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quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Navegando em líquidos diferentes

Tenho a convicção de que esta vida é um cartão de visita para a eternidade, que tudo o que vemos, porque vemos pouco no tudo que vemos, não é mais que um conjunto esfarrapafo de boas intenções coleccionadas no album dos tempos e que os funcionãrios do destino trabalham para que os seus chefes o folheiem de vez em quando para tomar decisões sobre os actores que puseram em cena nos planetas habitados. E nós, na Terra, actores pagos e premiados com a vida neste planeta, recebendo o prémio em setenta, por vezes em mais de cem anos, vamos imitando e representando neste grande teatro lançado no espaço num movimento de rotação à velocidade de uma volta por dia e à outra vclocidade de um volta rotineira à volta do sol de uma volta por ano. Velocidades, que por artes dos nossos chefes, não sentimos, pensamos que é natural não senti-las  Podemos fazer greve,duma noite ,no sono, ou da vida , noa tentativa de suicídio. Coisas que acontecem no nosso destino sem democracia nenhuma, sem nos consultarem ou atenderem à nossa experiência, desprezando os nossos desejos, resolvendo tudo lá entre eles com esse desprezo sobranceiro duma ditadura, com  indiferença inconsciente semelhante à da folha morta que cai do jacarandá no outono invernoso. Somos actores, somos títeres, semos peças inertes de mobiliário, somos átomos duma minúscula célula no corpo doutro ser que tem consciência de que não tem consciência de que existimos? Todo o infinito imaginário que existe dentro do que só pode ser visível ao microscópio electrónico, desconhecido tão desconhecido dentro do universo do conhecido porque ainda não existe o aparelho, a máquina, a ferramenta que permita encarar esse outra realidade infinita, para nós infinitamente pequena e descobrir os novos protões e electrões do seu universo.
          Leem-se muitas histórias sobre regresso do futuro, idas ao passado e outras tretas que a publicidade dos passatempos nos vai impingindo. Todavia, ainda não apareceu quem relatasse uma viagem ao desconhecido fora do nosso conhecido  ou o regresso dessas paragens. Que não será uma viagem ao futuro porque é uma viagem para dentro do presente, a tal história de abrir e cuscuvilhar  o tempo presente, o segundo que decorre, que pode conter muitas horas de vivência, Segredo que deve estar ligado ao segredo da compressão, amalgamento do tempo, conseguir juntar o dia de ontem com o de hoje e o de amanhã. Aliás, fazemo-lo, embora sem consciência, sentimo-lo quando dizemos "como passa o tempo" "parece que os trinta anos passados foran ontem" e outras frases mais ou menos espirituosas.
           Enfim, entremos resignados, no nosso pôrto, o passado segundo, foi inesquecível.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Estou longe

                Estás longe, não te conheço, não sei quem és, acabo de falar contigo. Deixaste-me pendurado como roupa pendurada e abanando no arame da "marquise",pensando no tom simpático da tua voz que ainda não ouvi, no sorriso franco que me deste e que ainda não foi o primeiro que vi. Mas existes, és, e quando falares mais comigo, sem te ouvir, preencherás um espaço que o meu destino reservou desde criança e acabou por revelar. Dou-te o meu braço aguardando que a distância desapareça no tempo que não passou por nós.
                Há muita gente que fala comigo, não os oiço porquê? Talvez que ainda não esteja bem treinado..

No coração humano

"No coração humano há um vazio com a forma de Deus"
                                                                           De Pascal
Isto é, há um lugar que só Deus pode preencher. Parece-me entender.

Vou

           Há sol por toda a parte, as nuvens, os trovões e as ventanias,  obedeceram à ordem de se afastarem para lá dos horizontes. A palmeira jovem, em frente da minha janela, agita as folhas com a alegria do seu verde brilhante, pessoas saem do mercado e passam na rua orgulhosas dos sacos de compras e do sorriso que ostentam. É um outono atravessado de primavera, salpicado de verão e escondendo o inverno que se avizinha com a suave decisão da lagarta que anda pela folha do jacarandá. Apetece-me ir para a rua, abandonar a cadeira e o  computador, orientar os meus passos para lugar que desconheço de tanto passar por êle. Penetrar mais uma vez no mistério e na beleza das coisas simples que me rodeiam lá fora, que me perturbam porque não as sinto, que me emocionam pela esperança de que surjam à frente da sombra que caminha á minha frente, Um grupo de gaivotas desce sobre os telhados, grasnando. E um grupo álacre, de estudantes, desce a avenida, lembrando a toda a gente que são jóvens, que a vida é dêles, que não devem nada a ningem.
            Mas, vou. Porém, as andorinhas despareceram.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Os meus empregos

             Frequentei durante o pouco tempo do passado desta minha vida, diversos empregos. Fui estudante, o emprego mais doloroso que tive; fui agrónomo, o emprego mais suave, mais agradável; fui mestre de obras, o emprego mais irritante por que passei, fui professor, o emprego mais relaxante; fui empregado de mesa(durante quatro horas). o emprego que mais surpresas me deu. E o resto do pouco tempo que passei durante a vida, empreguei-o naquilo em que todos  os animais empregam a maior parte do seu tempo: criando e disfrutando da família, em turismo obrigatório ou incerto, convivendo em maior ou menor grau com o seu semelhante ou com outros animais.
             Mas o que mais detestei, até agora, foi ser o gerente das finanças da família.

domingo, 28 de outubro de 2012

"Eu sou do tamanho do que vejo, não sou do tamanho da minha altura."
                                                                        ( de Fernando Pessoa)

O que espero encontrar

                 O que é mais importante?
                 O que não tem importância nenhuma?
                 As folhas mortas?
                 Os ninhos abandonados?
                 Os carris de ferro à espera dos comboios?
                 A gota de água que cai na boca sedenta duma formiga?
                 O suave murmúrio da brisa matutina?

                 Mas não será que o que não tem nenhuma importância,
                 É o mais importante de tudo?
                 Porque é que, para tanta gente,
                 O  menos é pior que o mais,
                 O escuro pior que o claro,
                  A raiva pior que o sossego,
                  A covardia pior que a coragem,
                  O mau pior que o bom?

                   Na contradição pode haver justiça,
                   No desespero pode residir a coragem.

                   Mas, entre as paredes dum quarto da minha casa,
                   Quando lá entro,
                   Fico sempre na dúvida sobre o que irei encontrar.
                   Porque, sabendo o que lá existe,
                   Tenho esperança que uma surpresa me aguarde.

                    Fellizes os que encontram sempre o que esperam,
                    Mais felizes os que esperam encontrar
                    Mais do que esperam encontrar.
                    Porque assim há um outro sentido da vida.

                    A rotina foi establecida para os felizes,
                    Os que encontram sempre o que lá está.

                    A vida também foi dada aos outros, como eu,
                    Que esperam encontrar diferente do que esperam encontrar.
                     E por isso, êsses outros, como eu,
                     Não esperam encontrar senão o que é diferente,
                     Do que esperam encontrar.
                     Isso, é o importante para mim.

                     Os infelizes, êsses, nada esperam encontrar.
                     Abrem a porta e nunca se admiram.   

sábado, 27 de outubro de 2012

               Porque eu dou pouca importância à minha fotografia e dou muita importância ao que sublinho.

Ilusão

             Estas ignorâncias pesadas que eu estudei e esqueci, êste modo de tergiversar, de iludir a folha de papel, de esgravatar na ciência perdida que desprezei, traz-me a mesma sensação que sentia quando me embalavam no berço que já não existe e que serviu na mão de quem mo roubou, para alimentar uma lareira gizando inúmeros sois que duraram, e luziram, no tempo infinito, tanto ou mais que o nosso sol. Mas, paciência, nunca é demais atear o fògo, nunca é demais acender um fósforo, uma vela, um foguete, uma paixão: todos geram estrelas, mais ou menos efémeras no nosso tempo, na medida e comparação com o nosso tempo. Mas duradouras, na medida do nosso tempo, efémeras na medida do infinito, que pertence ao tempo. Não há fim no tempo, como não há fim das distâncias sem fim, como não há fim de tantas outras coisas. Como o egoísmo, a vaidade, ou a complicação duma alma, entre muitas outras. Nunca alcançaremos hoje o dia de amanhã, nunca conseguiremos estar de novo no dia de ontem. E tantas vezes ouvimos dizer "se eu pudesse voltar atráz, ir para êsse dia passado". Ilusão, ainda por cima, vã.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Entrando no absurdo

            O absurdo tenta-me. É ou não é a vida feita de absurdos?. Amamos ou não amamos os absurdos da vida, desta vida?.Mergulhamos ou emergimos do absurdo? Concordamos ou não com os absurdos quotidianos, transiberianos,expontâneos, falsificadores da realidade, inconstantes no meio do acaso, orientados para uma intrincada demonstração de cálculo diferencial ? São ou não são os absurdos um dom dos indivíduos concretos, petrificados, sustentados pela rotina, embalados com o sucesso?
           E, apesar de tudo isto, saio do absurdo. Volto à apatia dos meus afazeres domésticos e à inutilidade das discussões polítcas.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

A natureza é bondosa

             A vida de tudo o que não está cêrca de nós, passa mais depressa do que a nossa. Estivemos ausentes doze anos e, quando chegámos, desapareceu para parte incerta alguém que nos era querido. E assim parecendo que  no tempo que arde um fósforo, desapareceu. Não se passou para ele ou ela o  mesmo  tempo que nõs passámos fora, O meu tio-avô dizia-me, vais vêr, Jés, que os anos passam como o vento, como a brisa que não se sente. Vais vêr, dizia-me êle, que um dia dirás o mesmo a um dos teus netos.
             Até com as pedras, na sua estranha melancolia que não entendemos, talvez porque somos mais imperfeitos que elas, até com as pedras o mesmo se passa. Passamos por um lugar por onde passámos há dois ou três anos e em lugar daquela pedra que alli estava, que até deu o nome ao lugar, em seu lugar só existe areia, mudança que a natureza sábia ordenou. Ou, o seu lugar está ocupado por um  edifício, um mamarracho de betão e ferro,  que a natureza ignorante dos homens ali plantou.
             Mas a natureza é bondosa, não é vingativa. Tem todo o tempo do mundo para endireitar o que os homens entortaram. E êsse tempo também passa num ápice.
  

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Dia cinzento

          Nada mais triste que uma palmeira em dia de chuva. Dia sem sol, dia sem céu, dia cinzento. Que até faz desmaiar o verde das folhas da palmeira que vive em frente da minha janela. E é natural que a palmeira que todos os dias me vê por detrás da minha janela, é natural que também me  veja hoje mais cinzento. O cinzento não se pode pintar, não é côr, nem sequer está no arco-iris. Pode ser, mais ou menos, como vários objectos.  Mais ou menos preto, mais ou menos branco, nem preto nem branco. Não se define, não nos ilude na sua condição de cinzento, não se decide, não resolve nenhuma situação, permite todas as audácias, olha oblíquo para o branco, olha desconfiado para o preto. É um meia água, um meias tintas, um meia leca, uma desconsideração para quem nele acredita. Não arrisca nada, nada resolve.
          É uma sensaboria. Como êste dia cinzento.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

          Somos um país riquíssimo.Comprámos blindados para todas as instituições. Para os tribunais, para as ppp, para as empresas estatais, para o parlamentol. Estamos tão blindados por fora que pouco temos por dentro. E quanto mais blindados estamos, maravilha das maravilhas, marmelada das marmeladas, cornucópia das cornicópias, estas para aqui pouco chamadas e por isso aqui estão. Quanto mais blindados por fora, mais ôcos, a blindagem é um cancro, cresce de fora para dentro.
         Qualquer dia, igual a tantos outros que passaram, não teremos nada por dentro, diferente da blindagem.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Julgo

Julgo que não chego a ser pessimista nem que para lá caminho
Gosto dum bom petisco, dum bom vinho, duma boa entrada
Gosto dos pequenos nadas que são os afazetes diários
Dos gestos expontâneos, dos bons dias, boas tardes
Dos outros bons qualquer coisa que todos os dias largo
Ou que me largam com palavras e ademanes
Do banho matinal, da água fresca no verão e quentinha no inverno
De outras comodidades caseiras da tecnologia moderna
E aproveito, gostando, de tanta coisa barata que tenho fora de casa
Do ar, do sol, do luar, das paisagens que passam por mim,
Do mar, das caras bonitas, dos sorrisos que nos oferecem
Dos olores da primavera, dos calores de verão,
Dos sons da rua, dos cantares dos pássaros, dos pregões
Gosto, enfim, de tudo o que passa por mim e que me agrada
E até gosto do que está para vir e que desconheço

O que será não gostar de nada disso e ter de assim viver?

domingo, 21 de outubro de 2012

As emoções

           Ando com emoções á flor da pele, ando controlado por umas e desleixado com outras. Sistematizando, as emoções podem classificar-se em sentimentais e inócuas ou podem classificar-se em coisa nenhuma.Activas, passivas, inertes, fracas , fortes, intensas, débeis ou apenas à flor da pele.Mas, se revejo o catálogo dos sentimentos ficam de fora as emoções simples, que poderemos apelidar de pétreas, aquelas provocadas pela dór fisica de quem possue a faculdade de sentir a dor física, em a catalogar ou colocar no armazém das sensações. E estas, as que eu sinto quando nada sinto e quando eu passo por nada que passa por mim. Porque as reverberações que sinto, quando as sinto parecem-se com as reverberações que não sinto nas coisas mais simples. E não as sentindo, sou como a pantera que não sente a água que corre no riacho ao lado ou como o bébé que não sente a mãe à sua volta, antes de nascer.
           Dessa maneira, tudo se percebe, Mas nunca as coisas mais simples.

Que dia é hoje?

                Que dia é hoje? Pergunta de resposta fácil a que eu não sei respoinder, Nem em português nem em coreano . Em coreano talvez acertasse mas, pra que serve saber que dia é hoje, para que serve saber se estamos no hoje, no ontem ou no amanhâ. Reparem, palavra muleta ou bengala, que está na moda,: não gostaríamos de já estarmos amanhã ou de estarmos ontem? A ciência ainda não descobriu o processo, será um avanço, tecnológico ou com outra lógica, essencial, fundamental para a vida no futuro. E reparem, usando a mesma bengala, como será cómodo carregarmos no botão e passarmos para ontem: para não dizermos algo de que estamos arrependidos, para fazer algo que não fizemos, para,enfim, tomarmos outro caminho mais de acordo com as nossas ambições. Ou passarmos para amanhã, sem as chatices de hoje, sem nos esqauecermos do que nos esquecemos hoje, sem agredir os ouvidos ouvindo o desgradávelque ouvimos hoje. Será, como é modo dizer-se no mundo da política, uma margem de manobra muito favorável.
                Mas o problema que decerto a tecnologia ou outra qualquer logia resolverá no futuro, o problema será apagarmos o que fizemos não no ontem real mas no ´que realmente se passou hoje. Ou amanhã desaparecer o hoje.
                Complicado, para um génio, simples para um leigo. Ou, simplesmente, ao contrário.

sábado, 20 de outubro de 2012

Com tudo o que me importa

           Algumas palavras bonitas, uma frase elegante, um epigrama oportuno não fazem, não acontece poesia. Tudo isso com ums pózinhos de sinceridade, sentimento e fantasia, por vezes pode acontecer. Relatar com expontaneidade uma emoção, com o coração a sangrar ou a saltar de alegria, tal relato pode ser poético. E se não está o autor pensando que escreve poesia, ainda mais.
           Como eu, agora, que não sei o que estou defenindo, que não sei o que escrevo, que não sei se é poesis.
           Nem me importa.Como não consigo importar-me com tudo o que me importa.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Vou resistindo

Vou resistindo aos clamôres imensos à minha volta, todos virados para o mesmo lado nas críticas. O pobre não critica, ouve, suporta a fome; a  classe média critica, imitando os outros na crítica; alguns mais sensatos, pensam antes de criticar. Eu pretendo raciocinar. Lembro-me sempre que, num exame de frequência, com mais cento e setenta e nove colegas, num determinado exercício de matemáticas gerais, um único aluno deu uma resposta diferente de todos os outros cento e setenta e nove. E porque raciocinou, deu a resposta certa.

Se eu conseguir

Se eu conseguir não ouvir os sons que oiço
E conseguir expressar as emoções que me assaltam
Reunindo e separando o passado e o presente
De tudo o que a esperança e o futuro me prometem

Quero antes de tudo imaginar que existo
Pretendo contemplar o presente que já não tenho
Olhando para o lado que me der na gana
Sem sentir que vou pra lá e  que pr'áqui venho


Jogando com a fantasia e a ilusão
Assim me entretenho dentro do meu templo
E sem querer, utilizando o mais importante
Que é tudo o que sinto e que não contemplo


          

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Sou.E continúo

           Sou omo as águas dum rio,  deslizando com placidez entre as margens na planície,
           Sou como a lava dum vulcão percorrendo com fragor a encosta da montanha
           Sou como a máquina obediente aos seus botões e ao homem que os acciona
           Sou como o felino mais feroz que, saciada a fome, despreza tudo à sua volta e dorme

           Se sou rio caminho sempre para o mar imenso como destino
           Se sou lava nada me faz mudar de intenção, vergar ou não vergar a maldade
           Se sou máquina não me perturbo com o ambiente, não me importa quem me usa
           Se sou felino, só a fome me mobiliza, antes que o sexo,que o amòr, que o tempo

           Mas continuo sem saber qual o caminho que percorro e que me norteia
           Mas continuo a percorrer todos os caminhos agrestes desta montanha da vida       
           Mas continuo a não me importar com tudo o que se passa à minha volta     
           Mas continuo sem saber o que mais vale, se o tempo, se o sexo, se o amôr

           E não sei, não sei se me importa continuar..

Começo a saber

Começo a saber que não sei quem sou
Que aqui estando não sei onde estar
Sinto  que de tudo o que passou por mim nada ficou
E que é provável que já não consiga amar

Tento o verso puro, tento sondar esta alma
Iludindo a poesia, desprezando a ilusão
Ver onde estou, ver com toda a calma
Esquecendo a vida, abandonando a razão

E se por vezes com alguma surpresa
Tropeço em mim, nesta realidade
Regressa-me o sentido da certeza
De que é bom viver a vida em qualquer idade

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Apesar da crise

            A miuda puxava, insistindo, a saia da mãe, a mãe sabendo bem o que ela queria, estava habituada, era o quarto filho e todos queriam o mesmo quando puxavam a saia da mãe, no supermercado. Aos três anos de idade também ela se lembrava da saia que a mãe sempre levava ao supermercado, verde com riscas pretas, era a saia das compras, que lavava todos os domingos. Nunca punha calças, o marido torcia o nariz quando a via de calças, torcia o nariz em muitas ocasiões, era daquela qualidade de maridos que raro sorrriem para a mulher dentro de casa e que se agarram ao jormal depois do almoço e que sempre reclamava do cozido que estava morno, da sopa que estava salgada ou ensonsa, dos bifes que ele dizia sempre que eram da testa do boi ou do joelho da vaca.
            Ao fim de vinte anos pensou que era tempo de começar a juntar dinheiro para comprar uma caçadeira.
             Apesar da crise.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Cheio de raiva, fiz gazeta aqui no blog, vários imprevistos diários deixaram-me em condições precárias para pensar - e escrever.

Mais, sobre disparates

Muitos disparates contribuiram para o progresso

domingo, 14 de outubro de 2012

Outono

Posso encontrar-me longe ao pé de mim
Sentindo o vento que dessa árvore folhas destaca,
Cúmplice do outono quase no fim
Que chegou e, não hesitando, ataca

sábado, 13 de outubro de 2012

                Pedinte em Estocolmo, Noruega.
                A pobreza nem sempre desaparece. .              
                Por vezes nem com muito boa vontade. 

Os meus eus

Vive em mim outro eu que eu conheço
Indo e vindo sem qualquer cerimónia
Aqui viver, não sei se o  mereço
Disfrutando da vida sem acrimónia

Quem neste corpo há muito me implantou
Podendo decidir,como usar
Êste eu ou o outro eu que eu sou,
Sabia que eu um dia teria de o largar

A razão que essa incógnita desconhece
Se sou eu ou o outro que está na minha vida
À deriva sem saber o que acontece
Vagando na droga, futebol ou na bebida

Nesse dia que não escolherei
Quando o corpo ficar e os eus não
Fico sem saber o que sentirei
Partindo os eus sem o coração

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Na realidade

                  Peguei no saco das ilusões, apertei o o nó dos compromissos, perguntei ao polícia onde parava a liberdade e,  seguindo a alternativa sugerida no sonho, enfiei-me de cabeça no futuro.
ouvi
parei
senti
corri
ouvi
pensei
sofri
saí.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

O que fica

O que fica por detrás do pensamento, o que se esconde quando é visivel e  que arranha com carícias?
O que fica depois de tudo acabar, o que falta dentro do vento, quanto açucar tem o sal, quanta água tem a areia?
O que fica dentro dum ponto final, o que vemos na escuridão, quais a curvas duma linha recta, e quais as rectas duma reticência?
O que fica antes pra depois, o que atrasa a pontualidade, qual o bem dentro da maldade, qual o peso dum passado?
Fica muito porque dentro do nada há muito.
Fica muito porque ir é sempre voltar
Fica muito porque de tretas está o mundo cheio
Fica muito porque nada resta

Quando lá, se põe tudo.

Nasceu a nossa bisneta Antonia

           E já são quatro, os bisnetos. Imaginem, eu que quase já sou mais novo que os meus filhos»! Há três horas nasceu o quarto, uma bisneta que vai chamar-se Antonia. Filha de mãe alemã, de pai chileno, avôs portugueses e chilenos e antepassados italianos, indianos, espanhois e outros terráqueos. Gostaria de aqui pespegar a foto dela (com uma hora de idade), mas não consigo passá-la do facebook para aqui,  lá a poderão encontrar se pesquizarem em Alberto Quadros ou em Clariissa Quadros, esta uma das avòs, imaginem já tenho uma filha que é avó...

quarta-feira, 10 de outubro de 2012


            Porque não temos sempre uma flôr em cada janela janela? (da vida, do dia, do futuro)

Mais vida

Troco uma alvorada na noite dos meus sonhos
Só recebendo as carícias dessas rosas
Entregando  sem contemplações dois raios de luar
E pedindo à vida uma mão cheia de ilusões

Entro nos meus negócios de fantasias
E saio dos meus acordos com fantasmas
Mascarados de gente sã, de gente bem vestida
Com paletós, fraques,  smokings e sobrecasacas

A vida tem destas coisas destes arremedos
Destes lagos plácidos de inquietudes
Destes grandes rios de águas turbulentas
Que corrrem pressurosos para as nascentes

A cartilha maternal

        
          Êste dia a dia sem obrigações faz-me lembrar os meus tempos de criança. E procuro recordar as primeiras palavras que escrevi, de cópia da cartilha maternal de João de Deus: "Ó Pedro, que é do livro da capa verde...?", lembram-se ? nas primeiras páginas, depois do a, do e,do i, do o do u, liam os ões, os ãos, os inhos.. E depois, mais adiante, chegavam os balões, os grãos, os ninhos. E, lá para o fim, em texto corrido, apareciam palavras mais complicadas.
           A primeira edição dessa cartilha, era um livro enorme, teria uns sessenta centímetos de comprimentora e uns cincoenta de largura. Há poucos anos vi um pela primeira vez, em casa dum casal amigo. E a razão daquelas dimensões - nunca eu havia visto um livro tão grande - era a pobreza existente entre os pais dos alunos das escolas primárias oficiais. Os filhos de pais mais abastados, êsses  freqauentavam escola primária particular. Poucos, raros pais de  alunos pobres tinham dinheiro para comprar livros, quando muito compravam uma peqauena lousa preta onde escreviam com giz, o que o professor apresentava no quadro da aula. E neste, expunha e abria a grande cartilha maternal, com dimensões suficientes para que os alunos de todas as filas  pudessem ver, ler e aprender as letras, palavras e números ali escritos.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Encontrei aquela nuvem
Em pedaços pelo chão
Dou uma esmola a quem pede
Se me ordena o coração

Aquela porta

             Entrei naquela casa saindo pela porta que estava trancada e inviolável. Era uma daquelas portas reais e imaginárias, de materiais pesados e desconhecidos, construida, imaginem, com ferramentas que não existem, por isso, sem usar qualquer tinta, a porta ficou vermelha não de vcrgonha ou de esfôrço mas orgulhosa  da sua grande qualidade, a de não fechar a entrada nem permitir a saida a qualquer animal, só se abrindo para não deixar entrar a dúvida, só se fechando para permitir entrar a vaidade. Os ventos não a fazem vibrar, as brisas não a incomodam, os tufoes só a arranham.A água deixa-a impassível, o f ôgo faz-lhe cócegas. Quando bate leve, levemente, não chama por mim, e ninguém diz que vai bater àquela porta porque aquela porta não chama por ninguém.           
            Aceito sócios para fabricar mais portas dessas.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Aguardo

Fico aguardando que o futuro me inponha
Subir a cumes etéreos e nevados
Resta-me a teoria das probabilidades
Para me alentar depois dos tropeços dados

A vida, a vidinha bem sofrida e inclemente
Não me tem negado prazeres intermitentes
Tem-me me posto à prova sempre a meu favor
Com doses de amôr quase permanentes

Contudo, se posso cantar, rir, sofrer passo a passo
Se a sorte me atingiu atirando-me para os teus braços
Resigno-me a descançar sem ter cansaço

Resigno-me a escrever este soneto fora das regras
Não cedo à tentação mas a ela vou obedecendo
Sem remorsos, com fantasias mais ou menos negras.

domingo, 7 de outubro de 2012

Viver

           Que aborrecimento, que tédio, que pasmaceira,comer, acordar, abrir e fechar, subir e descer, politica, notícias, que pasmaceiras, que tédios, que aborrecimentos, que vagares sem pressas, que pressas sem vagares, Pensar, sorrir, ler, escrever,acariciar, dar, pensar, que alegtias, que surpresas, que emoções.
            E, pelo meio, entremeado como a gordura no chouriço, viver, dormindo ou não dormindo, decidindo ou hesitando, procurandou na inércia, que sentimos por entre estas e outras muitas alternativas?
            Viverão assim os outros bichos?

Vou por uma estrada estranha

              E eu vou seguindo por uma estrada estranha, não a estrada asfaltada, a via rápida, a auto estrada, mas a estrada em que vou caminhando  com preguiça mas com ledice e pasmo. Não passo por tabuletas, nem por cidades, nem por outros caminhantes. Vou andando, acordado ou dormindo, de surpresa em surpresa, encontrando catedrais de sonhos, florestas de esperanças, festas de alegrias. Vou sem tropeçar, não sentindo o caminho, não sentindo a velocidade, não sentindo os obstáculos. Nas paragens sinto vibrações agradáveis, nos cruzamentos há pétalas pelo ar que me acariciam a cara e as distâncias são marcadas e provocadas por desejos antigos que recordo no meio de sorrisos de ninfas que, por vezes, me rodeiam, me dão as mãos e me conduzem para uma música que sempre oiço ao longe, tímbales suaves misturados com oboés graves inseridos numa música de fundo onde predomina o piano, acompanhado por acordes ténues de instrumentos metálicos.
              Onde vou chegar?

sábado, 6 de outubro de 2012

Amar! (de Florbela Espanca

"Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar:Aqui...Além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Prender ou desprender? È mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Dutante a vida inteira é porque mente!

Há uma primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida.
Pois se Deus nos deu voz foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder...pra me encontrar."
                                                       (de Florbela Espanca)

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Tentarei

           Tentarei nos próximos dias e nas próximas mensagens não escrever sobre política. Nesta apenas mais direi que estou profundamente desiludido, triste e revoltado porque a forma como este governo do nosso país tem actuado, sem dar explicações cabais para tudo o que se passa - é impossível que entre tanta gente que o governo tem, não haja um com a inteligència suficiente para ver que isso é fundamental numa boa governação -  sem actuar sobre as parcerias publico-privadas, dando razões que não convencem (blindagem dos contratos, etc.), sem aumentar os impostos ao nível a que se propoem, sem dar explicações, sem sequer reconhecer que talvez a saida do euro seja uma solução. Dizendo que isso seria uma ruina, não explicando porquê, esquecendo que a Argentina passou por uma crise semelhante e não demorou tanto tempo a solucioná-la. E a minha desilusão, e talvez a vossa, reside na progressiva convicção que este governo está a seguir os mesmos passos que o anterior.
            Quando há sinceridade e boas intenções, nunca se negam as explicações.
            Acabei, a política não vai aparecer por algum tempo, espero que muito.  
                Uma partida que me fizeram informaticamente, impediu-me até hoje o prazer de escrever neste blog. Vou recomeçar dentro de pouco tempo.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Vida

           Passam-me os dias pela vida e não sinto o desfolhar desse livro que não escrevo. E as formas mais fáceis de encontrar a paz  - deslitgar a televisão, ler um livro já esquecido ou outro original, pensar em círculos à minha volta, escutar os sons que o silêncio me traz, ou,simplesmente, tomar um café.
          Estes pequenos nadas da vida fazem-me preceber porque o nada, por vezes, é muito. 

Querem greve, os meus neuróneos

               Um dos meus neuróneos avisou-me que os seus colegas  mais conservadores andam preparando uma greve de zêlo, exigindo férioas permanentes. Não se conformam com a actividade que desenvolvo, com a imaginação que lhes peço, com os estudos e leituras a que me dedico. Segredou-me muito mais, dizendo-me que os outros andam com os axónios em mau estado, cansados e com as dendrites perdendoa capacidade. Falam muito do excesso de trabalho que eu lhes imponho não ligando aos seus lamentos nem atendendo às suas reinvidicações. Estão revoltados porque, dizem, ao fim de tantos anos não está certo que os tenham, de há poucos anos para cá, obrigado a reproduzirem-se tão intensamente como quando a sua casa tinha vinte anos ou pouco mais.
               Disse ao meu informador que, na próxima assembleia geral dos neuróneos desta casa, lhes transmitisse o meu recado: "resignem-se, quero viver mais trinta anos".

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Oferta de Deus

                  Quando, à nossa frente, se abre um botão de rosa, recebemos um beijo de Deus.