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segunda-feira, 24 de julho de 2017

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          Já não há guerras, das antigas. Com exércitos, batalhas, generais que mandavam gente morrer, navios ao fundo carregados de gente e de muita coisa que foi poluir o fundo do mar, gente que bombardeava gente e tudo o que muita gente construiu, triliões de tiros projectados para onde não  sabiam onde iriam parar a não ser que parassem nalguem que matavam, uma data de senhores discutindo onde haviam de matar mais gente, excepto os senhores que discutiam onde haviam de matar mais gente, muitos animais dos chamados irracionais apanhados pelos. ricochetes de muitas balas atiradas para matar os racionais.    
       Mas agora essas guerras parece que acabaram, Mas continuam as reuniões dos generais ansiosos por mais guerras para matar os que não são generais, ficam danados quando lhes roubam as balas para matar os que não são generais mas constroiem mais fábricas, mais barcos, mais tanques, e reunem-se mais vezes para discutir onde se hão de encontrar outra vez sobre a forma de matar saudades das antigas reuniões para mandar gente morrer.
       Porque cada uma das guerras de hoje, é dum individuo, que não é general, e que quer matar toda a gente, porque assim sempre fica sendo considerado, pela sua gente, como um heroi. 

sábado, 22 de julho de 2017

*    Tenho a maior piscina do mundo, fica entre a Ponta do Altar, na foz do Arade e a ponta do João de Arens. Durante cinquenta e seis verões tomei ali ricos banhos de mar, aprendi muita coisa sobre o mar ou antes, sobre essa piscina, conheci gente importante para mim e não conheci gente importante para mim. Entre muita dessa gente, conheci um pescador, o Antonio Espanhol que enquanto remava no seu bote nos ia contando histórias da sua vida com muita história para os que o ouviamos, no seu dialecto algarvio cerrado:
        " e ós pôs, êferrê a morea, puxêa pra dentre do bote, comóvia um monte de mar, a morea vêmencima, ferrôme acá no nariz e féme este buraco caqui tenhe no nariz".     

sexta-feira, 21 de julho de 2017

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      Devemos muitos favores à memória, a recordação de bons momentos não tem preço. E também devemos muitos favores ao esquecimento, à nossa vontade, que mergulha, na parte incerta do olvido, muito do que nos desagrada - ainda que com frequência a memória nos pregue algumas partidas não aceitando o esquecimento. Talvez aí resida o segredo dos optimistas que conseguem apagar muito do desagradavel numa triagem favoravel à sua felicidade e a triste sina dos pessimistas que a todo o momento vêem ofuscado o gosto dos bons momentos pela memória insistente dos maus, memória essa que actua como um mata borrão absorvendo sem remédio os bons - tal como a mancha de tinta absorvida pelo mata borrão neste ficou, morta, inerte e imprestavel, para sempre.
      No romance que estou escrevendo, quase autobiográfico, relatei a cena do primeiro encontro que tive com a minha esposa. Desse momento feliz, o mais feliz da minha vida, ainda hoje recordo, como se o estivesse vivendo agora, como fiquei siderado, suspenso, incapaz de dizer uma palavra, vendo-a pela primeira vez.
      Não creio que, depois de morrer, eu esqueça esse momento, pese o que dizem os que pretendem saber o que se passa depois que nos passamos.   

quinta-feira, 20 de julho de 2017

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    Durante a vida sucedem-se, alternam-se, afastam-se, distinguem-se os prazeres, as sensaborias, os imprevistos, os acidentes. A vida não é um caleidoscópio em que os elementos são as cores mas digamos que um vitoscópio em que os elementos fundamentais são muitos, variados, incluindo mesmo as cores, os matizes, pinturas, formas e outros mais subtis como a beleza, a gondade , a intuição, a sabedoria.
   A vida, a vida é uma arco iris de esperanças que a resignação escurece.

   

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Impunidade

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     E que tal deixar impune quem nos prejudica.?
      Prejucidam-nos alguns dos nossos semelhantes, prejudica-nos e Estado, prejudicam-nos os governanrtes? Prejudicam.nos os elementos agrestes da natureza, prejudica-nos o amigo inconsciente, prejudica-nos um filho sem querer?
      Se a todos eles perdoamos sem exigir retribuiçao, sem pensar no perdão que concedemos,  se mesmo esse perdão não é sentido, é voluntário no senrido lato da palavra, então estamos atingindo um patamar mais elevado da civilização. Por isso a função dum juiz, duma mulher ou dum homem que estudou as leis e a quem a sociedade concede o poder de julgar, por isso eu compreendo que um juiz demore a sentença, por vezes mesmo acabe por chegar à conclusão que não pode julgar, que não tem o direito  e muito menos, o dever de punir.
( vou deixando esvoaçar por aqui estas coisinhas dos meus pensamentos aguardando que quem me lê vença um pouco a preguiça e opine sobre o que escrevo)

segunda-feira, 17 de julho de 2017

mentiras ainda

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      E sobre as mentiras dos graudos?
      Há os que mentem por vício, há os que mentem por política, há os que mentem por caridade, há os que nada mais sabem dizer quando se põem em bicos dos pés.
      Tudo está quando se diz a primeira mentira. Se somos desmacasrados, recolhemo-nos envergonhados (dessa primeirta patranha). Se a primeira mentira é aceite, aplaudida, acompanhada por comentários entudisasmados e encorajadores, aí nasce o vício da mentira.
      A mentira política em geral é recedida pela fama do mentiroso, fama de habilidoso na política, duma forma geral acompanhada pela propaganda  conseguida nos media, pelas estatísticas distorcidas, pela simpatia popula r do mentiroso.
      A mentira caridosa é a única bem aceite por todos. Embora nem sempre distituida de hipocrisia ou de segundas intenções. Mesmo incindindo num membro familiar,nem sempre é honesta.

domingo, 16 de julho de 2017

sobre a mentira

*    Uma criança, de dois, três ou poucos mais anos de idade  não mente. Não tem pressa, não se irrita, não tem depressões. Pode implorar, gesticular, chorar - mas não mente.
      Não mentir é uma das manifestações da sua pureza, uma expressão da autenticidade das suas intenções. Os pais e os outros humanos é que praticam a mentira, não raro também com os filhos. Aa suas artes de comunicação derivadas dos princípios bases da sua educação contribuiem muito para uma visão deformada e não sentida da realidade, que os leva com frequência ao recurso à mentira como forma de atingir algum objectivo que lhes parece útil.
      E ainda que em casa, os pais não usem da mentira como ferramenta da educação , na escola primária  cedo surgem as surpresas para a criança, cedo esta começa a ser enganada com a ocultação da verdade e a substituição desta pela mentira, mais ou menos camuflada pelo aproveitamento do interesse e da curiosidade da criança.. E o choque dessas surpresas provoca-lhe a sedimentação da desconfiança, o aparecimento da dúvida perante a verdade, começando a criança a reagir como quando se queima pela segunda ou terceira vez. E a chama da mentira chamusca, por vezes, muito mais que a duma fogueira.
      Uma criança se não tem medo, não mente.

sexta-feira, 14 de julho de 2017

*       Eis-me diante da folha virtual,  de papel , branca, imaculada. será que a folha me mira com a mesma atenção que eu a encaro, com a mesma ansiedade com que a fixo, como a ansiedade que o passarinho abre o bico para a mão pássara que chega ao ninho, esvoaçando e exibindo a refeição que lhe traz, pressurosa. Simplesmente neste caso, a folha de papel nada me traz, só me traz branco, nem papel me traz, o branco parecendo-me que me absorve tudo o que penso, como absorveu ltodas as cores do universo, só restando o branco, que nem cor é, por isso se diz "fiquei em branco" e não se diz "fiquei em tinto", expressão, que eu saiba ainda não foi usadapor algum dos mais ilusres literatos ou pensadores oupublicitário famoso ou por algum comerciante que montou a barraca na feira e apregoa a banha que cura tudo.

terça-feira, 11 de julho de 2017

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      Estãao de moda as partidinhas por email. O carnaval ainda está longe , mas uma data de maduros - e provavelmente de pouco maduros, também - entretêm-se a enviar encomendas das mais diversas , encomendas que nãao encomendei. Tocam à porta da minha cass.. Quem é ? - pergunto eu, interrompendo a leirura do diario de Dostoievsky, agora incidindo nas vantagens da cultura dos seus conterrâneos no século dezasete, que quase nada se distinguiam das necessárias neste século vinte e um. - Carteiro ! - salta lá de baixo, da porta de entrada uma voz femenina, agradavel, que parece resignada e bem acostumada à missão da proprietária trabalhadora. Abro a porta á carteira, que me ontempla, nesta tarde de calor de julho, com um sorriso simples, afavel, natural, não daqueles sorrisos de circinstância como o do sujeito que ontem me deu um encontrão na rua .. Ela mostra-me um embrulho  e diz-me - São quarenta euros, vem à cobrança- Olho para o embrulho, dou-lhe uma volta, vejo em letras verdes, simpáticas, atrativaas, aliciantes, que me informam: "O seu creme de beleza.BELESTAR".  Sorrio para a carteira, - "Menina eu não quero isto, nâo encomendei nada disto, como vê, ainda  não preciso de cremes de beleza " - Ela aceita o pacote, mete-o no saco do correio e diz-me: "imagine que consigo já são dez as devoluções iguais a esta , aqui na sua rua".  

domingo, 9 de julho de 2017

O que se guarda

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      Há os que arquivam tudo, há os que deitam tudo fora. Há os que guardam tudi até morrer, há os que guardam o que encontram no chão, desde um alfinete até um elefante. Há os r que têm a sorte de nontrar uma nota no chão, há os que têm o azar de embicar com aquela pedra saaliente, na calçada. O meu pai, no seu escritório, tinha uma armário com seis prateleiras cheis de biugigangas, alguns livros antigos, alguns artigos de oficina - parafusos e  porcas, um alicate especial para fura couro, fitas, adesivos e colas especiais, pinças metalicas, um relógio da marinha, binóculos antigos, latas de tinta meio cheias ou meio vazias,  cordeis de váriras grossuras e muita coisa de que não me lembro , tudo enchendo as prateleiras, tudo muito bem arrumadinho, um oficial de marinha nas suas funções de comando se não ordena bem tudo o que usa, sofre as consequências. Por isso também se chama ordenar ao comando.
      Mas os que são um pouco cuidadosos e que não tem um funcionário aministrativo às ordens, qque lhe trata da papelada, têm de ter um arquivo que pode ser daqueles metálicos e luxiosos, com gavetas cheias de pastas ordenadas por ordem alfabética, que sempre vemos nos filmes ser violados por um bandido que pretende reoubar os segredos da personagem principal afim de cumprir a malvadez inserida  no argumento da peça, segredo .que sempre encontra no último segundo antes do polícia de ronda entrar, sonolento, no local. O meu arquivo não é desses é mais modesto, é um conunto de "dossiers" onde meto tudo tão bem arrumadinho que quando necessito de algo que penso que arquivei há três anos, nunca aencontro, fio-me sempre no acaso, vou abrindo os"dossiers"  até que por fim, no dia seguinte, encontro o tal papel que buscava,arquivado no "dossier" errado.
      Isso da burocracia tem  os seus enconatos.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Devaneio dedicdo à Clarissa, querida neta chilena

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       E eis-me mergulhado num devanio mefistofélico impregnadoa duma salsa indiana mais saborosa que um pesto aa mais que todas andava hoje perdiadanos caminhos do além em busca dos tais buracosde queijo que são mais importantes quje o buraco do tempo em que vvo satisfeito não dando férias á imaginação nem pagando as dívidas que tenho das saudades encontradas sempre que me viro para ti e encontro esse olhar felino  o Alfredo que diba se minto, eu sou como as sogras antigas que nunca se satrisfaaiam com tudo e faziam alarido no dia depoois do casamento da filha querida, Nunca me pude queixar dessa especie de gente, até porque só tiive umade cada vez que a via o abutre que tenho em casa fazendo criação contou-me que ja esteve de férias no Chile esse pais que também é uma jardim à beira mar plantado bem podia, estar aaqui plantado no mediterrâneo seiia mais uma serra com indios, espanhois, e até com alguns chiloenos que seguem teimosos em ser chilenos, não falando das chilenas, autenticas leoas.
      E mais não digo, para não meter a pata na pôça e mergulhar os parentes na lama.

Aos pais com filhos em idade escolar

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    Aos pais com filhos em idade escolar venho lembrar, se é que não o conhecem, que Dostoievsky no seu " Diario de um escritor" escreveu, referindo uma obra doutro escretor:
     "Fundando-se em consideraçoes psicológicas, destribuirá as secções e trabalhos do livro de modo que a primeira secção, despertando o pensar e estimulando a curiosidade do leitor, o incite a passar
a segundda, o anime a passar para a terceira e assim sucessivamente...."
           Dostoievsky escreveu isto em 1861.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

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      Sempre que penso que terei de pensar fico locubrando no que pensa quem não pensa.Parece uma manifestação de insanidade esta de pensar no que pensam ontros que não pinsam. É qualquer coisa como comer os buracos do qiueijo e ficar farto de caril, ou percorrer a esteira que deixa no mar um barco parado . Quando no fim de contas, quando os golfinhos do estuário do Sado, sem meandros, sem ameijoas nem ostras, sem naus catrinetas, só com canções parentes da que ganhou o festival da canção.A minha fé é imensa, por isso não deixo de comer batatas fritas com bifes e ovos moles a égua, não aprecio ovos a cavalo,.Vibram em uníssono as cordas da minha hossana e precipitam-se as neves do Kilimanjaro, chorando a morte do maior leâo matado por aquele turista parvo que um dia também um dia ou uma noite também um leão  também encontrará um tulrista parvo que procura a gloria com uma espingarda que talvez  noutro dia outro animal lhe roube a espingarda e o mate, dizem que já aconteceu parece que está escrito noa anais da selva.

domingo, 2 de julho de 2017

E mais

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   E mais.
      - Uma criança, saciada a fome, não come mais. São os adultos que a induzem a comer mais, " o menino tem de comer o resto, não deixe nada no prato, há muito pobre com fome" e outras maravilhas deste género de educação. Uma das razões de existirem tantos gordos e gosdas, rebolando.se.
      -  Uma criança nunca maltrata um animal, Por curiosidade pode pegar-lhe e involuntariamente causar-lhe algum dano -  como ao ver uma formiga, lhe pega e com os dedos a molesta.
      - Uma criança revela amizade, se a acarinhamos desde que nasceu. Perante o  que desconhece não reage com violência. A curiosidade natural leva-a a  investigar o que haverá ali de novo.. Mas sempre com simples cuidados e devagar, por vezes queima-se ou pica-se, adquirindo experiência.
      - Uma criança não rouba para armazenar riqueza. Se tem fome, e encontra que comer fá-lo como qualquer animal, que só mata para saciara a fome.
      - Uma criança nunca cria vaidade com aquilo que faz.. Mas acaba por criar rancor quando a obrigam a fazer, sem qualquer explicação, o que não gosta de fazer. Poi isso  muitos professores obtêm tão fracos resultados.
       E, se pensarem, muito mais nos ensinam.

sexta-feira, 30 de junho de 2017

O que as crianças nos ensinam

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      As crianças ensinam-nos muito. A todos.
      Já repararam que uma criança niunca tem pressa? Só tem pressa depois que os " mais grandes" começam a atirar-lhe com diversas invectivas - "vai-te embora , sai daqui, o que estás aqui a fazer parado?, " etc.Até essa idade, talvez cinco anos ou pouco mais, ou pouco menos, tudo  o que faz é devagar, sem pressa, repetindo com cuidado, pouco a pouco, algo que asprendeu - devagar. Leva meses a aprender a andar, depois, se não sofre acidente, anda bem durante mui anos.
      Mas há muito mais que as crianças nos ansinam e que trazem bem sabido da barriga das mães. Muito. Por exemplo , aprendem a sorrir, nunca se zangam - a única forma que usam para discordar é o chôro -  , agradecem sempre o que se lhes dá, se não os agredimos.
      Está sempre cheio de curiosidade. E dessa forma aprende muito. Nós, os "grandes", é que lhes matamos, muitas vezes , a curiosidade, e não aproveitamos esta para lhes ensinarmos o que de bom  aptendemos.. Os professores que a aproveitam obtêm sempre bons resultados.
      E muito mais, pensem nisto.
 

domingo, 25 de junho de 2017


Quem frequenta restaurantes tem sempre as suas preferências.. Uns gostam de peixe, outros apreciam mais as carnes, outros inclinam-se mais para as saladas. Os que frequentam a vida, muitos são infiferentes ao que se passa à sua volta, à natureza, aos sons, aos aromas, aos trinados das aves, alheios a tudo como bois aguardando a canga ou a picada eléctrica mortal no matadouro. Pouco mais fazem que propagar a espécie.
Nos restaurantes reunem-se os clientes, solitários ou em grupos, nas mesas.
Na vida, aparece gente, solitários ou em famílias, sem preferências. Ou porque se habiruaram a não pensar em nada. ou porque teem os costumados e usuais vícios do pensamento: o futebol, o que se come, o que se bebe, o sexo, o que sofre ou imagina que sofre, a inveja, a ambição. E esquecendo ou não conseguindo preferir a bondade, a amizade, a solidariedade.

quarta-feira, 21 de junho de 2017


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      Um livro que aguarda ser lido é como um "bibelot", està na prateleira apenas exibindo a  lombada, ocultando o interior com as folhas ainda quase coladas..O "bibelot" está ali, abandonado, quase sempre com alguma companhia da mesma familia, quase sempre brilhante por fora e inocuo, inerte e inútil por dentro. O livro ainda não lido, aguarda confiante que lhe peguam com cuidado, que lhe virem as folhas,  que o mirem , palavra a palavra, pode usar luxo ou ser modesto na vestimenta, por norma tem conteúdo valioso.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

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      O paradoxo continua na moda  Nas literatura, na ciência, na pintura, noutras artes consideradas menos nobres, como a culinária, metalomecãnica, a criação de qualquer animal.
      Na literatura continuamos a desconhecer muitos autores geniais, porque as editoras não se atrevem ou dispresam os seus originais. 
      Na ciência e nas outras artes, maiores ou menores, seguimos desconhecendo  os autores de ideias geniais, porque não conseguiram os meios necessáriso, poirque lhes faltou a perseverança, porque desprezaram apoios que lhes ofereceram.  
      A criança bem formada desenvolve naruralmente, esses atrbuos necessários para a vida, a perseverança, a insistência no esforço, a solidariedade, a teimosia racional. Qualidades que muitas vezes são reprimidas pela falta de liberdade, pela imposição de normas caricatas, pelo comodismo dos que os devem apoiar. Toda a criança normal, revela cedo o despertar da curiosidade. E que de igual modo, muitas vezes é reprimida e anulada, Repare-se como os programas de ensino pouco referem sobre isto, em particular sobre como deverá ser recomendado o apoio à  curiosidade dos alunos.
     E isto representa um paradoxo, porque quase todos os pais reparam no que a curiosidade representa na aprendizagem e formação dos filhos.        

segunda-feira, 12 de junho de 2017

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         Recusei todos os prémios, que nunca me foram atrbuidos.
         Saltei todos os obstáculos antes de passar por eles.
         O que ficou na janela onde há setenta anos se debruçava quem amei, o que ficou lá ?
         E os passos que dávamos, de máos dadas, para onde foram?
         E o que dissémos, dançando, em que música ficou?
         Se quem morre leva saudades, se as saudades são fortes, como podemos encontrá-las ?

domingo, 11 de junho de 2017

*     Não me canso, escrevendo.. Não sou como aquele indivíduo que dizia que  não escrevia porique seria atirar pérolas aos porcos . Para quê ?- continuava dizendo - se vai tudo parar ao lixo?. Não, Quanto menos se escreve menos se paarticipa. Escrever é como falar para longe onde não nos ouvem  mas onde nos podem ler. E participar nalguma coisa. Numa ideia, discutindo-a, comentando-a, completando-a. Numa acção, incentivando-a, comungando nos ovjectivos, aperfeiçaoando-a, contribuindo.para a valorizar. Na formação doutros, acompanhando a evoluçaõ, adoptando métodos simpáticos. Muitos não escrevem porque pouco passaram das primeiras letras, embora muitos deles tenham muito para dizer. Porque ser pobre de letras não significa pobreza de espírito. Outros não escrevem porque  nada possuem para dizer. Esses terâo uma velhice dificil, a mais dificil porque é a que resulta da apatia, de nada terem ou sentirem para dizer, o onde o espírito se apagam, amortece, declina dia a dia, sem que o sintatm.

sábado, 10 de junho de 2017

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      - O que está perto de mim, essa rosa cativa ou uma tentação? O que sinto longe de mim a asaudade perdida ou a aventura da vida?'  Como os carris do caminho de ferro que não há meio de se encontrarem, a minha mente envolve.se no meu passado e nâo há forma de encontrar o futuro.
      - Habituamo-nos ao nosso passo, enquanto andamos. Habituamo-nos ao nosso espírito enquanto pensamios. Andando, saimos do caminho se nos distraímos.. Pensando, se nos distraímos, adormecemos. .

terça-feira, 6 de junho de 2017

       Os seis anos no colégio militar decorreram sem incidentes de maior. Poucos dias depois de ali entrar, ouve uma epidemia de escarlatina., que também me atingiu Nesse tempoi ainda não existian antibióticos o tratamento consistia numa dieta obrigatória: os primeiros dois dias a água, os seguintes vinte a leite sem açucar. E a partir dai a mudança da pele, em todo o corpo. Ficou-me na memória tirar a pele dum pé como se descalçasse uma bota. Ao fim dos quarenta dias.em quarto isolado, apenas com algumas visitas da minha mãe, sai para as férias da Páscoa.
      A preparação intelectual que levei do peimeiro ano liceal no liceu de Portimão era muito deficiente. Em todas as disciplinas de letras e de ciências, a nota media foi de dez valores (as classificações, então, eram de zeto a vinte ) medias que, diga-se  de passagem, representavam muito mais que as medias dos meus conhecimentos. Nao aprendera a pensar nem a estudar. Nenhum professor quer os de Portimão quer os do colégio me incentivava a curiosidade de criança, curiosidade que é maior motor para o estudo e aquisição do saber. Todos os professores do colégio tinham boa formação militar mas fraca em pedagogia. Limitavam-se a ensinar as matérias constantes dos programas. E nas salas de estudo - três horas e meia por dia, excepto ao sãb ado, apenas uma hora e meia - o oficial presente limitava-se a impor disciplian.
      Mas muito marcar passo, sempre a marchar quando íamos para as aulas e quando delas regressávamos,  nas idas para o refeitório, para o banho, para a missa.(aos domingos, os que ficavam no colégio)., toques de corneta para acordar e à noite, de silêncio - este um toque suave qe parecia perdido a esquecer-se  ao longe.
    Saidas nas tardes de sábado, ia para casa duma tia, a tia Mimi, que queria que assim a chamassem porque não gostava do nome próprio que lhe tinham posto, Maria Ermengarda.  E regresso ao colégio até às vinte horas dos domingos. Ali, na casa da tia, o tio Tomaz, o tio mais simpático que tive, entregava-me sete escudos e meio, com tanto tinha de me governar, não esquecendo o necessário para os transportes, de ida e de regresso ao colégio.
     E aqueles seis anos, frequentando o colégio, passaram sem dificuldades, as classificações foram subindo, a discilina nas aulas e nas salas de estudo foram prfúcuas, as medias dos exames finais no terceiro, sexto e sétimo ano foram melhorando, treze no terceiro ano, catorze no sexto e quinze no sérimoa. Fernando ali obteve uma explèndida preparação para a universidade.  




carro el

segunda-feira, 5 de junho de 2017

     Fernando tinha dois irmãos,  de sua mãe:
         -José Manoel, engenheiro civil, nascido em 1923, casou com Nelida Maria de nacionalidade espanhola. Exerceu profissão, com excepção os dois primeiros anos, em Espanha, ao serviço duma grande empreaa, em diversas espanholas, na Turquia e na Venezuela. Era bem estimado pelos amigos e pelos colegas. Não evitava os trabalhos, punha o capacete e ia onde os outros não iam.Disso resultante, segundo um médico relatou a Fernando, que a exposição demasiada aos vapores dos combustiveis exalados pelss máquinas, nas obras, fosse a causa justificativa dum cancro no cérebro, de que morreu em 1998. Na familia de Fernando, de parte do pai, de parte da mãe, nem de parte dos seus irmãos, não se conhecia um único caso de cancro.
          - Maria Luisa, doméstica, nascida em 1922 casou primeiro com vinte anos com José Pacheco, Nobre, vivendo com ele no Barreiro, onde tinham casa e do qual se divorciou, voltando a casar com José Fernandes do qual teve um filho. Frequentou um liceu em Lisboa, durante dois anos, ali vivendo em casa da  irmã Fernanda. Conservou a amargura proveniente dos desastres quer do primeiro casamento quer do segundo.

quarta-feira, 31 de maio de 2017

   A minha Mãe sempre foi carinhosa, tinha a paixão da música e do canto, tinha tres pianos, dois em casa e outro na casa da praia. Em cima do piano mais usado tinha uma resma com dois palmos de altura de músicas de ópiera. Só muito mais terde quando eu me adiaantava na jubentude, tocavva e cantave algum fado. Tentou que eu aprendesse piano, mas não me seduzi  pela música. E a minha Mâe também pinttava e bem, tenho um quadro dela na sala, al lado de quadros dum pintor ilustre. Mais duma vez quem me visitava preferia o quadro da minha Mãe.
  Talvez tenha apresentado uma alusão repreensivel, incorrecta, ao referir a hereditariedade, pretender apresentar uma metãfora imprópria falando da cestinha que vem de Paris, ou cometido um savrilégio quando falei do espírito santo. Apenas pretendi, com a chispa, dar uma ideia da minha opinião sobre o lugar ou a coisa donde começamos a desvendar a vida.
        O meu pai, oficial da marinha na situação de reserva, sempre o vi e escutei inconformado com a patente que tinha, capitão tenente, a mesma patente mais de trinta anos até, quando morreu.. Tinha a quietude do marinheiro que passa milhares de horas encarando o mar, o apetite comum a todos os homens que navegam, a decisão e o desennrascanço de todos os que tripulam um bervo.Nunca negava esmola aum pobre, ajuda a um necessitado, fossa pessoa de família, fosse desconhecido.. Jamais o ouvi gabar-se dos seus feitos no comando de barcos ou das capitanias.Não era violento, enqundo o conheci apenas me contemplous com dois ou tres sopapos, aliás bem merecidos.. Eu adorava-o, era o oposto a um médoco nosso conhecido, que dava tareias a um filho  battendo-lhe com a cartunheira carregada de cartuchos. No dia em que fui apanhado a roubar o mealheiro da minha avó, esperava mais sopapos e mais fortes, quando eke entrour.no quarto onde me deitara para dormis.Apenas me disse : "então agora temos um ladrão na familia? " - e.saiu do  quarto sem mais nada me dizer, Foi pior que se me tivesse dado uma sova.

terça-feira, 30 de maio de 2017

*          - A bondade deve ser aprendida desde criança.. Para o que muito contribuem os sorrisos, os afagos e os exemplos dos pais.
            - Devemos vencer a resistência que sentimos em oferecer, a esmola a um pobre, um exemplo a uma criança, um auxílio a um necessitado.  Muitas vezes assobiamos para o lado,  com argumentos sem consistência .
            - Quanto mais poder temos, mais difiScil é ser justo.
            - Combate-se a inveja com o uso da razão.
            -  Se por qualquer motivo uma árvore muda de sítio - pela furia dos elementos, pela mão da mulher ou do homem,- no novo lugar cria raizes, mantendo-se erecta,  criando novos ramos, folhas e flores. Um ensinamento da natureza.

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Picuinhas

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        O Felizarso, pasmem, não vive feliz. É um da queles sujeitos sempre preocupados com o futuro, sempre aguardando a desgraça, sempre de pé atraz  Detesteava qualquer anomalia, odiava o ponto branco na parede preta, curvava.se servilmente para apanhar do chão  um papel minúsculo, não resistia a uma pequena mancha de café na toalha, inteeompendo a conversa com o convidado ilustre para  se concentrar na tentativa de eliminar a mancha com o tira-nódoas. Em casa, mal encontrava um pequeno defeito, na pintura, no tecto,no lava louças,logo chamava o pintor, o pedreiro, o canalizador.
             - Tu, tão mericuloso - dizia-lhe um amigo- devias ter escolhido e encontraso outra profissão, geólogo, coca bichinhos de coisas antigas, inspector das finanças.
 .            - Pois que é que queres, ainda não a encontrei....
      E entretanto, a esposa, chateada com tantas picuinhices, pòs lhe os cornos, fugiu com o .canalizador.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

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             Bizarrias ou contributos para a historia da estupidez humana ou teste de inteligência:
      - Nunca tomo o segundo copo(ou banho, ou vinho, ou avião) antes do primeiro.
      - Saio sempre para a rua sem abrir a porta.
      - Nunca consigo descobrir o que já foi encontrado.
      - Na minha dieta (para emagrecer) como de tudo. Estou pensando o que deveri comer na minha dieta para deixar-me de dietas.
      - Continuarei escrevendo apagando anunca s folhas escritas. Daantes dava-me um trabalhão, agora basta-me um clic nesta maquineta, ou que ela se zangue comigo. Por isso, enquanto escrevo, conservo sempre o sorriso aberto, franco, sincero, as pontas das minhas rugas de expressão voltadas para cima.
      - A minha sombra   tem asas, nunca é em tecnicolor, nunca me obedeceu, é independente como uma criança que os pais respeitam.
             E fora das bizarrias:
      - Daqui a mil anos gostarei de me encontrar.                

terça-feira, 23 de maio de 2017

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      Pouco me importa que os meus livros sofram de poucos leitores. Aliás as  suas edições - exceptuando a do " Sonho de sorte"(que me custou os olhonouts, o nariz e a face da cara) de poucas  dezenas de exemplares oferecidos para ornamentação, com as suas lombadas modestas, das prateleiras de amigos e familiares, todas, incluindo a que me custou os olhos da cara , etc.,foram pagas com o sacrificio dos cobtes da minha magra reforma. Ficarei muito mais contente se souber que uma neta, um neto ou uma bisneta ou um bisneto meu um dia exclame:
       -   Vi um livro do bisavô na prateleira do armário, cou começar a lê-lo.
    E igualmente contente ficaria se soubesse que alguma ideia, conselho., proposta contidas num deles, fosse aceite, propagada e utilizada.
    Quantos bi ou triliões de livros, escritos, não esquecendo catálogos, panfletos, prospectos, não surgiram no mundo depois de Gutenlberg lançar a imprensa, ou conservados  noutras formas de perpetuar a palavra, quanto tudo isso foi esquecido e deaproveitado para a felecidade do homem e da mulher, para a suavização dos instintos indesejáveis, para conselho da juventude, para inspiração das gerações actuais e futuras da espécie humana?
     A investigação, tantos passos gigantes percorrendo no último século e no que  decorre, decerto se debruçará sobre o meio de consercvar, do modo mais eficaz, tudo o que a mente humana vai descobrindo e oferecendo para o bem de todos, descobrindo a forma de evitar e anular os maiores males que assolam a humanidade.

domingo, 21 de maio de 2017

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        Quem escreve, gosta, ama, por vezes adora os personagens que cria, estasia-se com as paisagens que inventa ou descreve, entusuasma-se com as situações que engendra. sEmbora por vezes sofra, se torture, se impaciente por não encontrar os termos mais apropriados, as expressões mais completas, as solucões mais adequadas, acimade tudo terá que se sentir insatisfeito com o que pespegue no texto.Preocupa-o a exactidão da forma, o interesse do conteúdo, o alcance das ideias. Encontra soluções para rudo, altera vidas, azeda caracteres, salva os herois, castiga os traidores, condena os malandros - como quase  sempre acontece nas novelas, nas representações teatrais, nos filmes de acção.
       Mas a habilidade, o talento maior, a argúcia mais contundente do autor dum livro, duma peça de teatro, do argumento dum filme, define-se pela intensidade que o leitores ou os espectadores entram na trama que o autor engendrou . O que se reflecte mos comentári os que ouvimos à saida dos teatros, dos cinemas ou, em casa, no fim do episódio da  telenovela.
      O autor é soberano, por vezes sente-se Deus, tem poder absoluto sobre os personagens, sobre tudo o que vai escrevendo, exaltanso os bons, a bondade, a liberdade, condenando os maus,  a malvadez, o despotismo.
      Ou ao contrário. Como lhe apetecer. e mais lhe agradar.

sábado, 20 de maio de 2017

*    Falar de assuntos do espírito poderá parecer presunção - presunção e água benta...- veleidades de quem escreve, ou até alguma estultícia.. Por mim mais não que a continuação dos desejos e razão porque escrevo o que escrevo neste meu blog. Na esperança, talvez vã de que conversem comigo os que leem o que escrevo, critiquem, comentem, opinem. Alguns dirão - para quê? outros pensarão -  não estou para chatices; outros ainda, com maior ou menor razão: tenho mais que fazer..
   Porém, muita coisa que existe no mindo nasceu da controversia , da discussao, da curiosidade.- e esta, depois de nascermos, é inata. Se for apoiada e incentivada desde que um ser humano é lançado neste mundo,contribuirá para que esse ser evolua com maior rapidez, que a sua memória seja mais e melhor enriquecida. E se a curiosidade da criança for contrariada - quantas vezes vemos proibida - o efeito é negarivo, nefasto, prejudicial para o jovem com profundos reflexos no seu futuro.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Viver bem

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       Viver bem significa forma de viver diferente, para quase toda a gentel.Três grandes grupos: os que apreciam mais os assunto do espítito, os que pendem mais, nos gostos da carne e o grupo final, talvez o mais numeroso os que tanto lhes faz, os que não apreciam nem umas coisas nem as outras.
       Estes últimos. São os que costumam dizer "o que vem à rede é peixe". Mas se a rede lhes traz uma bota, um limo ou um plástico, ficam indiferentes. Apreciam os gostos da carne apenas quando têm fome,  Os gostos do espírito limitam-se à apreciação do dia e da noite, do dormir e do acordar, do escutar a conversa superficial doutros, louvando os prazeres do corpo, satisfazendo a vaidade própria, contando anedotas que não impliquem algum raciocínio.. Em  resumo, como se costuma dizer, não são peixe nem carne, tanlo se lhes dá, desde que não o obriguem à dor física ou ao esforço mental.São seres apáticos, pou ou nada passam da média em tudo.
      Os que apreciam mais os gostos da carne, vivem submeridos à materia, aos materias, aos produtos. Um exemplo marcantte o de um tio meu que passou anos de vida a desmontar e montar automóveis, acordava, passava as refeiçoes e sonhava com os parfusos que sobravam nas   montagens do carro que desmontara, moía o juizo de forma infrene do trabalhador que o auxiliava, dizia que era mais importante saber desmontar qualque coisa, que saber ler e escrever..
      E há os que apreciam mais as coisas do espírito.
      E, como em quase tudo na vida, a virtude está no equilíbrio.

terça-feira, 16 de maio de 2017

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     Com frequencia ouço dizer ou leio num escrito que representar é dificil. É.È dificil quando não é natural. quando um individuo, em momentos da sua vida, não faz de conta. não finge, não toma atitudes, não exibe gestos  ou diz frases de circonstância. Nesses momentos quase todos somos actores, melhores ou piores de acordo com a prática. O indivícuo frequentador de enterros ou das casa mortuárias, ou que encontrado outro de luto, em segundos afivela, exibe um ar conpungido, profere as costumados frases "os meus pêsames", "sinto muito", "uma grande perda", etc..
      No entanto, é-nos  muito mais dificil não ouvir a consciência quando representamos, quando não somos sinceros, quando somos hipócritas, ainda que a repetição, tornando-se  um vício, suavize o que ela nos acusa.Então, encontramos argumentos que justificam a hopcrisia como a recusa a um pobre a justificamos dizendo que não damos dinheiro para vinho, como algumas mentiras se justificam com a piedade.
      O nosso corpo é que quase não mente.Reage sempre, ainda que tarde, muitas vezes, prejudicando-se.  

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Renovar, segguindo o programa  
Na casa de banho conservo desde há uns meses uma orquidea. Ali chegou com cinco folhas carnudas e até hoje vem gozando da humidade que ali .impera todos os dias. Criou mais duas folhas, apenas lhe deito no vaso, cheio de matéria inerte, à noite, meio copo de água, deixando escorrer a água que sai pelo fundo esburacado do vaso. Ainda não descobri do que se alimenta, dado que as raizes, cada vez mais abundantes brevemente, logo que a  temperatura ambiente suba o suficiente, emitirão um ou dois talos com flores.
       Um colega meu, já falecido, o Bento Nascimento, injustamente saneado após o 25 de Abril, niunca sendo nem fazendo algo na política, descobriu e registou várias orquideas na zona a norte de Sagres e referindo-se às orquídeas, disse-me que não se sabia - e  julgo que hoje ainda não se sabe - qual a longevidade dessa planta, mas que havia indícios de que é espécie que vive muitas dezenas de anos.
      Pensando na maravilha que representa a vida das orquídeas - sem adubos, vivendo e crescendo apenas com o recurso do ar, da água e da luz, comecei a matutar sobre a nossa vida, a dos seres humanos.
     As orquídeas e todas as plantas, têm um programa de vida que seguem rigorosamente, como todos os seres. Até as pedras é provável que o tenham. As plantas renovam-se, emitem raizes novas, folhas novas, flores e sementes, de acordo com o seu programa de vida..
    A espécie humana também tem um programa inserido no seu ADN, tem vida limitada, a sua reprodição cedo termina, muito antes de acabar a sua vida. Será que poderemos propongar, renovar essa função da reprodução para àlém dos quarente ou cinquenta anos de idade. ? Penso que sim.
   Amanhã continuo.

sábado, 13 de maio de 2017

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      Viver não se reduz ou resume ao bom ou ao mau, ao sim ou ao não, à claridade ou à escuridão. Há mais, há outras alternativas que nos preenchem ou poderão preencher parte da vida, há coisas diferentes que nos podem trazer alegrias, há os arco-iris, há a poesia da natureza que nos rodeia, da beleza de muitas coisas simples, do que pode sair de nós, do q eue podemos encontrar no que outros nos deixaram.
      Os que ápenas partilham do sim ou do não e assim vivem resignados perdem a maior parte, a melhor parte do que a vida lhes concedeu quando nasceram.
     A resignação, o aceitar conformado de qualquer incómodo representa e significa que a porta da vida começa a fechar-se, que se começa a passar da claridade à escuridão, abandonando qualquer terceira alternativa..
      Admiro e respeito os que nunca se resignam: erram, acertam, mudam, suportam, variam e que continuam acreditar muito no muito que a vida lhes poderá proporcionar.
      Com tantas e lunimosas alternativas.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

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        Pois não. Pois não querem aqui ver o que se passa quando nos atinge uma boa surpresa, quando deparamos, quando chove,  com um chapéu de chuva perdido, quando acontece o senhor acaso surgir-nos cheio de boa vontade e portando um ror de alegrias?  Pois não encontram, senhores, uma surpresa num blog encontrado quando perquizavam cheios de ilusões o  "blog anterior", ou abriam um livro esquecido numa mala fechada lá em cima da prateleiro do armário onde abandonam os vossos cheviotes que pouco usam, as vossas calças separadas porque lá não cabe a barriga reveladora da vossa gula? - e nesse livro encontrarem uma nota de mil escudos das antigas, uma dona Maria, lembram-se? E agora beiço caido, agora já não circula e mesmo que a trocassem seria um pouco menos de dois euros, com menor valor aquisitivo agora que um centésimo do valor aquisitivo daquela nota, há dezasete anos
    .Não ´nos dizem que a inflação desde há dezasete anos até agora, foi muto pequena?
     Pois dizem. Pois não : com aquela nota comprava no ano 2000 um bom par de sapatos.E agora, com o seu valor em euros compro um sabonete vulgar, pequeno, talvez um poucochinho perfumado.
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     Pois sim. Façam de conta que não leiam o que escrevo. Fazer de conta é um vício que se agarra como a lapa se agarra à rocha, marisco que os turistas já levaram quase todas e serve bem para imitar as ostras à Richmond, na Internet encontram a receita. Portanto também poderei explicar melhor servindo-me dos meus conhecimentos enciclopédicos: é um vício como o rótulo se agarra à garrafa,. ou ainda como o chato se agarra ao primeiro que encontra: se for outro chato, é u ma maravilha de comunicação e troca de conhecimentos.
        Pois sim,

quarta-feira, 10 de maio de 2017

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      Continuo, mais empedernido que um bloco de granito, agarrado à vida.
      Como um animal insaciável, trilho a vida que descortino à minha frente sem me amortecer, sem tirubear, sem deixar que a dúvida me invada, deixando para tráz qualquer, negativo  aproveitando o novo dia que todas as manhãs me aparece.
     Continuo a permitir que os sonhos me povoem a mente e a noite, que outros projectos  me surjam, a passear por outras praias e o mesmo mar, que me esperem outros sabores, outros perumes, outros cantares.
     Continuo a tirar partido do que a vida me concede, do que o bolso me permite, da felicidade que a familia me oferece.
     E por nunca pretender cobrar nada me vai custando encontrar.

terça-feira, 9 de maio de 2017

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Continuo aprendendo a viver, sigo buscando muito que ainda não encontrei, procuro sempre, nos meus passeios, passar por outros caminhos.Parece dificil: basta, de vez em quando dar um passo para a direita. Ou até para tráz.
Não há meio de encontrar umas calças que emagreçam. Os humanos inventaram a roda, o botão, a renda de bilros, o fecho eclair.. No dia em que um alfaiate ou não alfaiate inventar calças que emagreçam a industria actual das calças colapsará. Ainda há muita coisas útil por inventar.
Ou por melhorar. Melhoraram-se muitos instrumentos, melhorou-se a culinária, melhorou-se a instrução. Mas pouco ou nada se melhorou para desvendar o mistério do acaso, a forma de programar a surpresa, o meio de evitar aquele chato.
E deem-lhe as voltas que quiserem. Enquanto houver dinheiro, haverá corrupção.

domingo, 30 de abril de 2017

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Aquele comboio, nesse 1953 era um comboizito do tipo dos comboios das minas, de carris de via estreita, nas carruagens apenas uma fila de assentos envergonhados, uma locomotiva de brinquedo rebocando duas carruagens de uma fila de bancos e uma carruagem de mercadorias abarrotada com os nossas malas e as dos outros catorze passageiros. Uma dezena de quilómetros de paisagem desértica, sem qualquer vegetação nem outra forma de vida, vinte à hora ou pouco mais, convidando ao torpôr, ao sono, reforçado pelo "deficit" acentuado pelo curto dormir da noite anterior. Pouco mais adiante, a locomotiva ofegante atacou orgulhosa a grande subida da serra da Chela. Mas eis que pára e o revisor avisa-nos que teremos de sair, não tenham medo aqui não hã leões, para se distrairem até podem dar uma ajudazinha à locomotiva, despertámos e lá fomos prestar a ajudazinha requerida pelo revisor, que não se esqueceu de colaborar. Foram não muitos metros, entramos na estação de vila Arriaga, da povoação pouco se via. Daí em diante mais algumas paragens curtas para a máquina tomar fôlego e jã noite cerrada, às nove e trinta, de acordo com o horário previsto, chegámos a o Lubango, cidade então conhecida por Sá da Bandeira.

sábado, 29 de abril de 2017

Saltos na luz

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- Muita coisa não acontece. E outras muitas não as encontramos, por mais que as procuremos.
- O bocado que esteve guardado nem sempre foi comido pelo destinatário.
- Há todas as cores dentro da escuridão, ainda que digam que é negra. Porque ainda não se descobriram os limites da imaginação.
- Ouvimos dizer:"quanto mais alto, maior a queda". Com a excepção da bondade.
- O bom político deverá sempre chamar os vencidos e dizer-lhes: vamos reconstruir a vossa cidade"
- Malhar no brando também pode endireitar. Malhar no ferro frio, também aquece.
- Não é decorando um dicionário que se faz poesia.
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sexta-feira, 28 de abril de 2017

Outra noite de viagem até ao Lobito, outra cidade sem caracter, como Luanda que, apesar dos seus quatro séculos e meio de existência>: Uma cidade sem catedrais, sem grandes parques ou jardins, sem universidades, sem avenidas largas, sem muralhas arruinadas ou reconstruidas com maior ou menor autenticidade.
Fernando e Tari, não sairam do Uige e, na manhã seguinte, vinte e um dias depois de partirem de Lisboa, desembarcaram no porto final da viagem, Mossâmedes, uma pequena cidade de microclima raro, de vinhas generosas em duas produções por ano, primavera constante, chuva raríssima, as oliveiras nunca produzindo azeitona, o deserto começando ali com aquela única e bonita planta, a Welwitchia Mirabilis, só conhecida neste deserto, que se contenta por receber água da chuva de dez em dez anos e da humidade que alguma e rara brisa marít ima pode transportar. E com as duas malas de porão desembarcadas, uma boleia ocasional deixou-os no único e modesto hotel. Deveriam embarcar no comboio para o Lubango, de nome portugues Sá da Bandeira, um comboio que só partiria às "seis da manhã do dia seguinte.
Saíram do hotel, era ainda bem cedo, sentaram-se num banco,na rua larga que vinha do porto, sem trânsito, sem habitantes ali passando, parecia-lhes uma cidade deserta, espantados pela ausência de ruidos de fábricas, de buzinas ou motores carros, de ladrar de cães, de cantares de galos.
Mas apareceu um "jeep" sem capota, conduzido por um homem de camisa e calções, duns quarenta anos de idade, ar desenvolto, que parou junto ao casal, vestidos à moda europeia.
- Desembarcaram agora, de onde vêm? - perguntou sem mais aquelas.
- Chegámos no Uige, há poucas horaEs iremos amanhã para Sá da Bandeira e para a brigada do Cunene - respondeu Fernando, aproximando-se do "jeep".
- E donde são, em Portugal - Fernando e Tari começavam a habituar-se à explntâneidade dos que viviam em Engols

quinta-feira, 27 de abril de 2017

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Oito dias e noites de viagem, a rotina das refeições como a distracção principal, algumas atenções de dos tripulantes, os conhecimentos anatómicos do interior do paquete, as conversas insípidas com outros passageiros, o decorrer insensível do tempo sem incidências que ocupassem lugar na memória, a chegada a São Tomé, sem porto de cais definido, o desembarque por barcaça até ao pequeno cais de madeira. trabalhadores nativos noutra barcaça, de pele negra brilhante, dum negro mais negro que qualquer escuridão. A ida a pé até à a capital, uma povoação modesta com tres ou quatro ruas, um orgulhoso edifício mal caiado, o único com dois pisos, com pomposidade chamado palácio do governo da colonia. Oito horas da manhã, encontrando apenas um habitante branco. um velhote mirrado de palavra dificil, olhar inerte. trajar pobre. E regresso breve ao Uige, como à ida através da mata, lá para cima as fazendas com plantações de cacau e do famoso café de São Tomé, um dos melhores de sabor, no mundo.
E mais tres dias e três noites de viagem marítima, ate à foz do Zaire e mais uma noite seguindo até Luanda, a cidade fundada por Diogo Cão em fins do século quinze e para onde os portugueses, apesar de Angola oficialmente ser província de Portugal. para lá apenas poderiam emigrar munidos de carta de chamada ou na condição de funcionarios para ali designados. Passaram a manhã na cidade com o pouco interesse abafado por o calor humido intenso convidando ao regresso a bordo, ántes do almoço.

quarta-feira, 26 de abril de 2017

e

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O doutor Frederico de Freitas e a esposa, aguardavam o casal no cais. A oferta do ramo de Anturiuns fora desse casal, casal amigo dum primo de Fernando, daquelas pessoas que oferecem sem exigências, com a naturalidade de quem se habituou a gostar de dar sem esperar retribuição.
A oferta multiplicou-se num passeio de automovel pela ilha, num explêndido almoço onde sobressaiu, como recordação inesquecivel, o aroma intenso e agradável dum vinho velho da Madeira. Durante a tarde, a Tari e o marido, percorreram a cidade, o Funchal, cumprindo a inevitavel descida turística duma rua íngreme, num carro trenó de patins ensebados, regressando ao por do Sol ao Uige, que pouco depois reiniciou a viagem para Angola.
Pela frente, oito dias de viagem até São Tomé, segunda escala antes de Angola, atravessando poucas horas antes da chegada, a linha imaginária do equador. Viagem monótona, sem tempestades, não é o mar que é bravo, os ventos é que o excitam, o irritam, lhe provocam ondas que o defendem dos ataques dos ventos, como uma indigestão não é culpa do estômago mas dos alimentos que lhe provocam as defesas. A única curiosidade nesses dias foi a observação de cardumes de peixes voadores, que, como os golfinhos, as baleias e outros, gostam de saltar para a atmosfera, acima do seu habitat aquático, procurando talvez, libertar-se do ambiente em que vivem, como as mulheres e os homens gostam de saltar, voando para a atmosfera, saindo para outros continentes ou procurando viajar para outros planetas, não contentes com aquele onde vivem, onde têm tudo para bem viver e que persistem em conspurcar com poluições de ordem diversa.

terça-feira, 25 de abril de 2017

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Só sei fugir para tráz porque ás vezes fujo de mim próprio.

Pouco digo "boa vai ela" digo mais: bom vou eu.

As artimanhas raras vezes são artes.

Pensando, vive-se. Amando, renova-se. Chorando, consola-se.

Um grama de uma coisa por vezes torna-a saborosa. Um gesto de ternura, sempre aproxima.

A pele defende o corpo, a alma protege o espírito.
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Segunda parte - a viagem

A consciência do casal centrava-se apenas naquele mundo à sua volta. Depois das despedidas no terminal da Rocha do Conde de Óbidos, ainda sem o aguilhão da saudade, sem vislumbrarem a intensidade da ausência posterior, embalados pela perspectiva optimista do futuro, a Tari e o Fernando, debruçando-se na amurada do Uige, acenavam risonhos para os familiares - a mãe dele enxugando uma lágrima e uns primos envergando sorrisos encorajadores.
O navio afastou-se com a lentidão própria do arranque contra a corrente, os últimos acenos, a nova visão de Lisboa desde o meio do Tejo, o rumo obediente do paquete,de proa apontada ao futuro, o mar era o novo futuro, diziam que até à ilha da Madeira a tradição avisava temporal nos dias de viagem, a estranha sensação pelo desconhecido mar alto, tomar as pastilhas contra o enjôo antes de mais nada, a passagem pelo forte do Bugio, a entrada no mar profundo, aquele mar longíquo parente deste que tantas vezes o intrigou quando o avistava da praia, a calma, nada de temporal por enquanto e a chamada para ensaio de naufrágio, envergar os coletes de salvação, conhecer todos os passageiros, alinhados a bombordo do convés do navio, cumprir as
instruções e regressar ao camarote para arrumar os coletes, conhecer os cantos do camarote.
Dois dias e três noites de viagem calma, nada de temporais, apos o jantar até se dançava na pequena
sala de dança do barco, refeiçõoes a contento, na manhã do terceiro dia o Uige encostando ao cais da cidade do Funchal. Cidade bonita, aquela, de casario subindo pela encosta íngreme. E mal aportámos a surpresa dum ramo de flores, dos célebres Anturiuns da ilha da Madeira.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

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No jogo da minha vida vou sempre ganhando.
Como a esperança média de vida, para o homens, é de oitenta anos, juntei até hoje "de propina", como dizem nuestro hermanos, acumulei até hoje dez anos e um sexto. Mas nada interessa os anos que temo a não ser em termos do bilhete de identidade, do fisco ou dos prazos obrigatórios.E muito interessa em termos de saude, de harmonia familiar, de õ. Na saude sigo o meu sistema que me permite não tomar mais que aspirina e outra droga e mesmo estas espero eliminá-las dentro de poucos anos. Um dos segredos, pouco de agrado dos clínicos que se importam mais com o dinheiro que com os doente, um dos segredos, acreditem, é a boa e profunda inspiração e expiração, que fornece a todo o oxigéneo esencial para as mais de três biliões de células do nosso corpo. Quando sofrerem uma dor, não causada por agente estranho, como por exemplo uma tendinite num ombro ou num membro, façam as inspirações profundas e exptirações durante dez minutos: a dor desaparecerá, não sentirão mais a tendinite.
Experimentem. Até serve para a chamada dor de cotovelo.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

As decisões importantes durante a vida dum indivíduo são, com raras excepções, alteradas pela influência da família, dos amigos ou até pela formação que vai adquirindo. A paixão, o amor cego tem reflexos imediatos, mas não resiste, em muitos casos, ao poder do tempo e desses afectos. Uma irmã de Fernando acabara com um namoro porque a avó achava que não podia casar-se com um filho dum pescador, ainda que este fosse o melhor pescador da zona e indivíduo de caracter iimpoluto, o namorado com curso superior, a mãe uma senhora recatada e distinta. O coração mandava mas a família punha e dispunha. Terminou essa sua irmã, casando com um indivíduo de fraca formação, viciado nos copos mas...<>,resultando num divórcio passados alguns anos. O coração também se engana, mas julgo que muito menos que as teimosias familiares.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Nem sempre a fruta contem carôço. Mas nunca há carôço que não saia duma fruta.

Para a última viagem ninguém pode reservar o bilhete. O maldito do dinheiro nem para isso serve.

As minhas frases têm o quadrado do segundo sentido.

Navego abrindo o fundo das metáforas e deixando entrar a ilusão.

Hoje já sei que o futuro é incerto, por isso não me preocupa.

O dia tem sempre uma noite e esta nunca tem dia.

Poucos agradecem o que têm â sua volta. Todos damos muito menos.

Nunca achei pouco o que Deus me ofereceu.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Na passada segunda-feira fui ao Porto com a minha esposa, para tratar dum assunto urgente. Regressámos ontem. Fizemos ambas as viagens num Alfa Pendular, directo de Tunes ao Porto. A até Lisboa decorreu normalmente, se atrasos. Mas de Lisboa até ao Porto os abrandamentos da velocidade do comboio, foram constantes. o comboio parou algumas vezes extemporaneamente, os solavancos, os movimentos inesperados da carruagem foram muito frequentes, resumindo o comboio entrou na Campanhã com uma hora de atraso. E ontem, no regresso a Tunes, sucedeu o mesmo, passamos em Lisboa com cerca de uma hora de atraso, acontecendo o mesmo desconforto na linha de regresso. O mau estado desta linha de comboios de Lisboa ao Poro, oxalá me engane faz prever um acidente grave, esses alfas, na linha Lisboa Porto circulam quase sempre com lotação quase esgotada, mais de quinhentos passageiros e um acidente trará enorme prejuizos em vidas e mais custosos em indemnizaçóes que o custo de uma linha de caminho de ferro nas melhores condições, custo que não compensa a perda de vidas. É uma vergonha o estado daquela linha, será que os engenheiros e a administração da CP concordam com o que se passa? õ
Estações e pontos do percurso onde o comboio na ida para o Porto - excepto as estações onde esse comboio pára de acordo com o determinado nos horários - parava ou abrandava a velocidade, na linha de regresso o comboio abrandava muito a velocidade ou parava noutros pontos. Por exemplo, na viagem de ida, o comboio passou em Vila Franca de Xira a cerca de trinta quilómetros por hora e na viagem de volta passou por ali a mais de cento e trinta quilómetros por hora (valores indicados pelo visor de velocidades existente nos alfas pendulares).
Será que a CP não se interessa pela vida dos passageiros ? Há pouco tempo um comboio de mercadorias descarrilou nessa linha, não podia isso ter acontecido, a muito maior velocidade com um alfa pendular?
Se para reparar uma ponte que ameaça ruina tem que se interromper o trânsito porque não interrompe-lo na linha de Lisboa ao Porto ou construir outra ao lado desde já?. Reparem, o TGV de Paris a Marselha e Toulon, funciona desde 1974, se não estou em erro. Mais de dezasseis TGV por dia de ida e outros tantos de volta, sem um acidente. Os técnico sabem porquê.

sábado, 15 de abril de 2017

Quase no fim da avenida, derivaram em diagonal para a rua Hilarion Eslava, no catorze ela disse-lhe,  é aqui Fernando, não o convidou a subir, o que é que ele pensaria dela, Fernando não teve a desfaçatez, o arrôjo de lhe pedir para subir, um predio de seis andares devia haver elevador, mas antes de se despedir pediu-lhe o número de telefone, disse-lhe que poderiam sair uma tarde a dançar, atreveu-se, surpresa ela dizer que sim, em Portugal nem pensar em ir danças com uma rapariga sem levar atrás um <<pau de cabeleira>>pode ser amanhã, perdeu toda a reticência, a timidez desaparecia,   talvez ao Pasapoga, seria possível,  ela a dizer que sim, nada mais, corando, a amiga Nélida lá estivera com o tio Frederico e o namorado, o  mano deste, o  José, dias antes.
      Telefonou assim que chegou ao hotel, uma voz de senhora, diferente da da Mari, sou o Fernando posso falar com a Mari, um momento, Mari ven al telefono, es Fernando.

quinta-feira, 13 de abril de 2017

           A beleza caminhando ao seu lado era uma surpresa, pela aceitação do convite de Fernando para acompanhá-la a casa, não deveria ser longe, iam a pé, descendo a Gran Via, uma das mais conhecidas avenidas de Madrid, que ele percorria pela primeira vez, como será ela, é diferente de todas as raparigas que conheci, diferente no andar, na elegância do vestir, na simplicidade do falar, na franqueza do olhar. Este <muchacho>, parece-me que diz chamar-se Fernando o irmão disse à Nélida que ele é esquisito, não me parece assim tão esquisito, parece-me ser bastante reservado, o pouco que me disse até agora foi quase nada, mas não deixa de ser simpático até um pouco atractivo, não sei se fiz bem em aceitar a sua companhia até casa, gosto que ele me chame Mari, nunca tive um amigo com o cabelo tão preto. Após a praça de Espanha, começaram a subir a rua de Arguelles, que lhe iria dizer, não desemburrava, não lhe dizia nada, bem, ela também nada me diz a  nada a mim, será retraimento, será ingenuidade,?  a casa dela ainda será longe?  deve estar habituada a andar muito, o à-vontade  com que vai não sei o que quererá dizer, de qualquer maneira tenho de lhe pedir o número de telefone, mas se calhar não m'o dá.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

       Esse primeiro encontro abriu-lhe o mistério do amor, então era isso o amor, tão falado sentimento, nos livros, nas tertúlias, no fado. Fernando sentia abrir-se-lhe uma porta do desconhecido, talvez do paraiso cantado por muitos, talvez uma salvação lembrada por outros, talvez uma solução, diziam os mais cépticos, ou um desfecho de porta aberta, no falar dos cínicos. Um arco iris de ilusões, um encontro com outra vida, uma oferta de Deus. Sentia que aquela rapariga correspondia um desejo  que agora principiava a conhecer, dos seus olhos verdes ressaltava simpatia, compreensão e a busca nos seus, logo desviados pelo encanto daquele fulgor de esmeralda, de partilha, de algum satisfação de alguma curiosidade sentida. Embargado, suspenso, sem conseguir sequer titubear -  é uma treta isso de que o amor desperta a palavra, a verborreia namoradeira só provem daqueles para quem o Cupido se traduziu em artimanhas.
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      Escrevo para os amigos que gostam  de ler o que escrevo. Escrevo para tentar que os pentanetos dos meus pentanetos, ou qualquer um dos meus descendentes posam avaliar o que eu sou, o que, para os meus e para outros do meu tempo, eu fui.
      Uma árvore genealógica tem o mesmo interesse que uma lista de quaisquer coisas. Apenas tem nomes ou, quando muito, fotos. Pouco interessam os nomes dos meus antepassados, as fotos pouco mais dizem. Pouco me dizem deles - se foram individuos amaveis, decentes, honestos, dignos, cultos, artista, políticos ; ou se foram cidadãos dos <<apontados a dedo>> como incorrectos, malcriados, antipáticos, corruptos, antisociais. É isso que me interessa. deixar apontamentos que lá para o século vinte e sete, XXVII, esclareçam um pentaneto dum dos meu pentanetos, ou outro descendente de mim, sobre este antepassado,

segunda-feira, 10 de abril de 2017

*
    <<A vida é feita surpresas>> que, enquanto a vida nos ocupa. alternam na forma, na intensidade, nas consequências. E a paz não se alcance sem sabedoria qb, alguma resignação, domínio dos impulsos, maior ou menor liberdade nas decisões. Os ventos nem sempre são favoráveis, as amizades por vezes são inconstantes, é virtude usar <com peso e medida> os impulsos, é favor do destino disfrutar cedo da felicidade. Esses <acidentes do percurso> que a vida  nos mimoseia aos encontrões, umas vezes suaves como a brisa que nos traz o olor das madressilvas outras vezes agreste , como o que derruba uma araucaria, têm sempre lugar no destino de quem vive. E Fernando já sabia que basta ,lhar para poder encontrar a surpresa, basta ir para deparar com o inusitado,basta, num momento, ouvir para descobrir o insuspeito. Já sabia, começava a desvendar, sem o sentir.
      A mãe, para Fernando, era como uma instituição, aparecera-lhe na vida, tal como lhe aparecera o pai: ali estavam, agarrados a ele sem explicação, aceitando o seu amparo como aceitava a respiração, a casa, tudo o que vinha surgindo à sua volta desde que nascera, e ele submetido aos pais como se submetia à fome, à sede, ao cansaço. Ainda não sabia o que era o amor, de que ouvia falar, comentar, e a pouco e pouco sentia o gosto dos carinhos, parcos, dos louvores, raros, dos reparos, quase inexistentes.

domingo, 9 de abril de 2017

*
    Dentro da escuridão sempre encontro uma luz de esperança.

    Quando assopro a luz da vela sobra sempre alguma fumaça.

    Acompanhando a minha sombra há sempre desejos de alegrias.

    Viverei eternamente até ao fim da minha vida.

    Solto estas frases faceiras como solto o meu cavalo.

    Sempre que me invade a tristeza mudo a página.
   Nunca fujo ás responsabilidades porque só posso andar a passo, nem me importam as contrariedades porque acerto sempre o meu passo.
  Manias, vícios, defeitos.

sábado, 8 de abril de 2017

*
Se não gostam de poesia, passem a gostar:
         
                  O inconsciente
    O espectro familiar que anda comigo,
    Sem que pudesse ainda ver-lhe o rosto,
    Que umas vezes encaro com desgosto
    E outras muitas ansioso espreito e sigo,

    É um espectro mudo, grave, antigo,
    Que parece a conversas mal disposto...
    Ante esse vulto ascético e composto,
    Mil vezes abro a boca... e nada digo.

   Só uma vez ousei interroga-lo:
   - << Quem és (lhe perguntei com grande abalo),
   Fantasma a quem odeio e a quem amo?>>

   - <<Teus irmãos (respondeu) os vãos humanos,
   Chamam-me Deus há mais de dez mil anos...
   Mas eu por mim não sei como me chamo...>>

de Antero de Quental 


           

sexta-feira, 7 de abril de 2017

       O armazem da memória auxiliava-o.Preenchia os cadernninhos dos exames de frequência com o mesmo frenesi, concentração e aplicação que no ping-pong. Preenchia,nalguns exames, quase todas as folhas daqueles caderninhos de capa azul diziam pelos corredores que aquele ou este professor classificava os exames na proporção do número de folhas escritas, tentava imitar a mãe que usava letras enormes, garrafais, mas a mão falhava voltava sempre às letrinhas escritas como música entre duas linhas nos cadernos da primária . Mas o seu  armazem da memória tinha as prateleiras oblíquas, inclinadas, e os relatos, as fórmulas, os teoremas escorregavam e  amiúde desfaziam-se, evolavam-se no ar, desapareciam no chão, deixavam-se conquistar pelos erros e não pelas páginas brancas dos caderninhos.
      Mas enfim, pelo meio com alguns sucessos, por vezes com alguns truques que todos os estudantes aprendem com maior facilidade que as matérias, temperado pelas férias, bailaricos, namoros desconprometidos, passeatas investigadoras quase nunca sabendo do quê, inconsequente e rara frequência das bibliotecas, foi cumprindo os anos  serenos e os momentos de sobressaltos do curso, alguns de amores inconstantes, outros de amizades crescentes Talvez pela hereditariedade, talvez pelo toque da <mão de Deus>, talvez pela cumplicidade do acaso, começou a desenvolver um parco gosto pelas artes, uma misteriosa propensão para leituras complicadas, compostas de inutilidades, de ridícularias, por vezes até de virtudes escondidas para sempre - um dia comprou um volumoso calhamaço nada mais nada menos que  a "Breve introdução à história da esupidez humana".

quinta-feira, 6 de abril de 2017

     A universidade ouvia os grandes lá da família dizer, o palácio da ciência, o templo da sabedoria, a mãe de todo o conhecimento. Mas como os grandes da familia, salvo uma excepção, nem sequer tinham posto os pés numa e quase sempre a referiam, naqueles termos, em tom jocoso, desdenhoso, como coisa sem valor. Desde um tio bisavô que fora engenheiro destacado em Évora e um tio médico ainda vivo mas que não exercia a medicina, vivendo dos rendimentos, desde esses  mais ninguém da familia frequentara um dos "alfobres da sapiência" ou dos "viveiros de génios.Mas Fernando, sem sentir que estava mergulhando no tal viveiro, agradava-lhe a faculdade,  a Tapada da Ajuda, o clima diferente fora da barulheira das ruas de Lisboa, aspirando logo à entrada o vento do nordeste, que envolvia os aromas do arvoredo, da vinha e da horta que ocupavam a tapada, propriedade da faculdade de agronomia.
     Poucos dias após a primeira aula de silvicultura, dada por um professor catedrático bem simpático, Azevedo Gomes, soubemos que, por motivos políticos esse professor fora demitido, saneado como então se apelidavam tais demissões. O que de imediato deu origem a um abaixo assinado por todos os colegas de Fernando, assinatura que passados muitos anos valeu a Fernando uma visita dum inspector da PIDE, a já temida polícia política de defesa do estado. Que defendia o estado, pensava Fernando , vá lá saber-se do quê, porque, seguia pensando, não era possivel que um professor  como o professor Azevedo Gomes atacasse o estado português. Um professor, que apenas numa aula nos despertou a curiosidade, o interesse e a admiração pela silvicultura, apenas numa lição.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

     Nos anos cinquenta do século dezanove em Portugal vivia-se numa das dita brandas, suaves ditaduras . Nas universidades e nos cursos não políticos, tempo era pouco para a implantação de partidos políticos, reuniões clandestinas, manifestações contra a situação, contra o governo, contra Salazar. No primeiro ano de agronomia tinha de frequentar quarenta e duas horas por semana, de aulas teóricas e práticas,não lhe sobrava tempo para se coçar. Porém, a novidade de novas amizades, o interesse despertado pelas matérias, o tempo necessário para estudar, não permitia que sobrasse muito para as distracções próprias da idade de Fernando.
         No primeiro dia na faculdade o curso reuniu-se à porta do edifício principal da universidade entrando para a fotografia conservadora do acontecimento, quase três centenas de alunos caloiros, onde estariam tantos empregos para tantos agrónomos dai a cinco ou seis anos. Mas enfim lá ficou Fernando frequentando as aulas e cumprindo com facilidade maior ou menor todas as cadeiras até sacar o canudo.

terça-feira, 4 de abril de 2017

            Foi em  16 de Julho de 1944.
            O pai de Fernando morrera um ano antes, no dia em que chegara à casa dos pais com a boa nova de que tinha feito os exames do sexto ano( correspondente ao décimo de hoje, no liceu) e aprovado. A reacção dos pais foi idêntica, aprovar o ano era uma obrigação, a tosse do pai mobilizava todas as atenções, tosse provocada por aspirar o cheiro do fumo de frituras que a cozinha, com a porta aberta para o quintal, impelia para a casa de jantar, o pai muito congestionado levantando-se da cadeira e sentando-se noutra perto da janela, a tosse continuando, o pai apoiando a cabeça nos braços, estes em cima das costas da cadeira de palhinha, a tosse cessando, a mãe correndo para o pai, o pai imovel na cadeira, Fernando vai chamar o doutor Lopes Teixeira, disse a mãe abraçando o pai e gritando João, João. Correu para o consultório do doutor, doutor venha lá à minha casa, o meu pai está muito mal, o médico calmo, preparando-se para ir, parecia que não ligava nenhuma importância, quando chegaram à casa de j
       Quando saíu do colégio, acabado o sétimo ano - hoje o décimo segundo, ao tomar o eléctrico para se dirigir à estação do Cais do Sodré afim de regressar a Portimão, lembrou-se do dia em que entrou no colégio, perturbado, desconfiado, temeroso, levado pelo pai , seis anos antes, ao mesmo tempo que sentia agora um alívio imenso: tinha acabado a prisão que para ele o colégio sempre significara, tinham acabado os toques de caixa, as formaturas, marcar passo por tudo e por nada, marcar passo antes de ir t paantar o pai com as unhas negras, reparou Fernando, enquanto o médico dizia para a mãe dele, nada a fazer minha senhora, os meus pêsames, a mãe gritando, um lenço sustendo as lágrimas.ra qualquer sitio, ao  chegar a qualquer sítio, ver-me livre daquele idiota do capitão Casais, aspirar a liberdade, tomar banho todos os dias.(no colégio tínhamos banho duas vezes por semana) - e para o balneário também seguíamos a marchar. Perdoem-lhe, é um desabafo dele que lhe e que o alivia, sentia-se animal livre, aspirando a vida, vivendo a natureza, decidindo por si e de si, o que queria ver, onvir e sentir.
      Porém, há que reconhecê-lo, pensava e reconsiderava Fernando anos depois, o grande valor do colégio para quase todos os que o frequentavam, era a esplêndida formação que proporcionava no domínio da cultura geral e da base intelectual para tudo o que necessitavam aprender, base nesse tempo, difícil de obter na maioria dos liceus.
           Nesse dia, aliviado, vibrando com a felicidade sentida, começou a apreciar Lisboa.
            Foi em  16 de Julho de 1944.
            O pai de Fernando morrera um ano antes, no dia em que chegara à casa dos pais com a boa nova de que tinha feito os exames do sexto ano( correspondente ao décimo de hoje, no liceu) e aprovado. A reacção dos pais foi idêntica, aprovar o ano era uma obrigação, a tosse do pai mobilizava todas as atenções, tosse provocada por aspirar o cheiro do fumo de frituras que a cozinha, com a porta aberta para o quintal, impelia para a casa de jantar, o pai muito congestionado levantando-se da cadeira e sentando-se noutra perto da janela, a tosse continuando, o pai apoiando a cabeça nos braços, estes em cima das costas da cadeira de palhinha, a tosse cessando, a mãe correndo para o pai, o pai imovel na cadeira, Fernando vai chamar o doutor Lopes Teixeira, disse a mãe abraçando o pai e gritando João, João. Correu para o consultório do doutor, doutor venha lá à minha casa, o meu pai está muito mal, o médico calmo, preparando-se para ir, parecia que não ligava nenhuma importância, quando chegaram à casa de j
       Quando saíu do colégio, acabado o sétimo ano - hoje o décimo segundo, ao tomar o eléctrico para se dirigir à estação do Cais do Sodré afim de regressar a Portimão, lembrou-se do dia em que entrou no colégio, perturbado, desconfiado, temeroso, levado pelo pai , seis anos antes, ao mesmo tempo que sentia agora um alívio imenso: tinha acabado a prisão que para ele o colégio sempre significara, tinham acabado os toques de caixa, as formaturas, marcar passo por tudo e por nada, marcar passo antes de ir t paantar o pai com as unhas negras, reparou Fernando, enquanto o médico dizia para a mãe dele, nada a fazer minha senhora, os meus pêsames, a mãe gritando, um lenço sustendo as lágrimas.ra qualquer sitio, ao  chegar a qualquer sítio, ver-me livre daquele idiota do capitão Casais, aspirar a liberdade, tomar banho todos os dias.(no colégio tínhamos banho duas vezes por semana) - e para o balneário também seguíamos a marchar. Perdoem-lhe, é um desabafo dele que lhe e que o alivia, sentia-se animal livre, aspirando a vida, vivendo a natureza, decidindo por si e de si, o que queria ver, onvir e sentir.
      Porém, há que reconhecê-lo, pensava e reconsiderava Fernando anos depois, o grande valor do colégio para quase todos os que o frequentavam, era a esplêndida formação que proporcionava no domínio da cultura geral e da base intelectual para tudo o que necessitavam aprender, base nesse tempo, difícil de obter na maioria dos liceus.
           Nesse dia, aliviado, vibrando com a felicidade sentida, começou a apreciar Lisboa.
              Aos onze anos Fernando entrou para o Colégio Militar. O pai levou-o Lisboa. A primeira viagem de comboio, o cheiro amargo a carvão, da fumarada da locomotiva a vapór na estação, o embarque naquele comboio de verdade, em Tunes a carruagem em que íam roubada á locomotiva do comboio por outra doutro comboio, duas horas depois, na Funcheira saiu do comboio com o pai e foram comer uma bifana de porco que um senhor com grandes suiças lhes vendeu e outra maravilha, mais para a frente, saindo do comboio para tomar um barco grande que os levou até desembarcar em Lisboa. O pai   mostrou-lhe o caminho que sempre haveria de seguir quando regressasse de férias, outra surpresa, andou pela primeira vez de carro eléctrico, pela primeira vez  conheceu o cheiro a gasóleo, do fumo que deitavam os táxis de Lisboa, pela primeira vez dormiu num hotel, pela primeira vez, só com o pai, comeu um almoço num restaurante da baixa lisboeta - olha Fernando este restaurante é aqui conhecido pelo "farta brutos": por dez escudos, o custo de dez jornais, começaram por lhes apresentar uma quantidade de tigelinhas com vários acepipes, que no cardápio do almoço figurava como "acepipes variados". Mais um prato de peixe, mais um de carne, fruta e doce. O pai, bom garfo, comeu de tudo com abundância e incentivou Fernando a não deixar nada no prato servido.
E depois do almoço levou-o, espantado, confuso e atarantado, ao colégio. Apresentou-o ao oficial de serviço e ali o deixou. Surpreso e canhestro, secretamente um pouco magoado, mas resignado, que remédio. Mais tarde compreenderia porque  ali ficara, o pai havia-lhe dito que permaneceria internado, o que para mim era chines o de internado ficar.
             A vida no colégio, as deslocações para as aulas, para o refeitório, para fora da "companhia militar" onde o inseriram, sempre feitas os passos acertados pelo da frente, em marcha disciplinada e obrigatória, nascendo no seu consciente uma repulsa por tudo o que fosse tropa, sentimento que foi reforçado e constante, em particular após a primeira aula da infantaria, dada por um tenente de mentalidade nazi, que declarou, com ar ameaçador, que indivíduos muito morenos, como ele, Fernando  e outro colega, eram seres inferiores. Regressados dum verão tórrido, a sua pele morena, tisnadas com o sol da praia, tinham adquirido o tom da pele dum africano, naturalmente tostada. A inteligência daquele oficial não foi suficiente para uma avaliação mais correcta das suas origens. Para imaginar o caracter desse oficial, basta referir que, mais tarde, frequentando o curso para coronel, foi chumbado nesse curso e, não suportando o facto dum oficial poder ser reprovado, suicidou-se.
             Mas o colégio deu-lhe uma razoável preparação intelectual, sem lhe diminuir os impulsos, aumentamdo-lhe o gosto pela vida.

domingo, 2 de abril de 2017

*
         Na escola sentia reverberar em si a independência, cada um na sua carteira, cada um porque não havia ali meninas, só mais vinte e nove meninos bem vestidos, recompostos e dispostos e, a maior surpresa, cada hora, de manhã ou de tarde, cada hora outro professor, áh, e também uma professora, a doutora Alda, professora de portugues, que escolhera o professor de frances,para casar mais um professor um homenzarrão alto que explicava as ciências e que namorava a dona Olga, professor de que eu gostava porque tinha uma apelido Rosa, o nome da minha mãe, o meu pai é que me explicou quando eu lhe disse que lá no liceu tinha um professor que se chamava Rosa Pinto, explicou-me que Rosa no nome dele era apelido e eu guardei de conserva aquela confusão de nomes e apelidos. E mais um outro professor, também grande, o doutor Prudencio, o das matemáticas que falava com muitos uns, começou por dizer << eu sou o doutor Prudencium  iuns meninuns nas auluns de matemáticuns  vãum estudarum a teoriaum dos numeruns>> .
      Uns ciinco dias antes do Natal começaram outras férias.

sábado, 1 de abril de 2017

*
      E passados alguns meses de verão dos mais tórridos, compreendera pela primeira vez o que era uma verão tórrido, um calor tórrido, quando pegara numa fatia de pão torrado na saida da torrradeira, num setembro seguinte a um <agosto azul>entrara para o liceu, não a escola fundada por Aristoteles em Atenas, mas a escola onde se ingressava em Portimão e onde se continuava a estudar, era o que diziam os mais grandes da familia e também alguns dos mais grandes que não eram da família. Para ali entrar, fizera um exame, uma prova escrita com as perguntas muito bem feitinhas, com letra grande como a letra da cartilha maternal, num papel  parente dum cartão, mais branco que o cavalo Palhaço, mais brilhante e mais lisa que as pedras brancas da calçada da rua de Santa Isabel. Respondeu a todas as perguntas, que lhe fizeram pensar na altura o que é que teria com isso o senhor que tinha escrito as perguntas, para que é que queria que eu fizesse aquelas contas e com  isso ia-me distraindo e já tinha gasto quase todo o tempo para fazer a prova, que era de uma hora, como disse aquele senhor que estava na sala do exame sempre a olhar para nós os que escreviamos na folha de papel parente do cartão, lisa e branca, com o mesmo olhar desconfiado que tinha a professora dona Olga quando nos ditava o que lhe apetecia ordenar que a gente escrevesse - pensava ele.

sexta-feira, 31 de março de 2017

*
         Ao fim de tres

terça-feira, 28 de março de 2017

      Fernando continuou frequentando a escola Lusitana até que num dia ainda de  pouco frio de Novembro, pouco antes de chegar à escola, encontrou um colega que lhe disse - hoje não há escola, o senhor professor Buisel, moreu, a dona Olga disse-nos que só há escola na segunda-feira que vem, não vale  a pena ires lá, fecharam a porta, volta na segunda-feira.
      Ainda pouco familiarizado com a morte, nem era mistério, não existe mistério numa coisa que não se sabe o que é, como tanta coisa referida pelos pais quando conversavam ou tão subtil, vago e efémero como tantas palavras que ouvia. Fixou-se apenas no que via, no caminho de volta para casa.      Ao vê-lo de regresso, a mãe interrompeu as recomendações à empregada doméstica:
           - Então Fernando, o que aconteceu porque voltas tão cedo ?
           - Óh mãezinha, só há escola na segunda feira.
          - Mas porque é que não há escola hoje?
          - Mãe, não sei, os outros estavam indo para casa deles, e um disse-me que não há escola até segunda feira, disse também que morreu o senhor professor Buisel - respondeu Fernando com o desprendimento próprio de quem fala de uma notícia irrelevante, superficial, pronta a cair no esquecimento como  tantos assuntos sem importância que decorriam no seu dia a dia.
       Um mês depois deparou de novo com a notícia duma nova morte, do seu avô, esta bem marcada pelos soluços e prantos demorados  da sua mãe, durante o dia e a noite seguinte.
       Começava a entender, esse assunto da morte, como o pai dizia, era coisa da vida, era o que vinha depois da vida, era o que tinha feito do homenzarrão que era o avô que ele via quando almoçava com os pais lá em casa dele, transformar-se naquele homenzinho mirrado que lhe tinham dito que ia no caixão pequeno, que parecia ser dum boneco grande e magricela como o espantalho que punham lá na quinta para afastar os pardais, diziam.
.      

segunda-feira, 27 de março de 2017

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       Fernando não percebia porque só via meninos na sala, a sua mana também estava numa escola- meninos tenham atenção ao que escrevo no quadro - a professora interrompeu-lhe o pensamento, estava ali escrevendo letras brancas com um pauzinho muito branco na mão - senhora fessora pra que é que servem as letras ? - pois é Eduardinho não ouviste o que eu te disse ontem, as letras são para escrevermos o que pensamos- e as perguntas começaram a suceder-se como água caindo daquela fonte, todos os miúdos virando a cabeça para os que perguntavam, Fernando, interrompendo o desenho desenfreado, instável e emaranhado que fazia na folha do caderno, esperou, interessado e mais atento pela resposta, lá em casa fizera a mesma pergunta ao pai, que lhe respondeu:
          - Olha Fernando, se tu quizeres mandar um recado, uma lembrança ou se o senhor doutor quizer passar uma receita para tratar um doente, ou se a tua mãe quando está em Lisboa quizer escrever uma carta para a tua avó, todos têm que usar as letras,
      Fernando começava a ver abrir-se a confusão, ainda insensivel à realidade, começava a entrar no campo intenso da fantasia. Não perdia tempo, sem saber o que era perder tempo, o tempo para ele era desconhecido como o fundo do mar, como o que vinha nos barcos, como o destino e a viagem das gaivotas. Começavam a abrir-se-lhe algumas luzes do pensamento.

domingo, 26 de março de 2017

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     As aulas começavam sempre a seis de Outubro, se o calendário não prolongava mais um dia as férias de verão por esse dia seis ser domingo. E a escola Lusitana, do professor Buisel, nesse dia de  de tempo ainda perdulário de calôr, ausente de chuva e ventania, alegrava-se com a algazarra que os garotos que vinham  chegando, ali distribuiam e trocavam, brincadeiras dos mais  velhos à mistura e em contraste com o espanto,retraimento e timidez  dos que ali entravam pela primeira vez. Se a escola era aquilo, gostava muito.  Sobraçava, com cuidado e apertando bem contra o corpo a bolsa que a mãe lhe entregara - vê lá, não percas nada, são as tuas coisas para a escola - dissera-lhe ela quando se despedira dele, carinhosa, antes de sair de casa.
      E o professor, quando o viu entrar no salão lajeado de ardósia cinzenta, sorrio-lhe - deves ser o Fernando, o filho do capitão do porto, grande amigo meu, olha, sobe as escadas, com esses da tua idade, vai lá para cima, tens lá a professora, minha filha, à tua espera - impressionado com aquele homenzarrão, que o tratava com afabilidade, pensava na rudeza de outros homenzarrões que conhecia. Obedeceu, subiu a escada,  seguindo curioso, outros alunos que iam para cima, entrando com eles na sala de aula, onde uma mulher que lhe parecia pouco mais que menina e da mesma idade da Ermelinda, lhe indicou uma carteira onde outro colega se sentara.
            - Meninos - disse ela, sorrindo para todos, ocupavam mais de metade da sala- vamos começar, tirem a cartilha maternal, o caderno e os lápis dos sacos e atenção ao que vou escrever no quadro.

   

sábado, 25 de março de 2017

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  1.       Passaram pelo edifício Sarria, onde, em tempos antigos, a  câmara municipal, o notariado e o registo civil tinhem o seu sítio. Nove horas, muita gente entrando, gente que trazia para ali muitos problemas, gente que ali vinha encontrar mais problemas, gente que para ali vinha descarregar preocupações: todos com o ar dos que estão atrasados para apanhar o comboio, sempre esquecendo que a vida também está dentro dos atrasos.
  2.      Fernando seguia curioso, ainda não infectado pelos mistérios da burocracia e da organização política da nação - Melinda estas pessoas vivem todas aqui? - Não menine, venha menine, deixe lá as pessoas irem pra onde elas querem.
  3.      E, deixando o largo entraram na  parte estreita da Rua Direita, que ao contrário do que é costume pela força das circunstâncias e do destino, é bem recta e a parecer  a Fernando mais comprida que o fio do carro de linhas que ele às vezes desenrolava lá em casa. Ao passar numa montra de chapéus - olha Melinda tantos chapéus, pra que é que aquele nomem lá dentro quer tantos chapéus, o papá só tem aquele que deixa sempre no bengaleiro ao pé da escada!- venha menine, assecola é logo ali naquela rua donde estamos chegande.     

sexta-feira, 24 de março de 2017

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O espanto pelas coisas novas à sua volta continuava. Diferente dos miares da gata, da renda de bilros que a tia avó trabalhava no rolo grande, dos cheiros das sardinhas assadas na cozinha: pessoas assomando-se às janelas da sua altura, um auomóvel saindo duma casa, um homem com uma bicicleta à mão tocando uma flauta - óh Melinda que quer o homem apitando? - menino o homem afia tesouras e facas, deixe lá o homem, não pare que é tarde - e mudaram uma vez mais de rua, para outra, um cão ladrando perseguindo um gato e cruzaram outra rua que como a outra vinha lá de cima, do lado da direita lá para baixo - óh Melinda olha, lá prabaixo está um rio, é aquele rio que vejo da janela do quarto do pai? - sim menino, a Ermelinda um pouco impaciente mas cuidadosa sem repreender o Fernando, o patrão mais que uma vez lhe determinara que as perguntas do menino deveriam ter sempre respostas dela.
      Não havia confusão na cabeça do garoto, as confusões sucederiam mais tarde com a desordem, com as controversas, com as balburdias, as faltas de clareza, a mistura disparatada, as atitudes opostas perante situações semelhantes.
     E mais outra rua cruzada, outra vez vindo da direita lá de cima para a esquerda lá para baixo - óh Melinda, as ruas vêm todas lá de cima? - óh menine atão o menine na vê qesta donde vamos na vai pra baxo?- Ermelinda metendo dialecto algarvio na memória de Fernando.  
 
         

quinta-feira, 23 de março de 2017

Ali, na rua, começaram as surpresas, a rua mais larga que a sua rua, as casas mais altas que a casa dos pais, os barulhos maiores que os do quintal da casa da avó. Cruzando uma rua que vinha a subir lá de baixo, a rua da ribeira, ouviu a voz estentória dum homem que gritava na rua, lá em baixo, pondo as mãos na boca, em forma de trombone, dizendo uma data de nomes, de sardinhas, carapaus, safios e outros peixes que Fernando desconhecia.

- Óh Melinda porque é que ele está gritar tanto?
- Ora menine, praque as pessoas sabam o pêxe qhá ali na praça do pêxe!
- Onde é que o homem apanhou tanto peixe?
- Ora menine, o pêxe apanha-se no mar, donde havera de ser!
Ali, na rua, começaram as surpresas, a rua mais larga que a sua rua, as casas mais altas que a casa dos pais, os barulhos maiores que os do quintal da casa da avó. Cruzando uma rua que vinha a subir lá de baixo, a rua da ribeira, ouviu a voz estentória dum homem que gritava na rua, lá em baixo, pondo as mãos na boca, em forma de trombone, dizendo uma data de nomes, de sardinhas, carapaus, safios e outros peixes que Fernando desconhecia.

- Óh Melinda porque é que ele está gritar tanto?
- Ora menine, praque as pessoas sabam o pêxe qhá ali na praça do pêxe!
- Onde é que o homem apanhou tanto peixe?
- Ora menine, o pêxe apanha-se no mar, donde havera de ser!

quarta-feira, 22 de março de 2017

*
Essa parede espessa que por vezes me pára o pensamento é como um comboio de mercadorias interminavel e emenso que desfila à minha frente na passagem de nivel, o ruido impertinente, constante e sincopado das rodas nos carris atira-me para uma resignação feroz traduzida no desejo assassino do descarrilamento da composição substituido pela implosão implacavel do muro irreal que me prejudica o juizo. Mas, paciência, a vida sem buracos não tem piada não presta, tal como o queijo.
Todavia, nos seis anos vividos por qualquer criança não há buracos que lhe perturbem o pensamento, nem muros espessos de betão armado que lhe ofusquem a realidade e comboios, só de brinquedos desejados no sapatinho do Natal.

terça-feira, 21 de março de 2017

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Encantam-me todos os desencantos, perturbam-me todos os sucessos, envaidecem-me os desatinos, confesso as ambiguidades, encho-me de manhas e defeitos e acabo de comprar a passagem para a viagem para ir para onde estou.

segunda-feira, 20 de março de 2017

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       O António trabalhara para os avós de Fernando mais de doze anos, sempre bem disposto, desses homens sempre afáveis no trato, de boa disposição inalterável, nunca negando uma palavra simpática, um favor sem exigência. Era cocheiro ao serviço da casa, preparador de lenha partindo as cepas grandes arrancadas das vinhas velhas, para os fogões, limpador do sarro dos toneis vazios da adega, tratador do Palhaço, o grande cavalo branco. De salário modesto, como eram modestos todos os salários daqueles tempos de vidas simples e modestas. Habitava  com a esposa, costureira e uma filha, estudante, uma casa emprestada pelos patrões, perto da cocheira. Conhecia Fernando desde que este andava ao colo da mãe e mais que uma vez, encontrando-o no quintal, levara-o a ver o Palhaço, contava-lhe histórias de cavalos, ensinava-lhe como se tratava um bicho daquele tamanhão - o garoto passava por debaixo da barriga do cavalo quase sem se agachar. E o António, uns meses antes, ensinara-lhe a ser amigo do Palhaço:
          - Olhe menino Fernando, se quer que ele seja seu amigo traga-lhe um papo seco!
     Naquele que seria o primeiro dia de escola, parou à porta da cavalariça, dizendo:
          -António, trago um papo seco para o teu cavalo! -e este, como de costume, relinchou, virando a cabeço para a porta.
          - Traga, traga, menino, tem de ser o menino a dar o pão!
     Fernando, repetindo o gesto que aprendera tempos antes, aproximou-se do cavalo, tirou um papo seco do bolso, colocou-o na mão e aproximou esta da boca do Palhaço, que aguardava , expectante. Com toda a delicadeza, abocanhou o pão, nem tocando na mãozinha delicada que o oferecia.  

domingo, 19 de março de 2017

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       Resignou-se, mas não sentia a resignação. Encantou-se, a surpresa das coisas aparecidas e desconhecidas, continuava. E não sentindo admiração, espanto, nem suspeitas.  Tudo o que lhe acontecia lhe parecia natural com o sentir fome, sentir sono, sentir calor.  A memória começava a servi-lo com insistências prestes a transformar-se em hábitos, em utilidades, em costumes. Acordar deixava pouco a pouco de ser uma anormalidade, uma surpresa, uma expectativa. Começava e sentir  desejos de futuros, curiosidades do que está por detrás, anseios de repetições.  E começava, sem o sentir a adivinhar o que se seguia, como para onde ia aquela galinha, onde ia pousar o passarinho, o que se sucederia depois de ouvir a chave do pai entrando na fechadura da porta da rua.
     Os instintos começavam a contribuir para a consciência, as contrariedades para a defesa, os insucessos para a perseverança.














sábado, 18 de março de 2017

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Não foi uma onda perdida que o levou, agreste, enrolada, para os seus seis anos, a mãe no sanatório, o pai entretido com os problemas cardiacos que disfarçava nas conversas intermináveis de glorias antigas nos ultramares que o tornavam conspicuo e distinto libertando-se dele em casa duns parentes. E reparou, surpreso que lá estava, na cabeça dos seus seis anos respirando de novo o ar do armazem dos frutos secos, dos figos eucharios em cima das esteiras, do monte das sacas das amendoas em casca, do perfume doce das alfarrôbas resignadas e espalhadas naquele canto enquanto o gatarrão da casa, paciente, preparava o salto para o rato atrevido que ia cheirando despreocupado uma saca vazia. Teve dó do ratito, bateu com o pé no chão, assustou mais o gato que o rato, desfez e desmobilizou a caçada.
Dentro da cabeça do garoto, reparou, surpreso que esta começava a pensar, coisas simples que sabia por vezes das mais belas, coisas complicadas que os seis anos não podiam descomplicar, um novelo de coisas que passavam para coisa nenhuma, um  ror de coisas que se confundia na cabeça onde estava, como o mar sereno em frente da sua praia. Mas nada mais? Tanto forcejar para entrar na cabeça dos seus seis anos, mas o que pretendia ? que  ali estivesse um Einstein a descobrir outra lei ainda mais importante que a da relatividade, ou um Nietsche desfazendo meticulosamente a filosofia moderna ? Não, começava a convencer-se que naquela cabecita tudo se iniciava pelo principio, era tão simples como isso.

sexta-feira, 17 de março de 2017

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O garoto, com a espontaneidade própria da sua inocência, sentia a vontade imperar com a força duma pena roçagando o pensamento, quase todos os gestos comandados pelo automatismo adquirido nas primeiras experiências,quase todas as palavras saidas da memória dos acontecimentos agradáveis, quase todas as decisões comandadas pelos impulsos momentaneos.
Tudo o que fazia, o acordar, as brincadeiras ou outros movimentos, sentia-o como a abelha obedece e reage ao olor do polen, como cachorro abana o rabo quando sente que o dono se aproxima com boa cara, como a mãe galinha, pressurosa e precavida, abra as asas para abrigar e acalentar os pintos. O garoto ainda estava longe das agruras da economia, do labirinto da política, do chamado peso das responsabilidades, se é que estas têm algum peso para muitos adultos.

quinta-feira, 16 de março de 2017

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Nos seus seis anos, nessa idade em que ninguem tira anos a ninguem e em que ainda nenhuma criança sente que lhe tiram a liberdade, mas em que as contrariedades, as ordens severas sem explicações, as proibições agrestes vão sedimentando a construção e o bloco dos temores e dos medos, nos seus seis anos as novas imagens, as surpresas de todas as horas, os acasos inusitados, as dores inesperadas que o iam impressionando indelevelmente e continuavam ocupando, sem esforço, a sua memória ainda muito virgem, virgindade não sentida mas de vida já intensa, numa intensidade sem ânsias, num fulgor de alegrias sem limites traduzidos em sorrisos diferentes dos primeiros absorvidos dos sorrisos da mãe.

quarta-feira, 15 de março de 2017

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Fernando suspendia-se na sua inocência, buscava desejos não sentidos, os sons do seu futuro começavam a perturba-lo tudo se traduzindo na saida da cozinha num andar apenas obedecendo e mergulhado no acaso da sua vida juvenil.No quintal empedrado, levantou a tampa da cisterna quase cheia, a sua cara sobrepondo-se ao céu no reflexo permanente, curioso, vidrado, tão diferente da imagem que todos os dias lhe surgia no grande armario do quarto das roupas, na casa dos pais.
Quebrando o silêncio aquoso e claustral da cisterna a voz da Isabel desfez a curiosidade que o feitiço da cisterna o distraia:
- Óh menino tire-se daí, veja lá na caia pra dentre da cesterna ! - recomendou ela no seu dialecto algarvio cerrado.
Fernando ergueu-se, abandonou a tampa e afastou-se, recordando e insistindo no desejo de refrescar-se naquela água.