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sexta-feira, 31 de março de 2017

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         Ao fim de tres

terça-feira, 28 de março de 2017

      Fernando continuou frequentando a escola Lusitana até que num dia ainda de  pouco frio de Novembro, pouco antes de chegar à escola, encontrou um colega que lhe disse - hoje não há escola, o senhor professor Buisel, moreu, a dona Olga disse-nos que só há escola na segunda-feira que vem, não vale  a pena ires lá, fecharam a porta, volta na segunda-feira.
      Ainda pouco familiarizado com a morte, nem era mistério, não existe mistério numa coisa que não se sabe o que é, como tanta coisa referida pelos pais quando conversavam ou tão subtil, vago e efémero como tantas palavras que ouvia. Fixou-se apenas no que via, no caminho de volta para casa.      Ao vê-lo de regresso, a mãe interrompeu as recomendações à empregada doméstica:
           - Então Fernando, o que aconteceu porque voltas tão cedo ?
           - Óh mãezinha, só há escola na segunda feira.
          - Mas porque é que não há escola hoje?
          - Mãe, não sei, os outros estavam indo para casa deles, e um disse-me que não há escola até segunda feira, disse também que morreu o senhor professor Buisel - respondeu Fernando com o desprendimento próprio de quem fala de uma notícia irrelevante, superficial, pronta a cair no esquecimento como  tantos assuntos sem importância que decorriam no seu dia a dia.
       Um mês depois deparou de novo com a notícia duma nova morte, do seu avô, esta bem marcada pelos soluços e prantos demorados  da sua mãe, durante o dia e a noite seguinte.
       Começava a entender, esse assunto da morte, como o pai dizia, era coisa da vida, era o que vinha depois da vida, era o que tinha feito do homenzarrão que era o avô que ele via quando almoçava com os pais lá em casa dele, transformar-se naquele homenzinho mirrado que lhe tinham dito que ia no caixão pequeno, que parecia ser dum boneco grande e magricela como o espantalho que punham lá na quinta para afastar os pardais, diziam.
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segunda-feira, 27 de março de 2017

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       Fernando não percebia porque só via meninos na sala, a sua mana também estava numa escola- meninos tenham atenção ao que escrevo no quadro - a professora interrompeu-lhe o pensamento, estava ali escrevendo letras brancas com um pauzinho muito branco na mão - senhora fessora pra que é que servem as letras ? - pois é Eduardinho não ouviste o que eu te disse ontem, as letras são para escrevermos o que pensamos- e as perguntas começaram a suceder-se como água caindo daquela fonte, todos os miúdos virando a cabeça para os que perguntavam, Fernando, interrompendo o desenho desenfreado, instável e emaranhado que fazia na folha do caderno, esperou, interessado e mais atento pela resposta, lá em casa fizera a mesma pergunta ao pai, que lhe respondeu:
          - Olha Fernando, se tu quizeres mandar um recado, uma lembrança ou se o senhor doutor quizer passar uma receita para tratar um doente, ou se a tua mãe quando está em Lisboa quizer escrever uma carta para a tua avó, todos têm que usar as letras,
      Fernando começava a ver abrir-se a confusão, ainda insensivel à realidade, começava a entrar no campo intenso da fantasia. Não perdia tempo, sem saber o que era perder tempo, o tempo para ele era desconhecido como o fundo do mar, como o que vinha nos barcos, como o destino e a viagem das gaivotas. Começavam a abrir-se-lhe algumas luzes do pensamento.

domingo, 26 de março de 2017

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     As aulas começavam sempre a seis de Outubro, se o calendário não prolongava mais um dia as férias de verão por esse dia seis ser domingo. E a escola Lusitana, do professor Buisel, nesse dia de  de tempo ainda perdulário de calôr, ausente de chuva e ventania, alegrava-se com a algazarra que os garotos que vinham  chegando, ali distribuiam e trocavam, brincadeiras dos mais  velhos à mistura e em contraste com o espanto,retraimento e timidez  dos que ali entravam pela primeira vez. Se a escola era aquilo, gostava muito.  Sobraçava, com cuidado e apertando bem contra o corpo a bolsa que a mãe lhe entregara - vê lá, não percas nada, são as tuas coisas para a escola - dissera-lhe ela quando se despedira dele, carinhosa, antes de sair de casa.
      E o professor, quando o viu entrar no salão lajeado de ardósia cinzenta, sorrio-lhe - deves ser o Fernando, o filho do capitão do porto, grande amigo meu, olha, sobe as escadas, com esses da tua idade, vai lá para cima, tens lá a professora, minha filha, à tua espera - impressionado com aquele homenzarrão, que o tratava com afabilidade, pensava na rudeza de outros homenzarrões que conhecia. Obedeceu, subiu a escada,  seguindo curioso, outros alunos que iam para cima, entrando com eles na sala de aula, onde uma mulher que lhe parecia pouco mais que menina e da mesma idade da Ermelinda, lhe indicou uma carteira onde outro colega se sentara.
            - Meninos - disse ela, sorrindo para todos, ocupavam mais de metade da sala- vamos começar, tirem a cartilha maternal, o caderno e os lápis dos sacos e atenção ao que vou escrever no quadro.

   

sábado, 25 de março de 2017

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  1.       Passaram pelo edifício Sarria, onde, em tempos antigos, a  câmara municipal, o notariado e o registo civil tinhem o seu sítio. Nove horas, muita gente entrando, gente que trazia para ali muitos problemas, gente que ali vinha encontrar mais problemas, gente que para ali vinha descarregar preocupações: todos com o ar dos que estão atrasados para apanhar o comboio, sempre esquecendo que a vida também está dentro dos atrasos.
  2.      Fernando seguia curioso, ainda não infectado pelos mistérios da burocracia e da organização política da nação - Melinda estas pessoas vivem todas aqui? - Não menine, venha menine, deixe lá as pessoas irem pra onde elas querem.
  3.      E, deixando o largo entraram na  parte estreita da Rua Direita, que ao contrário do que é costume pela força das circunstâncias e do destino, é bem recta e a parecer  a Fernando mais comprida que o fio do carro de linhas que ele às vezes desenrolava lá em casa. Ao passar numa montra de chapéus - olha Melinda tantos chapéus, pra que é que aquele nomem lá dentro quer tantos chapéus, o papá só tem aquele que deixa sempre no bengaleiro ao pé da escada!- venha menine, assecola é logo ali naquela rua donde estamos chegande.     

sexta-feira, 24 de março de 2017

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O espanto pelas coisas novas à sua volta continuava. Diferente dos miares da gata, da renda de bilros que a tia avó trabalhava no rolo grande, dos cheiros das sardinhas assadas na cozinha: pessoas assomando-se às janelas da sua altura, um auomóvel saindo duma casa, um homem com uma bicicleta à mão tocando uma flauta - óh Melinda que quer o homem apitando? - menino o homem afia tesouras e facas, deixe lá o homem, não pare que é tarde - e mudaram uma vez mais de rua, para outra, um cão ladrando perseguindo um gato e cruzaram outra rua que como a outra vinha lá de cima, do lado da direita lá para baixo - óh Melinda olha, lá prabaixo está um rio, é aquele rio que vejo da janela do quarto do pai? - sim menino, a Ermelinda um pouco impaciente mas cuidadosa sem repreender o Fernando, o patrão mais que uma vez lhe determinara que as perguntas do menino deveriam ter sempre respostas dela.
      Não havia confusão na cabeça do garoto, as confusões sucederiam mais tarde com a desordem, com as controversas, com as balburdias, as faltas de clareza, a mistura disparatada, as atitudes opostas perante situações semelhantes.
     E mais outra rua cruzada, outra vez vindo da direita lá de cima para a esquerda lá para baixo - óh Melinda, as ruas vêm todas lá de cima? - óh menine atão o menine na vê qesta donde vamos na vai pra baxo?- Ermelinda metendo dialecto algarvio na memória de Fernando.  
 
         

quinta-feira, 23 de março de 2017

Ali, na rua, começaram as surpresas, a rua mais larga que a sua rua, as casas mais altas que a casa dos pais, os barulhos maiores que os do quintal da casa da avó. Cruzando uma rua que vinha a subir lá de baixo, a rua da ribeira, ouviu a voz estentória dum homem que gritava na rua, lá em baixo, pondo as mãos na boca, em forma de trombone, dizendo uma data de nomes, de sardinhas, carapaus, safios e outros peixes que Fernando desconhecia.

- Óh Melinda porque é que ele está gritar tanto?
- Ora menine, praque as pessoas sabam o pêxe qhá ali na praça do pêxe!
- Onde é que o homem apanhou tanto peixe?
- Ora menine, o pêxe apanha-se no mar, donde havera de ser!
Ali, na rua, começaram as surpresas, a rua mais larga que a sua rua, as casas mais altas que a casa dos pais, os barulhos maiores que os do quintal da casa da avó. Cruzando uma rua que vinha a subir lá de baixo, a rua da ribeira, ouviu a voz estentória dum homem que gritava na rua, lá em baixo, pondo as mãos na boca, em forma de trombone, dizendo uma data de nomes, de sardinhas, carapaus, safios e outros peixes que Fernando desconhecia.

- Óh Melinda porque é que ele está gritar tanto?
- Ora menine, praque as pessoas sabam o pêxe qhá ali na praça do pêxe!
- Onde é que o homem apanhou tanto peixe?
- Ora menine, o pêxe apanha-se no mar, donde havera de ser!

quarta-feira, 22 de março de 2017

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Essa parede espessa que por vezes me pára o pensamento é como um comboio de mercadorias interminavel e emenso que desfila à minha frente na passagem de nivel, o ruido impertinente, constante e sincopado das rodas nos carris atira-me para uma resignação feroz traduzida no desejo assassino do descarrilamento da composição substituido pela implosão implacavel do muro irreal que me prejudica o juizo. Mas, paciência, a vida sem buracos não tem piada não presta, tal como o queijo.
Todavia, nos seis anos vividos por qualquer criança não há buracos que lhe perturbem o pensamento, nem muros espessos de betão armado que lhe ofusquem a realidade e comboios, só de brinquedos desejados no sapatinho do Natal.

terça-feira, 21 de março de 2017

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Encantam-me todos os desencantos, perturbam-me todos os sucessos, envaidecem-me os desatinos, confesso as ambiguidades, encho-me de manhas e defeitos e acabo de comprar a passagem para a viagem para ir para onde estou.

segunda-feira, 20 de março de 2017

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       O António trabalhara para os avós de Fernando mais de doze anos, sempre bem disposto, desses homens sempre afáveis no trato, de boa disposição inalterável, nunca negando uma palavra simpática, um favor sem exigência. Era cocheiro ao serviço da casa, preparador de lenha partindo as cepas grandes arrancadas das vinhas velhas, para os fogões, limpador do sarro dos toneis vazios da adega, tratador do Palhaço, o grande cavalo branco. De salário modesto, como eram modestos todos os salários daqueles tempos de vidas simples e modestas. Habitava  com a esposa, costureira e uma filha, estudante, uma casa emprestada pelos patrões, perto da cocheira. Conhecia Fernando desde que este andava ao colo da mãe e mais que uma vez, encontrando-o no quintal, levara-o a ver o Palhaço, contava-lhe histórias de cavalos, ensinava-lhe como se tratava um bicho daquele tamanhão - o garoto passava por debaixo da barriga do cavalo quase sem se agachar. E o António, uns meses antes, ensinara-lhe a ser amigo do Palhaço:
          - Olhe menino Fernando, se quer que ele seja seu amigo traga-lhe um papo seco!
     Naquele que seria o primeiro dia de escola, parou à porta da cavalariça, dizendo:
          -António, trago um papo seco para o teu cavalo! -e este, como de costume, relinchou, virando a cabeço para a porta.
          - Traga, traga, menino, tem de ser o menino a dar o pão!
     Fernando, repetindo o gesto que aprendera tempos antes, aproximou-se do cavalo, tirou um papo seco do bolso, colocou-o na mão e aproximou esta da boca do Palhaço, que aguardava , expectante. Com toda a delicadeza, abocanhou o pão, nem tocando na mãozinha delicada que o oferecia.  

domingo, 19 de março de 2017

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       Resignou-se, mas não sentia a resignação. Encantou-se, a surpresa das coisas aparecidas e desconhecidas, continuava. E não sentindo admiração, espanto, nem suspeitas.  Tudo o que lhe acontecia lhe parecia natural com o sentir fome, sentir sono, sentir calor.  A memória começava a servi-lo com insistências prestes a transformar-se em hábitos, em utilidades, em costumes. Acordar deixava pouco a pouco de ser uma anormalidade, uma surpresa, uma expectativa. Começava e sentir  desejos de futuros, curiosidades do que está por detrás, anseios de repetições.  E começava, sem o sentir a adivinhar o que se seguia, como para onde ia aquela galinha, onde ia pousar o passarinho, o que se sucederia depois de ouvir a chave do pai entrando na fechadura da porta da rua.
     Os instintos começavam a contribuir para a consciência, as contrariedades para a defesa, os insucessos para a perseverança.














sábado, 18 de março de 2017

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Não foi uma onda perdida que o levou, agreste, enrolada, para os seus seis anos, a mãe no sanatório, o pai entretido com os problemas cardiacos que disfarçava nas conversas intermináveis de glorias antigas nos ultramares que o tornavam conspicuo e distinto libertando-se dele em casa duns parentes. E reparou, surpreso que lá estava, na cabeça dos seus seis anos respirando de novo o ar do armazem dos frutos secos, dos figos eucharios em cima das esteiras, do monte das sacas das amendoas em casca, do perfume doce das alfarrôbas resignadas e espalhadas naquele canto enquanto o gatarrão da casa, paciente, preparava o salto para o rato atrevido que ia cheirando despreocupado uma saca vazia. Teve dó do ratito, bateu com o pé no chão, assustou mais o gato que o rato, desfez e desmobilizou a caçada.
Dentro da cabeça do garoto, reparou, surpreso que esta começava a pensar, coisas simples que sabia por vezes das mais belas, coisas complicadas que os seis anos não podiam descomplicar, um novelo de coisas que passavam para coisa nenhuma, um  ror de coisas que se confundia na cabeça onde estava, como o mar sereno em frente da sua praia. Mas nada mais? Tanto forcejar para entrar na cabeça dos seus seis anos, mas o que pretendia ? que  ali estivesse um Einstein a descobrir outra lei ainda mais importante que a da relatividade, ou um Nietsche desfazendo meticulosamente a filosofia moderna ? Não, começava a convencer-se que naquela cabecita tudo se iniciava pelo principio, era tão simples como isso.

sexta-feira, 17 de março de 2017

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O garoto, com a espontaneidade própria da sua inocência, sentia a vontade imperar com a força duma pena roçagando o pensamento, quase todos os gestos comandados pelo automatismo adquirido nas primeiras experiências,quase todas as palavras saidas da memória dos acontecimentos agradáveis, quase todas as decisões comandadas pelos impulsos momentaneos.
Tudo o que fazia, o acordar, as brincadeiras ou outros movimentos, sentia-o como a abelha obedece e reage ao olor do polen, como cachorro abana o rabo quando sente que o dono se aproxima com boa cara, como a mãe galinha, pressurosa e precavida, abra as asas para abrigar e acalentar os pintos. O garoto ainda estava longe das agruras da economia, do labirinto da política, do chamado peso das responsabilidades, se é que estas têm algum peso para muitos adultos.

quinta-feira, 16 de março de 2017

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Nos seus seis anos, nessa idade em que ninguem tira anos a ninguem e em que ainda nenhuma criança sente que lhe tiram a liberdade, mas em que as contrariedades, as ordens severas sem explicações, as proibições agrestes vão sedimentando a construção e o bloco dos temores e dos medos, nos seus seis anos as novas imagens, as surpresas de todas as horas, os acasos inusitados, as dores inesperadas que o iam impressionando indelevelmente e continuavam ocupando, sem esforço, a sua memória ainda muito virgem, virgindade não sentida mas de vida já intensa, numa intensidade sem ânsias, num fulgor de alegrias sem limites traduzidos em sorrisos diferentes dos primeiros absorvidos dos sorrisos da mãe.

quarta-feira, 15 de março de 2017

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Fernando suspendia-se na sua inocência, buscava desejos não sentidos, os sons do seu futuro começavam a perturba-lo tudo se traduzindo na saida da cozinha num andar apenas obedecendo e mergulhado no acaso da sua vida juvenil.No quintal empedrado, levantou a tampa da cisterna quase cheia, a sua cara sobrepondo-se ao céu no reflexo permanente, curioso, vidrado, tão diferente da imagem que todos os dias lhe surgia no grande armario do quarto das roupas, na casa dos pais.
Quebrando o silêncio aquoso e claustral da cisterna a voz da Isabel desfez a curiosidade que o feitiço da cisterna o distraia:
- Óh menino tire-se daí, veja lá na caia pra dentre da cesterna ! - recomendou ela no seu dialecto algarvio cerrado.
Fernando ergueu-se, abandonou a tampa e afastou-se, recordando e insistindo no desejo de refrescar-se naquela água.

terça-feira, 14 de março de 2017

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Mas, perante o conselho da Chachão, eivado de ternura impregnada pelo suave olor da sopa que cozinhava com misericordia e enlevo reflectido na face resignada, com pensamentos estratificados em dezenas de anos de serviços obedientes, perante aquele aviso de prudencia, Fernando susteve o gesto e manteve-ae afastado da gata, suspendendo o desejo provocado pela curiosidade sobre cabelo sedoso e farto da gata. E continuou observando-a no seu labor matinal de limpeza, virando e recirando a cabeça ao percorrer o corpo com a lingua impaciente.
(para incluir no meu sexto livro)

rov

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Lendo esta frase ganhei, tempo de vida:
"Na cara dele havia permanecido a estremecivel sensibilidade que um pensamento dá a um rosto"
De Clarice Lispector no seu livro "A maçã no escuro"

segunda-feira, 13 de março de 2017

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Viro-me para um ponto cardeal, que antes de ser promovido servia o bispado de Tomar, onde ficou célebre porque redefeniu a janela do convento que não era sujeita a revisão desde que o fundador templario Gonçalo Mendes a tinha burilado a preceito apesar da borraceira persistente durante trinta e tres dias invernosos.Porem, mais importante que o cardeal era o ponto de mira que servia a sua espingarda de dois canos de esgoto. Por mais que Fernando persistisse, via-se embrenhado na confusão que a brenha do silvado do quintal lhe provocava pelo menos duas provocações por minuto onde aproveitava as silvas exestentes para colher os saborosos morangos das ditas silvas, durante o Maio. E este era o mês em que, alheio a todos os conselhos, aproveitava o bom tempo para subir a montanha e observar algum condor emigrante das montanhas rochosas, que são tão rochosas como a montanha que galguei nessa manhã de primavera.
Mas eu não sei que prima é essa estação de todos os anos entre outros muitos objectivos sensatos ando há algum tempo consultando as redes sociais de todos os quadrantes, em busca dela, nesta ansia atroz de paixão pela cultura, nesta busca infrene e descomedida dessa familiar.

domingo, 12 de março de 2017

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Amarro as dificuldades num molho de bróculos, junto os ingredientes para o molho, não ficando junto às tentações da tenra idade, a carne pouco tenra ainda é mais prejudicial, normalmente não passa dum bocado dum cadaver, a carne das plantas não é carne e a das árvores é o seu cerne. O que não evita pensar que a política é uma porca cuja carne vai sempre podre, fétida, decomposta só servindo de adubo com os devidos cuidados, não os cuidados da vida que esses cuidam de nós, até Nero, o romano não aquele pescador amigo, do mesmo nome, que tinha o nariz de aba pendurada efeito da mordedura dum peixe, até Nero, o imperador romano, que também tinha a mania de pescar cristãos no circo de Roma, até Nero, continuo dizendo, mesmo Nero não tinha outra carne que carne podre.
Só quem come um bom salmonete, sabe a diferença.
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Nada como influenciar a razão como o ruido dos passos perdiósdos, a visão das coisas simples, a aragem dos temores, o olor da castanha assada no inverno dos meus pressentimentos , na esperança das coisas de encanto da minha infância, no desejo de ouvir cantar o rouxinol que estava há oitenta anos à porta da casa dos meus avós. Prelúdio breve, prenhe de colcheias intensas, fantasma ilusório de esperanças inauditas ofuscadas pela fantasia da estatua de Vitoria de Samotracia. Que milhões de visitantes do Louvre continuam a admirar, mas não admiram a estatua, admiram a cabeça que lhe falta, ainda mais bela que as asas e o corpo. E cá em baixo, antes de subirmos, quedamo-nos meia hora encantados com essas asa que nos parecem transportar, com a cabeça em falta que conversa connosco contando o que não sabemos e virando-nos preessurosos para nós mesmos.

sábado, 11 de março de 2017

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Ferindo-me no espinhaço do cão e atiro-me para o luar, errando a pontaria por mal colocar o sonho das três da manhã da minha vida.Tirei o carro do armazem das virtudes indefensas tentando que as pegadas que deixei no jardim da minha infância não delatassem o futuro que me aguarda enquanto a erva daninha invade os domínios do passado deixando um rasto de ternura que ninguem colhe nem esconjura com o olor agradavel dum papo seco acabado de sair do fôrno,




  • Na coluna dórica que mandei construir no meu quarto de dormir gravei um pensamento fugaz que apareceu pairando como um fogacho luminoso qual maçarico mal amanhado que mais aparentava ser um lunicola que um terraquio. No entanto sempre me desagradou passar-me despercebido o que está dentro do entanto, 
    Em todos os tempos que percorri sempre abandonei um rasto de esperança. 


quinta-feira, 2 de março de 2017

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- Não quero perder tempo a escrever a qui - disse ela
- Pois eu gostaria de ter perdido muito mais tempo a escrever aqui - disse-lhe eu
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Todos os parentes que frequentavam a casa da avó Josefa gostavam da Maria da Conceição, a cozinheira que todos carinhosamente tratavam por Chachão. Célebre pelo seu famoso arroz de pato, sempre gabado pelos participantes dos almoços de família após os quais era exigida a sua presença na sala de jantar para ouvir, modesta, recatada e serena os encómios não raro acompanhados de aplausos, pelo prato de arroz servido.
Na hi stória antiga da família daqueles avós, constavam, mergulhada profundamente no mistério das recordações caseiras, os assédios sexuais do falecido bisavô Bernardo Paz, homem alto, louro, de porte atlético, impetuoso e sem contemplações, nos costumes viciados por tradição indecorosa de muitas pretensas famílias de bem, desses tempos. As criadas de servir - assim se chamavam então as empregadas domésticas - não raro acumulavam o serviço de limpeza ou de cozinheira com o serviço do seu corpo na cama do dono da casa ou na de algum dos seus filhos. O que por vezes resultava em consequências visíveis na barriga das ofendidas ocultadas nos tempos seguintes, de forma variada - aborto conseguido por meio de suborno pecuniário suficiente para contentar os pais enfurecidos ou do filho resultante, afastado e mantido em permanência dourada e encaminhado no futuro em bom emprego, sempre desconhecendo a sua origem paterna. A ameaça proveniente da diferença de classes impedia qualquer tentativa de esclarecimento da verdade e os costumes quase tradições, da submissão animal aos donos das casas, levavam a que o assédio sexual fosse considerado um direito do macho patrão.