num quanta,
Uma estrela ao longe.
Tudo é espaço,
Tudo é tempo,
Passa o infinito,
Até que no fim,
Como descobriu Einstein,
Vejo o meu rosto.

Começo dum folhetim

Inicio hoje um folhetim com trechos copiados do meu livro "Sonho de sorte".

Sonho de sorte - 1

Há paises no mundo onde a pobreza pouco existe. Aquela pobreza traduzida na ausência de meios para uma subsistência digna e numa resignação que corroi a vontade de viver.
Paises cujos governos quase eliminaram a penúria, cumprindo programas com decisão e métodos modelares. Nas páginas seguintes propomos e aconselhamos um plano com um objectivo semelhante. Páginas que parecem descrever uma grande fantasia, baseada numa ocorrência de probabilidade quase impossivel.
(cont.)

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Eu bem tento libertar-me

Eu bem tento libertar-me
Desse algoz mau companheiro,
Por mais que o queira evitar
Sou escravo do dinheiro.

Mais de vinte séculos passados
Desde que no oriente o criaram
Moedas em ferro e bronze cunhadas
Mais tarde em prata e ouro se moldaram.

Provoca guerras, conflitos,
A todos os povos engana
Cada dia há mais aflitos
Que viver sem ele não sabem.

Toda a humanidade se resigna
Ao roubo que o dinheiro representa:
Aumenta a inflação, ninguem ensina
Que é pobreza sempre crescente.

Mas o que é muito mais grave:
Ninguem se atreve a falar,
A discutir e propor
O modo de ele acabar.

Cena quotidiana no 3º esq..

Acendeu a lâmpada da terceira assoalhada, pôs a mesa para o jantar, era dia de anos do marido, olhou para a garrafa de vinho que comprara de tarde, fez um gesto de impaciência ao reparar no pó que a garrafa trazia "oh filha traz-me daí um trapo sujo p'ra limpar a garrafa de vinho", "mas mãe não me dizias que trazias o champanhe pr'ó jantar?", "olha Luisa esqueci-me, podias ir lá ao senhor Manoel, compra uma da Raposeira, leva a minha carteira que está na mesa do quarto, agora vê lá, não te ponhas a namorar o Alfredo!", "oh mãe eu quero lá saber do Alfredo", "o quê já acabaste com ele, bem me parecia que há mouro na costa","olha mãe desta vez não é mouro...", "então, não me digas que agora arranjaste um russo", "eu gosto mais dos ucranianos...","bem me parecia, mas despacha-te, não te demores que o teu pai tá aqui tá a chegar".

Sou perfeito como sou- final

Acredito na incerteza
E bem creio com firmeza
Que o meu armazem de amor, de saudade e de compaixão
Abre, duma maneira constante
Uma janela para outra dimensão

Saio de cá para lá
Sem sentir que lá estou
Entendendo o que ali me rodeia, porque aqui estou.
A vida agarrou-me desta forma:
Nem plana, nem redonda, nem quadrada.

Caleidoscópica.

domingo, 8 de janeiro de 2012

Sou perfeito como sou

Sou perfeito como sou
Como tu és, como é a mulher
Que todos os dias passa
Às oito e quarenta e sete
Debaixo da minha janela
A caminho do seu escritório

Pelo trajar, pelo andar, pelos sorrisos
Que concede ao polícia em serviço na esquina,
Pelss mãos finas, elegância no vestir,
Parece-me pessoa importante naquele escritório.

Se passa às oito e quatenta e oito ou oito e quarenta e seis,
Acerto o meu relógio corporal,
Que reaje ao tempo mais agreste ou mais calmo.
Sei que tudo o que me acontece,
Coisas complicadas ou simples como a hora em que ela passa,
Sei que me acontecem porque fazem parte do meu bem final.
Há quem pense que não se pode acabar com o dinheiro porque:

- Não pode passar sem ele.
- E quando morreres, já poderá?
- É com ele que se compram os melões.
- E no Céu ou no inferno, há melões?
- Isso é impossível!
- Porquê? Tudo se acaba!
- Ninguem discute isso!
- Então a democracia não permite que se discuta tudo?
- Se trabalhares tens o dinheiro que necessitas!
- E se não há esse trabalho, nem outro qualquer?
- Até para um enterro é necessário dinheiro!
- Já foram enterrados muitos milhões de pessoa sem que nada fosse pago ao dono da funerária. Que o digam Stalin, Mao tse Tung, Hitler e outros notáveis senhores.
- O dinheiro existe há muitos séculos, já existia antes de Cristo!
- Isso também se poderá dizer das pirâmedes!
- Se trabalhares poderás enriquecer!
- E se não trabalhares, também!

Acabar com o dinheiro

Seguirei insistindo.
Até que apareça alguem que argumente.
Ou que surja quem tome essa iniciativa.
Sim, a de acabar com o dinheiro!

Que terei feito

Que terei eu feito,
Qual foi o acaso ou a coincidência,
De quem foi a decisão
Para que me unisse há tão poucos anos
Aos que já viviam neste planeta?

Foi uma arte trabalhada por alguem,
Foi uma pedra atirada ao acaso,
Foi decisão do Senhor Universal,
Foi um devaneio ou loucura dum estranho,
Foi uma fagulha que veio duma estrela?

Foi um curto circuito provocado por uma criança,
Uma criança traquina do passado ou do futuro,
Foi uma molécula libertada numa exalação de amor,
Dum ser de qualquer outra dimensão,
Foi um prémio, castigo, restituição?

Não sei.
Só não gostaria de saber que aqui me puseram
Para ser condecoração ostentada,
Pulida, brilhante e pendurada,
No peito dum desconhecido extraterrestre

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Acabar com o dinheiro, porque não?

Quem leu o meu livro? Quem o discute, quem discute o dinheiro?
Mais uma vêz estamos verificando o que já dissemos noutras ocasiões:
- Os mais prejudicados com esta crise são os que menos têm.
- Cada dia que passa há mais pobres.
- A classe média baixa vai lentamente atingindo niveis de pobreza.
- O desemprego aumenta.
- O mérito pouco conta para encontrar emprego.
- As grandes fortunas aumentam.
- E as crises vão sucedendo prolongando-se cada vez mais.
Quando aparecerá um jornalista com coragem para questionar o dinheiro? Ou, o que parece ainda mais dificil, quando surgirá um político que provoque a discussão sobre o dinheiro? Quando aparecerá um cidadão ou grupo de cidadãos que proponha à sociedade acabar com o dinheiro e procurar soluções para tanto?
Tenho esperança que algum jornalista, algum político algum cidadão bom, leia este blog.

Os versos publicados no meu blog

Para que conste: todos os versos que publico e que não são de minha autoria referirão o autor. Todos os outros são meus.
Para evitar mais confusões refiro os versos que não são meus, no meu blog, em 2011 e 2012;
- em 19/12/2011 uma quadra de António Aleixo.
- em 25/11/2011, "La mujer fuerte", um poema de Gabriela Mistral.
- em 14/9/2012 um poema de Clarisse Valderrabano Quadros.
- em 4/6/2011 um poema de Reginaldo Figueiredo.
- em 23/3/2011 os dois últimos versos dos "Lusíadas" e a última estrofe dos "Lusíadas", de Luiz de Camões.

Os meus desleixos

Desleixei-me com a literatura
E agora procuro recuperar
Um pouco do muito bom que não li.

Desleixei-me com a saude
E agor procuro recuperar
Um pouco da que perdi.

Desleixei-me com os amigos
E agora procuro recuperar
Algumas das boas amizades do passado.

Desleixei-me com a gula
E agora procurto recuperar
A indiferença perante alguns petiscos

E entretanto procuro desobedecer
A todos os outros desleixos, que me atormentarem.

Zéééca!

Anos quarenta do século passado, do século vinte.
Nesse tempo íamos para Lisboa, no fim das férias, por norma geral num domingo, apanhando o comboio chamado ´"rápido", e que demorava umas quatro horas até ao Barreiro. Os rapazes regressavam aos colégios e aos liceus. E a estação de Portimão dos caminhos de ferro enchia-se com as famílias e amigos que se iam despedir dos meninos. Comboios com carruagens de primeira, de segunda e de terceira classe e com portas, cada uma com janela, que abriam para fora de cada compartimento.
Três avisos assinalavam a partida de qualquer comboio: primeiro, o do chefe da estação que dizia bem alto "partida!", o segundo, o que provinha duma corneta que outro funcionário da estação fazia soar junto da última carruagem, a das mercadorias, quando estas já se encontravam arrrumadas lá dentro. O som dessas cornetas era timbre bem conhecido, parecia um ééé agudo e contínuo, gritado por um cantor deafinado. E o último aviso era o apito do comboio, bem característico dos comboios a vapor daqueles tempos.
Um dos meus amigos daqueles tempos e que regressava a Lisboa,às aulas, no mesmo dia que eu, era o José Valentim, que os pais e os amigos tratavam por Zéca. Nesse dia a estação estava repleta, mal nos podíamos mover entre as gentes.
Por fim o comboio chegou, abriram-se as portas das carruagens e começamos a entrar, após as despedidas da praxe. Eu entrei e, com o compartimento cheio, fechei a porta e assomei-me à janela, despedindo-me da minha Mãe. A seu lado a dona Helena, a mãe do Zeca, perguntou-me por duas ou três vezes pelo Zéca. "Não sei onde ele foi, dona Helena, há bocadinho esteve aí!". O chefe da estação lançou o seu aviso de "partida!", toda a gente se silenciou. E entâo a dona Helena, preocupada, lançou o seu grito de chamada, tão parecido com o som da corneta do comboio:
-"Zéééca ! Zéééca"!
E o comboio apitou e partiu.