Número total de visualizações de página

domingo, 30 de abril de 2017

*
Aquele comboio, nesse 1953 era um comboizito do tipo dos comboios das minas, de carris de via estreita, nas carruagens apenas uma fila de assentos envergonhados, uma locomotiva de brinquedo rebocando duas carruagens de uma fila de bancos e uma carruagem de mercadorias abarrotada com os nossas malas e as dos outros catorze passageiros. Uma dezena de quilómetros de paisagem desértica, sem qualquer vegetação nem outra forma de vida, vinte à hora ou pouco mais, convidando ao torpôr, ao sono, reforçado pelo "deficit" acentuado pelo curto dormir da noite anterior. Pouco mais adiante, a locomotiva ofegante atacou orgulhosa a grande subida da serra da Chela. Mas eis que pára e o revisor avisa-nos que teremos de sair, não tenham medo aqui não hã leões, para se distrairem até podem dar uma ajudazinha à locomotiva, despertámos e lá fomos prestar a ajudazinha requerida pelo revisor, que não se esqueceu de colaborar. Foram não muitos metros, entramos na estação de vila Arriaga, da povoação pouco se via. Daí em diante mais algumas paragens curtas para a máquina tomar fôlego e jã noite cerrada, às nove e trinta, de acordo com o horário previsto, chegámos a o Lubango, cidade então conhecida por Sá da Bandeira.

sábado, 29 de abril de 2017

Saltos na luz

*
- Muita coisa não acontece. E outras muitas não as encontramos, por mais que as procuremos.
- O bocado que esteve guardado nem sempre foi comido pelo destinatário.
- Há todas as cores dentro da escuridão, ainda que digam que é negra. Porque ainda não se descobriram os limites da imaginação.
- Ouvimos dizer:"quanto mais alto, maior a queda". Com a excepção da bondade.
- O bom político deverá sempre chamar os vencidos e dizer-lhes: vamos reconstruir a vossa cidade"
- Malhar no brando também pode endireitar. Malhar no ferro frio, também aquece.
- Não é decorando um dicionário que se faz poesia.
.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Outra noite de viagem até ao Lobito, outra cidade sem caracter, como Luanda que, apesar dos seus quatro séculos e meio de existência>: Uma cidade sem catedrais, sem grandes parques ou jardins, sem universidades, sem avenidas largas, sem muralhas arruinadas ou reconstruidas com maior ou menor autenticidade.
Fernando e Tari, não sairam do Uige e, na manhã seguinte, vinte e um dias depois de partirem de Lisboa, desembarcaram no porto final da viagem, Mossâmedes, uma pequena cidade de microclima raro, de vinhas generosas em duas produções por ano, primavera constante, chuva raríssima, as oliveiras nunca produzindo azeitona, o deserto começando ali com aquela única e bonita planta, a Welwitchia Mirabilis, só conhecida neste deserto, que se contenta por receber água da chuva de dez em dez anos e da humidade que alguma e rara brisa marít ima pode transportar. E com as duas malas de porão desembarcadas, uma boleia ocasional deixou-os no único e modesto hotel. Deveriam embarcar no comboio para o Lubango, de nome portugues Sá da Bandeira, um comboio que só partiria às "seis da manhã do dia seguinte.
Saíram do hotel, era ainda bem cedo, sentaram-se num banco,na rua larga que vinha do porto, sem trânsito, sem habitantes ali passando, parecia-lhes uma cidade deserta, espantados pela ausência de ruidos de fábricas, de buzinas ou motores carros, de ladrar de cães, de cantares de galos.
Mas apareceu um "jeep" sem capota, conduzido por um homem de camisa e calções, duns quarenta anos de idade, ar desenvolto, que parou junto ao casal, vestidos à moda europeia.
- Desembarcaram agora, de onde vêm? - perguntou sem mais aquelas.
- Chegámos no Uige, há poucas horaEs iremos amanhã para Sá da Bandeira e para a brigada do Cunene - respondeu Fernando, aproximando-se do "jeep".
- E donde são, em Portugal - Fernando e Tari começavam a habituar-se à explntâneidade dos que viviam em Engols

quinta-feira, 27 de abril de 2017

*
Oito dias e noites de viagem, a rotina das refeições como a distracção principal, algumas atenções de dos tripulantes, os conhecimentos anatómicos do interior do paquete, as conversas insípidas com outros passageiros, o decorrer insensível do tempo sem incidências que ocupassem lugar na memória, a chegada a São Tomé, sem porto de cais definido, o desembarque por barcaça até ao pequeno cais de madeira. trabalhadores nativos noutra barcaça, de pele negra brilhante, dum negro mais negro que qualquer escuridão. A ida a pé até à a capital, uma povoação modesta com tres ou quatro ruas, um orgulhoso edifício mal caiado, o único com dois pisos, com pomposidade chamado palácio do governo da colonia. Oito horas da manhã, encontrando apenas um habitante branco. um velhote mirrado de palavra dificil, olhar inerte. trajar pobre. E regresso breve ao Uige, como à ida através da mata, lá para cima as fazendas com plantações de cacau e do famoso café de São Tomé, um dos melhores de sabor, no mundo.
E mais tres dias e três noites de viagem marítima, ate à foz do Zaire e mais uma noite seguindo até Luanda, a cidade fundada por Diogo Cão em fins do século quinze e para onde os portugueses, apesar de Angola oficialmente ser província de Portugal. para lá apenas poderiam emigrar munidos de carta de chamada ou na condição de funcionarios para ali designados. Passaram a manhã na cidade com o pouco interesse abafado por o calor humido intenso convidando ao regresso a bordo, ántes do almoço.

quarta-feira, 26 de abril de 2017

e

*
O doutor Frederico de Freitas e a esposa, aguardavam o casal no cais. A oferta do ramo de Anturiuns fora desse casal, casal amigo dum primo de Fernando, daquelas pessoas que oferecem sem exigências, com a naturalidade de quem se habituou a gostar de dar sem esperar retribuição.
A oferta multiplicou-se num passeio de automovel pela ilha, num explêndido almoço onde sobressaiu, como recordação inesquecivel, o aroma intenso e agradável dum vinho velho da Madeira. Durante a tarde, a Tari e o marido, percorreram a cidade, o Funchal, cumprindo a inevitavel descida turística duma rua íngreme, num carro trenó de patins ensebados, regressando ao por do Sol ao Uige, que pouco depois reiniciou a viagem para Angola.
Pela frente, oito dias de viagem até São Tomé, segunda escala antes de Angola, atravessando poucas horas antes da chegada, a linha imaginária do equador. Viagem monótona, sem tempestades, não é o mar que é bravo, os ventos é que o excitam, o irritam, lhe provocam ondas que o defendem dos ataques dos ventos, como uma indigestão não é culpa do estômago mas dos alimentos que lhe provocam as defesas. A única curiosidade nesses dias foi a observação de cardumes de peixes voadores, que, como os golfinhos, as baleias e outros, gostam de saltar para a atmosfera, acima do seu habitat aquático, procurando talvez, libertar-se do ambiente em que vivem, como as mulheres e os homens gostam de saltar, voando para a atmosfera, saindo para outros continentes ou procurando viajar para outros planetas, não contentes com aquele onde vivem, onde têm tudo para bem viver e que persistem em conspurcar com poluições de ordem diversa.

terça-feira, 25 de abril de 2017

*
Só sei fugir para tráz porque ás vezes fujo de mim próprio.

Pouco digo "boa vai ela" digo mais: bom vou eu.

As artimanhas raras vezes são artes.

Pensando, vive-se. Amando, renova-se. Chorando, consola-se.

Um grama de uma coisa por vezes torna-a saborosa. Um gesto de ternura, sempre aproxima.

A pele defende o corpo, a alma protege o espírito.
*

Segunda parte - a viagem

A consciência do casal centrava-se apenas naquele mundo à sua volta. Depois das despedidas no terminal da Rocha do Conde de Óbidos, ainda sem o aguilhão da saudade, sem vislumbrarem a intensidade da ausência posterior, embalados pela perspectiva optimista do futuro, a Tari e o Fernando, debruçando-se na amurada do Uige, acenavam risonhos para os familiares - a mãe dele enxugando uma lágrima e uns primos envergando sorrisos encorajadores.
O navio afastou-se com a lentidão própria do arranque contra a corrente, os últimos acenos, a nova visão de Lisboa desde o meio do Tejo, o rumo obediente do paquete,de proa apontada ao futuro, o mar era o novo futuro, diziam que até à ilha da Madeira a tradição avisava temporal nos dias de viagem, a estranha sensação pelo desconhecido mar alto, tomar as pastilhas contra o enjôo antes de mais nada, a passagem pelo forte do Bugio, a entrada no mar profundo, aquele mar longíquo parente deste que tantas vezes o intrigou quando o avistava da praia, a calma, nada de temporal por enquanto e a chamada para ensaio de naufrágio, envergar os coletes de salvação, conhecer todos os passageiros, alinhados a bombordo do convés do navio, cumprir as
instruções e regressar ao camarote para arrumar os coletes, conhecer os cantos do camarote.
Dois dias e três noites de viagem calma, nada de temporais, apos o jantar até se dançava na pequena
sala de dança do barco, refeiçõoes a contento, na manhã do terceiro dia o Uige encostando ao cais da cidade do Funchal. Cidade bonita, aquela, de casario subindo pela encosta íngreme. E mal aportámos a surpresa dum ramo de flores, dos célebres Anturiuns da ilha da Madeira.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

*
No jogo da minha vida vou sempre ganhando.
Como a esperança média de vida, para o homens, é de oitenta anos, juntei até hoje "de propina", como dizem nuestro hermanos, acumulei até hoje dez anos e um sexto. Mas nada interessa os anos que temo a não ser em termos do bilhete de identidade, do fisco ou dos prazos obrigatórios.E muito interessa em termos de saude, de harmonia familiar, de õ. Na saude sigo o meu sistema que me permite não tomar mais que aspirina e outra droga e mesmo estas espero eliminá-las dentro de poucos anos. Um dos segredos, pouco de agrado dos clínicos que se importam mais com o dinheiro que com os doente, um dos segredos, acreditem, é a boa e profunda inspiração e expiração, que fornece a todo o oxigéneo esencial para as mais de três biliões de células do nosso corpo. Quando sofrerem uma dor, não causada por agente estranho, como por exemplo uma tendinite num ombro ou num membro, façam as inspirações profundas e exptirações durante dez minutos: a dor desaparecerá, não sentirão mais a tendinite.
Experimentem. Até serve para a chamada dor de cotovelo.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

As decisões importantes durante a vida dum indivíduo são, com raras excepções, alteradas pela influência da família, dos amigos ou até pela formação que vai adquirindo. A paixão, o amor cego tem reflexos imediatos, mas não resiste, em muitos casos, ao poder do tempo e desses afectos. Uma irmã de Fernando acabara com um namoro porque a avó achava que não podia casar-se com um filho dum pescador, ainda que este fosse o melhor pescador da zona e indivíduo de caracter iimpoluto, o namorado com curso superior, a mãe uma senhora recatada e distinta. O coração mandava mas a família punha e dispunha. Terminou essa sua irmã, casando com um indivíduo de fraca formação, viciado nos copos mas...<>,resultando num divórcio passados alguns anos. O coração também se engana, mas julgo que muito menos que as teimosias familiares.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Nem sempre a fruta contem carôço. Mas nunca há carôço que não saia duma fruta.

Para a última viagem ninguém pode reservar o bilhete. O maldito do dinheiro nem para isso serve.

As minhas frases têm o quadrado do segundo sentido.

Navego abrindo o fundo das metáforas e deixando entrar a ilusão.

Hoje já sei que o futuro é incerto, por isso não me preocupa.

O dia tem sempre uma noite e esta nunca tem dia.

Poucos agradecem o que têm â sua volta. Todos damos muito menos.

Nunca achei pouco o que Deus me ofereceu.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Na passada segunda-feira fui ao Porto com a minha esposa, para tratar dum assunto urgente. Regressámos ontem. Fizemos ambas as viagens num Alfa Pendular, directo de Tunes ao Porto. A até Lisboa decorreu normalmente, se atrasos. Mas de Lisboa até ao Porto os abrandamentos da velocidade do comboio, foram constantes. o comboio parou algumas vezes extemporaneamente, os solavancos, os movimentos inesperados da carruagem foram muito frequentes, resumindo o comboio entrou na Campanhã com uma hora de atraso. E ontem, no regresso a Tunes, sucedeu o mesmo, passamos em Lisboa com cerca de uma hora de atraso, acontecendo o mesmo desconforto na linha de regresso. O mau estado desta linha de comboios de Lisboa ao Poro, oxalá me engane faz prever um acidente grave, esses alfas, na linha Lisboa Porto circulam quase sempre com lotação quase esgotada, mais de quinhentos passageiros e um acidente trará enorme prejuizos em vidas e mais custosos em indemnizaçóes que o custo de uma linha de caminho de ferro nas melhores condições, custo que não compensa a perda de vidas. É uma vergonha o estado daquela linha, será que os engenheiros e a administração da CP concordam com o que se passa? õ
Estações e pontos do percurso onde o comboio na ida para o Porto - excepto as estações onde esse comboio pára de acordo com o determinado nos horários - parava ou abrandava a velocidade, na linha de regresso o comboio abrandava muito a velocidade ou parava noutros pontos. Por exemplo, na viagem de ida, o comboio passou em Vila Franca de Xira a cerca de trinta quilómetros por hora e na viagem de volta passou por ali a mais de cento e trinta quilómetros por hora (valores indicados pelo visor de velocidades existente nos alfas pendulares).
Será que a CP não se interessa pela vida dos passageiros ? Há pouco tempo um comboio de mercadorias descarrilou nessa linha, não podia isso ter acontecido, a muito maior velocidade com um alfa pendular?
Se para reparar uma ponte que ameaça ruina tem que se interromper o trânsito porque não interrompe-lo na linha de Lisboa ao Porto ou construir outra ao lado desde já?. Reparem, o TGV de Paris a Marselha e Toulon, funciona desde 1974, se não estou em erro. Mais de dezasseis TGV por dia de ida e outros tantos de volta, sem um acidente. Os técnico sabem porquê.

sábado, 15 de abril de 2017

Quase no fim da avenida, derivaram em diagonal para a rua Hilarion Eslava, no catorze ela disse-lhe,  é aqui Fernando, não o convidou a subir, o que é que ele pensaria dela, Fernando não teve a desfaçatez, o arrôjo de lhe pedir para subir, um predio de seis andares devia haver elevador, mas antes de se despedir pediu-lhe o número de telefone, disse-lhe que poderiam sair uma tarde a dançar, atreveu-se, surpresa ela dizer que sim, em Portugal nem pensar em ir danças com uma rapariga sem levar atrás um <<pau de cabeleira>>pode ser amanhã, perdeu toda a reticência, a timidez desaparecia,   talvez ao Pasapoga, seria possível,  ela a dizer que sim, nada mais, corando, a amiga Nélida lá estivera com o tio Frederico e o namorado, o  mano deste, o  José, dias antes.
      Telefonou assim que chegou ao hotel, uma voz de senhora, diferente da da Mari, sou o Fernando posso falar com a Mari, um momento, Mari ven al telefono, es Fernando.

quinta-feira, 13 de abril de 2017

           A beleza caminhando ao seu lado era uma surpresa, pela aceitação do convite de Fernando para acompanhá-la a casa, não deveria ser longe, iam a pé, descendo a Gran Via, uma das mais conhecidas avenidas de Madrid, que ele percorria pela primeira vez, como será ela, é diferente de todas as raparigas que conheci, diferente no andar, na elegância do vestir, na simplicidade do falar, na franqueza do olhar. Este <muchacho>, parece-me que diz chamar-se Fernando o irmão disse à Nélida que ele é esquisito, não me parece assim tão esquisito, parece-me ser bastante reservado, o pouco que me disse até agora foi quase nada, mas não deixa de ser simpático até um pouco atractivo, não sei se fiz bem em aceitar a sua companhia até casa, gosto que ele me chame Mari, nunca tive um amigo com o cabelo tão preto. Após a praça de Espanha, começaram a subir a rua de Arguelles, que lhe iria dizer, não desemburrava, não lhe dizia nada, bem, ela também nada me diz a  nada a mim, será retraimento, será ingenuidade,?  a casa dela ainda será longe?  deve estar habituada a andar muito, o à-vontade  com que vai não sei o que quererá dizer, de qualquer maneira tenho de lhe pedir o número de telefone, mas se calhar não m'o dá.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

       Esse primeiro encontro abriu-lhe o mistério do amor, então era isso o amor, tão falado sentimento, nos livros, nas tertúlias, no fado. Fernando sentia abrir-se-lhe uma porta do desconhecido, talvez do paraiso cantado por muitos, talvez uma salvação lembrada por outros, talvez uma solução, diziam os mais cépticos, ou um desfecho de porta aberta, no falar dos cínicos. Um arco iris de ilusões, um encontro com outra vida, uma oferta de Deus. Sentia que aquela rapariga correspondia um desejo  que agora principiava a conhecer, dos seus olhos verdes ressaltava simpatia, compreensão e a busca nos seus, logo desviados pelo encanto daquele fulgor de esmeralda, de partilha, de algum satisfação de alguma curiosidade sentida. Embargado, suspenso, sem conseguir sequer titubear -  é uma treta isso de que o amor desperta a palavra, a verborreia namoradeira só provem daqueles para quem o Cupido se traduziu em artimanhas.
*
      Escrevo para os amigos que gostam  de ler o que escrevo. Escrevo para tentar que os pentanetos dos meus pentanetos, ou qualquer um dos meus descendentes posam avaliar o que eu sou, o que, para os meus e para outros do meu tempo, eu fui.
      Uma árvore genealógica tem o mesmo interesse que uma lista de quaisquer coisas. Apenas tem nomes ou, quando muito, fotos. Pouco interessam os nomes dos meus antepassados, as fotos pouco mais dizem. Pouco me dizem deles - se foram individuos amaveis, decentes, honestos, dignos, cultos, artista, políticos ; ou se foram cidadãos dos <<apontados a dedo>> como incorrectos, malcriados, antipáticos, corruptos, antisociais. É isso que me interessa. deixar apontamentos que lá para o século vinte e sete, XXVII, esclareçam um pentaneto dum dos meu pentanetos, ou outro descendente de mim, sobre este antepassado,

segunda-feira, 10 de abril de 2017

*
    <<A vida é feita surpresas>> que, enquanto a vida nos ocupa. alternam na forma, na intensidade, nas consequências. E a paz não se alcance sem sabedoria qb, alguma resignação, domínio dos impulsos, maior ou menor liberdade nas decisões. Os ventos nem sempre são favoráveis, as amizades por vezes são inconstantes, é virtude usar <com peso e medida> os impulsos, é favor do destino disfrutar cedo da felicidade. Esses <acidentes do percurso> que a vida  nos mimoseia aos encontrões, umas vezes suaves como a brisa que nos traz o olor das madressilvas outras vezes agreste , como o que derruba uma araucaria, têm sempre lugar no destino de quem vive. E Fernando já sabia que basta ,lhar para poder encontrar a surpresa, basta ir para deparar com o inusitado,basta, num momento, ouvir para descobrir o insuspeito. Já sabia, começava a desvendar, sem o sentir.
      A mãe, para Fernando, era como uma instituição, aparecera-lhe na vida, tal como lhe aparecera o pai: ali estavam, agarrados a ele sem explicação, aceitando o seu amparo como aceitava a respiração, a casa, tudo o que vinha surgindo à sua volta desde que nascera, e ele submetido aos pais como se submetia à fome, à sede, ao cansaço. Ainda não sabia o que era o amor, de que ouvia falar, comentar, e a pouco e pouco sentia o gosto dos carinhos, parcos, dos louvores, raros, dos reparos, quase inexistentes.

domingo, 9 de abril de 2017

*
    Dentro da escuridão sempre encontro uma luz de esperança.

    Quando assopro a luz da vela sobra sempre alguma fumaça.

    Acompanhando a minha sombra há sempre desejos de alegrias.

    Viverei eternamente até ao fim da minha vida.

    Solto estas frases faceiras como solto o meu cavalo.

    Sempre que me invade a tristeza mudo a página.
   Nunca fujo ás responsabilidades porque só posso andar a passo, nem me importam as contrariedades porque acerto sempre o meu passo.
  Manias, vícios, defeitos.

sábado, 8 de abril de 2017

*
Se não gostam de poesia, passem a gostar:
         
                  O inconsciente
    O espectro familiar que anda comigo,
    Sem que pudesse ainda ver-lhe o rosto,
    Que umas vezes encaro com desgosto
    E outras muitas ansioso espreito e sigo,

    É um espectro mudo, grave, antigo,
    Que parece a conversas mal disposto...
    Ante esse vulto ascético e composto,
    Mil vezes abro a boca... e nada digo.

   Só uma vez ousei interroga-lo:
   - << Quem és (lhe perguntei com grande abalo),
   Fantasma a quem odeio e a quem amo?>>

   - <<Teus irmãos (respondeu) os vãos humanos,
   Chamam-me Deus há mais de dez mil anos...
   Mas eu por mim não sei como me chamo...>>

de Antero de Quental 


           

sexta-feira, 7 de abril de 2017

       O armazem da memória auxiliava-o.Preenchia os cadernninhos dos exames de frequência com o mesmo frenesi, concentração e aplicação que no ping-pong. Preenchia,nalguns exames, quase todas as folhas daqueles caderninhos de capa azul diziam pelos corredores que aquele ou este professor classificava os exames na proporção do número de folhas escritas, tentava imitar a mãe que usava letras enormes, garrafais, mas a mão falhava voltava sempre às letrinhas escritas como música entre duas linhas nos cadernos da primária . Mas o seu  armazem da memória tinha as prateleiras oblíquas, inclinadas, e os relatos, as fórmulas, os teoremas escorregavam e  amiúde desfaziam-se, evolavam-se no ar, desapareciam no chão, deixavam-se conquistar pelos erros e não pelas páginas brancas dos caderninhos.
      Mas enfim, pelo meio com alguns sucessos, por vezes com alguns truques que todos os estudantes aprendem com maior facilidade que as matérias, temperado pelas férias, bailaricos, namoros desconprometidos, passeatas investigadoras quase nunca sabendo do quê, inconsequente e rara frequência das bibliotecas, foi cumprindo os anos  serenos e os momentos de sobressaltos do curso, alguns de amores inconstantes, outros de amizades crescentes Talvez pela hereditariedade, talvez pelo toque da <mão de Deus>, talvez pela cumplicidade do acaso, começou a desenvolver um parco gosto pelas artes, uma misteriosa propensão para leituras complicadas, compostas de inutilidades, de ridícularias, por vezes até de virtudes escondidas para sempre - um dia comprou um volumoso calhamaço nada mais nada menos que  a "Breve introdução à história da esupidez humana".

quinta-feira, 6 de abril de 2017

     A universidade ouvia os grandes lá da família dizer, o palácio da ciência, o templo da sabedoria, a mãe de todo o conhecimento. Mas como os grandes da familia, salvo uma excepção, nem sequer tinham posto os pés numa e quase sempre a referiam, naqueles termos, em tom jocoso, desdenhoso, como coisa sem valor. Desde um tio bisavô que fora engenheiro destacado em Évora e um tio médico ainda vivo mas que não exercia a medicina, vivendo dos rendimentos, desde esses  mais ninguém da familia frequentara um dos "alfobres da sapiência" ou dos "viveiros de génios.Mas Fernando, sem sentir que estava mergulhando no tal viveiro, agradava-lhe a faculdade,  a Tapada da Ajuda, o clima diferente fora da barulheira das ruas de Lisboa, aspirando logo à entrada o vento do nordeste, que envolvia os aromas do arvoredo, da vinha e da horta que ocupavam a tapada, propriedade da faculdade de agronomia.
     Poucos dias após a primeira aula de silvicultura, dada por um professor catedrático bem simpático, Azevedo Gomes, soubemos que, por motivos políticos esse professor fora demitido, saneado como então se apelidavam tais demissões. O que de imediato deu origem a um abaixo assinado por todos os colegas de Fernando, assinatura que passados muitos anos valeu a Fernando uma visita dum inspector da PIDE, a já temida polícia política de defesa do estado. Que defendia o estado, pensava Fernando , vá lá saber-se do quê, porque, seguia pensando, não era possivel que um professor  como o professor Azevedo Gomes atacasse o estado português. Um professor, que apenas numa aula nos despertou a curiosidade, o interesse e a admiração pela silvicultura, apenas numa lição.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

     Nos anos cinquenta do século dezanove em Portugal vivia-se numa das dita brandas, suaves ditaduras . Nas universidades e nos cursos não políticos, tempo era pouco para a implantação de partidos políticos, reuniões clandestinas, manifestações contra a situação, contra o governo, contra Salazar. No primeiro ano de agronomia tinha de frequentar quarenta e duas horas por semana, de aulas teóricas e práticas,não lhe sobrava tempo para se coçar. Porém, a novidade de novas amizades, o interesse despertado pelas matérias, o tempo necessário para estudar, não permitia que sobrasse muito para as distracções próprias da idade de Fernando.
         No primeiro dia na faculdade o curso reuniu-se à porta do edifício principal da universidade entrando para a fotografia conservadora do acontecimento, quase três centenas de alunos caloiros, onde estariam tantos empregos para tantos agrónomos dai a cinco ou seis anos. Mas enfim lá ficou Fernando frequentando as aulas e cumprindo com facilidade maior ou menor todas as cadeiras até sacar o canudo.

terça-feira, 4 de abril de 2017

            Foi em  16 de Julho de 1944.
            O pai de Fernando morrera um ano antes, no dia em que chegara à casa dos pais com a boa nova de que tinha feito os exames do sexto ano( correspondente ao décimo de hoje, no liceu) e aprovado. A reacção dos pais foi idêntica, aprovar o ano era uma obrigação, a tosse do pai mobilizava todas as atenções, tosse provocada por aspirar o cheiro do fumo de frituras que a cozinha, com a porta aberta para o quintal, impelia para a casa de jantar, o pai muito congestionado levantando-se da cadeira e sentando-se noutra perto da janela, a tosse continuando, o pai apoiando a cabeça nos braços, estes em cima das costas da cadeira de palhinha, a tosse cessando, a mãe correndo para o pai, o pai imovel na cadeira, Fernando vai chamar o doutor Lopes Teixeira, disse a mãe abraçando o pai e gritando João, João. Correu para o consultório do doutor, doutor venha lá à minha casa, o meu pai está muito mal, o médico calmo, preparando-se para ir, parecia que não ligava nenhuma importância, quando chegaram à casa de j
       Quando saíu do colégio, acabado o sétimo ano - hoje o décimo segundo, ao tomar o eléctrico para se dirigir à estação do Cais do Sodré afim de regressar a Portimão, lembrou-se do dia em que entrou no colégio, perturbado, desconfiado, temeroso, levado pelo pai , seis anos antes, ao mesmo tempo que sentia agora um alívio imenso: tinha acabado a prisão que para ele o colégio sempre significara, tinham acabado os toques de caixa, as formaturas, marcar passo por tudo e por nada, marcar passo antes de ir t paantar o pai com as unhas negras, reparou Fernando, enquanto o médico dizia para a mãe dele, nada a fazer minha senhora, os meus pêsames, a mãe gritando, um lenço sustendo as lágrimas.ra qualquer sitio, ao  chegar a qualquer sítio, ver-me livre daquele idiota do capitão Casais, aspirar a liberdade, tomar banho todos os dias.(no colégio tínhamos banho duas vezes por semana) - e para o balneário também seguíamos a marchar. Perdoem-lhe, é um desabafo dele que lhe e que o alivia, sentia-se animal livre, aspirando a vida, vivendo a natureza, decidindo por si e de si, o que queria ver, onvir e sentir.
      Porém, há que reconhecê-lo, pensava e reconsiderava Fernando anos depois, o grande valor do colégio para quase todos os que o frequentavam, era a esplêndida formação que proporcionava no domínio da cultura geral e da base intelectual para tudo o que necessitavam aprender, base nesse tempo, difícil de obter na maioria dos liceus.
           Nesse dia, aliviado, vibrando com a felicidade sentida, começou a apreciar Lisboa.
            Foi em  16 de Julho de 1944.
            O pai de Fernando morrera um ano antes, no dia em que chegara à casa dos pais com a boa nova de que tinha feito os exames do sexto ano( correspondente ao décimo de hoje, no liceu) e aprovado. A reacção dos pais foi idêntica, aprovar o ano era uma obrigação, a tosse do pai mobilizava todas as atenções, tosse provocada por aspirar o cheiro do fumo de frituras que a cozinha, com a porta aberta para o quintal, impelia para a casa de jantar, o pai muito congestionado levantando-se da cadeira e sentando-se noutra perto da janela, a tosse continuando, o pai apoiando a cabeça nos braços, estes em cima das costas da cadeira de palhinha, a tosse cessando, a mãe correndo para o pai, o pai imovel na cadeira, Fernando vai chamar o doutor Lopes Teixeira, disse a mãe abraçando o pai e gritando João, João. Correu para o consultório do doutor, doutor venha lá à minha casa, o meu pai está muito mal, o médico calmo, preparando-se para ir, parecia que não ligava nenhuma importância, quando chegaram à casa de j
       Quando saíu do colégio, acabado o sétimo ano - hoje o décimo segundo, ao tomar o eléctrico para se dirigir à estação do Cais do Sodré afim de regressar a Portimão, lembrou-se do dia em que entrou no colégio, perturbado, desconfiado, temeroso, levado pelo pai , seis anos antes, ao mesmo tempo que sentia agora um alívio imenso: tinha acabado a prisão que para ele o colégio sempre significara, tinham acabado os toques de caixa, as formaturas, marcar passo por tudo e por nada, marcar passo antes de ir t paantar o pai com as unhas negras, reparou Fernando, enquanto o médico dizia para a mãe dele, nada a fazer minha senhora, os meus pêsames, a mãe gritando, um lenço sustendo as lágrimas.ra qualquer sitio, ao  chegar a qualquer sítio, ver-me livre daquele idiota do capitão Casais, aspirar a liberdade, tomar banho todos os dias.(no colégio tínhamos banho duas vezes por semana) - e para o balneário também seguíamos a marchar. Perdoem-lhe, é um desabafo dele que lhe e que o alivia, sentia-se animal livre, aspirando a vida, vivendo a natureza, decidindo por si e de si, o que queria ver, onvir e sentir.
      Porém, há que reconhecê-lo, pensava e reconsiderava Fernando anos depois, o grande valor do colégio para quase todos os que o frequentavam, era a esplêndida formação que proporcionava no domínio da cultura geral e da base intelectual para tudo o que necessitavam aprender, base nesse tempo, difícil de obter na maioria dos liceus.
           Nesse dia, aliviado, vibrando com a felicidade sentida, começou a apreciar Lisboa.
              Aos onze anos Fernando entrou para o Colégio Militar. O pai levou-o Lisboa. A primeira viagem de comboio, o cheiro amargo a carvão, da fumarada da locomotiva a vapór na estação, o embarque naquele comboio de verdade, em Tunes a carruagem em que íam roubada á locomotiva do comboio por outra doutro comboio, duas horas depois, na Funcheira saiu do comboio com o pai e foram comer uma bifana de porco que um senhor com grandes suiças lhes vendeu e outra maravilha, mais para a frente, saindo do comboio para tomar um barco grande que os levou até desembarcar em Lisboa. O pai   mostrou-lhe o caminho que sempre haveria de seguir quando regressasse de férias, outra surpresa, andou pela primeira vez de carro eléctrico, pela primeira vez  conheceu o cheiro a gasóleo, do fumo que deitavam os táxis de Lisboa, pela primeira vez dormiu num hotel, pela primeira vez, só com o pai, comeu um almoço num restaurante da baixa lisboeta - olha Fernando este restaurante é aqui conhecido pelo "farta brutos": por dez escudos, o custo de dez jornais, começaram por lhes apresentar uma quantidade de tigelinhas com vários acepipes, que no cardápio do almoço figurava como "acepipes variados". Mais um prato de peixe, mais um de carne, fruta e doce. O pai, bom garfo, comeu de tudo com abundância e incentivou Fernando a não deixar nada no prato servido.
E depois do almoço levou-o, espantado, confuso e atarantado, ao colégio. Apresentou-o ao oficial de serviço e ali o deixou. Surpreso e canhestro, secretamente um pouco magoado, mas resignado, que remédio. Mais tarde compreenderia porque  ali ficara, o pai havia-lhe dito que permaneceria internado, o que para mim era chines o de internado ficar.
             A vida no colégio, as deslocações para as aulas, para o refeitório, para fora da "companhia militar" onde o inseriram, sempre feitas os passos acertados pelo da frente, em marcha disciplinada e obrigatória, nascendo no seu consciente uma repulsa por tudo o que fosse tropa, sentimento que foi reforçado e constante, em particular após a primeira aula da infantaria, dada por um tenente de mentalidade nazi, que declarou, com ar ameaçador, que indivíduos muito morenos, como ele, Fernando  e outro colega, eram seres inferiores. Regressados dum verão tórrido, a sua pele morena, tisnadas com o sol da praia, tinham adquirido o tom da pele dum africano, naturalmente tostada. A inteligência daquele oficial não foi suficiente para uma avaliação mais correcta das suas origens. Para imaginar o caracter desse oficial, basta referir que, mais tarde, frequentando o curso para coronel, foi chumbado nesse curso e, não suportando o facto dum oficial poder ser reprovado, suicidou-se.
             Mas o colégio deu-lhe uma razoável preparação intelectual, sem lhe diminuir os impulsos, aumentamdo-lhe o gosto pela vida.

domingo, 2 de abril de 2017

*
         Na escola sentia reverberar em si a independência, cada um na sua carteira, cada um porque não havia ali meninas, só mais vinte e nove meninos bem vestidos, recompostos e dispostos e, a maior surpresa, cada hora, de manhã ou de tarde, cada hora outro professor, áh, e também uma professora, a doutora Alda, professora de portugues, que escolhera o professor de frances,para casar mais um professor um homenzarrão alto que explicava as ciências e que namorava a dona Olga, professor de que eu gostava porque tinha uma apelido Rosa, o nome da minha mãe, o meu pai é que me explicou quando eu lhe disse que lá no liceu tinha um professor que se chamava Rosa Pinto, explicou-me que Rosa no nome dele era apelido e eu guardei de conserva aquela confusão de nomes e apelidos. E mais um outro professor, também grande, o doutor Prudencio, o das matemáticas que falava com muitos uns, começou por dizer << eu sou o doutor Prudencium  iuns meninuns nas auluns de matemáticuns  vãum estudarum a teoriaum dos numeruns>> .
      Uns ciinco dias antes do Natal começaram outras férias.

sábado, 1 de abril de 2017

*
      E passados alguns meses de verão dos mais tórridos, compreendera pela primeira vez o que era uma verão tórrido, um calor tórrido, quando pegara numa fatia de pão torrado na saida da torrradeira, num setembro seguinte a um <agosto azul>entrara para o liceu, não a escola fundada por Aristoteles em Atenas, mas a escola onde se ingressava em Portimão e onde se continuava a estudar, era o que diziam os mais grandes da familia e também alguns dos mais grandes que não eram da família. Para ali entrar, fizera um exame, uma prova escrita com as perguntas muito bem feitinhas, com letra grande como a letra da cartilha maternal, num papel  parente dum cartão, mais branco que o cavalo Palhaço, mais brilhante e mais lisa que as pedras brancas da calçada da rua de Santa Isabel. Respondeu a todas as perguntas, que lhe fizeram pensar na altura o que é que teria com isso o senhor que tinha escrito as perguntas, para que é que queria que eu fizesse aquelas contas e com  isso ia-me distraindo e já tinha gasto quase todo o tempo para fazer a prova, que era de uma hora, como disse aquele senhor que estava na sala do exame sempre a olhar para nós os que escreviamos na folha de papel parente do cartão, lisa e branca, com o mesmo olhar desconfiado que tinha a professora dona Olga quando nos ditava o que lhe apetecia ordenar que a gente escrevesse - pensava ele.