Eu e o Nunes, quartanistas de Agronomia por vezes abancávamo-nos a lanchar naquela pastelaria junto à estação dos eléctricos de Santo Amaro. Uma pastelaria do modelo clássico dos bairros lisboetas nos anos quarenta do século passado: bancos altos junto à bancada, garrafas de bebidas variadas, em prateleiras de vidro atrás do empregado que nos servia.
- Que desejam?
Pedimos o mesmo:
- Olhe, queremos os dois, um copo de leite e um bolo de arroz para cada um - disse-lhe eu.
O empregado pegou num copo e no depósito dos líquidos deitou em cada copo metade de leite e metade de água, depositou um bôlo de arroz em cada prato e serviu-nos.
Observáramos a vigarice e, quando o empregado se afastou, disse ao Nunes:
- Vais ver o que faço depois
Terminado o lanche chamei o empregado:
- Faz favor, quanto lhe devemos?
- Dois escudos, cada um! - disse ele, indiferente.
Naquele tempo o copo de leite tinha valor tabelado de um escudo e vinte centavos e um bolo de arroz custava oitenta centavos.
O Nunes pagou os dois escudos
Eu pedi ao empregado um copo de água. Quando este o trouxe, peguei no pires onde havia estado o bolo de arroz, deitei-lhe água e pus no pires um escudo e trinta centavos, a nadar dentro da água.
- Que é isto? - disse o empregado meio zangado, ameaçador.
- Ora, isso é o que custa um bolo de arroz, meio copo de leite mais meio de de água...
O empregado ouviu-me e disse:
- Olhe que eu chamo a polícia!
Não me perturbei e respondi-lhe, segurando no pires com a água e o dinheiro:
Chame, chame, que nós mostramos-lhe isto!
E a conversa ficou por ali, sem a polícia.
comentários, poemas, situações e circunstâncias da vida, escrtos e da autoria do que escreve neste blog
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domingo, 4 de maio de 2014
sábado, 3 de maio de 2014
profeta
O Nunes era conhecido pelo poderes extraordinários que possuía: da adivinhação, da previsão do futuro, da imaginação e espírito criador. Na sua comunidade não houve quem não se espantasse quando ele anunciou que em todos os meses os dias quinze se sucediam sempre aos catorze e antecediam os dezasseis. O presidente da câmara local propôs que lhe fosse estabelecido um vencimento fixo, igual ao do vice-presidente, e sem horário obrigatório, um profeta não tem de ter hora marcada para o seu trabalho. E o Nunes, no pleno conhecimento das suas capacidades, comunicou aos seus conterrâneos a última advinha de sua autoria: que nessa manhã, quando se levantou às oito horas soube e teve completa consciência de que ainda não eram nove horas. O que deixou os patrícios espantados com tal profecia, relatada com pormenores minuciosos pelos meios de comunicação social.
O ano 2834 decorria sem guerras, todos os países haviam estabelecido no século anterior os tratados simples que garantiam a paz, evitavam a fome, e asseguravam o bem futuro. O cérebro humano evoluira ainda que a estupidez não tivesse diminuído na mesma proporção. Pelo que ainda se conservavam algumas comunidades com os males de antigamente. A democracia vigente não podia evitar que o dinheiro ainda circulasse em dois ou três países, cujas elites governamentais aí encontravam o mesmo proveito, pela corrupção, copiada do que era corrente oito séculos antes. A arquitectura, os transportes, a saúde, a assistência social, continuavam a progredir, sempre a favor da mulher e do homem. Com a ambição progressiva que evitava a estagnação e esta conduzindo á descrença. ao retrocesso, ao imobilismo. O governo mundial não aceitava forças adversas que contrariassem esses desígnios, a atitude geral estava consumada e os estados da federação mundial, mantinham os mesmos objectivos, suportando as excepções (como a do dinheiro, atrás referida)
cientes que o exemplo, tarde ou cedo lhes despertaria a razão.
cientes que o exemplo, tarde ou cedo lhes despertaria a razão.
A riqueza da palavra
Qualquer palavra, principalmente uma das mais importantes, os substantivos - porque são imprescindíveis nas frases mais completas - tem uma riqueza rodeada de diversas capas, que se podem separar como se separam as cebolas: o seu núcleo constitui o seu significado especial, tido como mais vulgar, as camadas são os seus significados menos usuais, de uso menos frequente, aplicando-se com maior intensidade ao sujeito, à situação, à circunstância.
Um exemplo: a palavra opróbrio. Quando a empregamos numa conversa ou num escrito, induz de imediato, a ideia de afronta. Mas se esta foi mais forte, mais contundente, se mais nos incomoda, passa o opróbrio à categoria de afronta vergonhosa, de injúria. E se pretendemos dar a ideia de baixeza moral o termo mais apropriado será abjecção.
Podemos especular da mesma forma com os substantivos, adjectivos e advérbios, dos mais simples aos de mais rara aplicação.
Um exemplo: a palavra opróbrio. Quando a empregamos numa conversa ou num escrito, induz de imediato, a ideia de afronta. Mas se esta foi mais forte, mais contundente, se mais nos incomoda, passa o opróbrio à categoria de afronta vergonhosa, de injúria. E se pretendemos dar a ideia de baixeza moral o termo mais apropriado será abjecção.
Podemos especular da mesma forma com os substantivos, adjectivos e advérbios, dos mais simples aos de mais rara aplicação.
O pacote de manteiga
Os guarda chuva chocaram, choveram as desculpas do costume - Ah! és tu Fátima ? - Olha, Maria, desculpa ter trazido o guarda-chuva do meu Manel, ele engana-se sempre, traz prá chuva o meu amarelo e deixa-me este qu'é mais largo que o passeio onde a gente por aqui passa e é mais preto que um carro funerário dos antigos, ! - Mas ainda bem que t'encontro, Fátima, mas tira-me primeiro essa vareta do meu olho, olha caquela velhaca que me mandaste lá a casa pedirma manteiga eu na estava atão né que começou na conversa com o meu Manel q'a convidou logo para irem juntos ao frigorífico na sala de jantar, tavam os dois de cabeças juntas à procura do pacote de manteiga na geleira vai daí nem deram por q'eu entrei em casa, berrei prós dois o qé que estás a fazer, Manel, dentro do frigorífico com essa mulher ? - Não é nada disso Fati- disse o meu Manel - aqui esta senhora veio por um pacote de manteiga e eu só encontro a margarina!
sexta-feira, 2 de maio de 2014
Lançamento do meu segundo livro
No próximo dia 21 deste mês faço o lançamento do meu segundo livro " Pensamentos subtis..." na livraria "A ler devagar" na Lx Factory , em Alcântara, Lisboa, a partir das dezanove horas.
O livro é um glossário de pensamentos, versos e contos, que fui escrevendo desde que lancei o meu primeiro livro, "Sonho de sorte", em 2011 .
Dado que tenho muitos leitores residentes na Rússia, nos Estados Unidos e Canadá e noutros paíse, se algum quiser comparecer ao lançamento, avise-me que eu procurarei esperá-lo no aeroporto de Lisboa.
O livro é um glossário de pensamentos, versos e contos, que fui escrevendo desde que lancei o meu primeiro livro, "Sonho de sorte", em 2011 .
Dado que tenho muitos leitores residentes na Rússia, nos Estados Unidos e Canadá e noutros paíse, se algum quiser comparecer ao lançamento, avise-me que eu procurarei esperá-lo no aeroporto de Lisboa.
quinta-feira, 1 de maio de 2014
O sistema pensaclínico
Nada, pensava eu após grande esforço, como aplicar os meus conhecimentos básicos de mineralogia na concretização dos anseios e desejos mais profundos. Para explorar cada vez a maior profundidade os gases e os petróleos são necessários capitais imensos, maquinaria complicada, estudos intensos. Para explorar sentimentos, anseios ou desejos profundos as mulheres e os homens necessitam de recursos imensos de sabedoria ou de estupidez: a primeira para conseguir sonhar, a segunda para entrar na relaxação.
Pensar é perfurar a memória, conseguindo que alguns genes se entretenham em combinações lógicas. "Despensar", uma palavra da qual são meus os direitos de autor, é envolver-nos no sono da apatia, esse sono sem sonhos, essa vacuidade sem vácuo, esse nada que muito desconhecemos mas onde germina a semente invisível do despertar. Despensar nunca pode acontecer a quem não pensa tal como não podemos entregar ou dar um objecto que desconhecemos, ou dizer uma palavra que ainda não sabemos, que nem sequer ainda ouvimos. Quem não pensa pode dormir mas não despensar. E a mineralogia veio a propósito porque, àlém daqueles sistemas complicadíssimos em que se classificam os minerais, triclínico, ortorrômbico,etc.., como os pensamentos são combinações intrincadas de neurónios vadios ou muito organizadinhos e ligados por sinapses diligentes - como os minerais são combinações de elementos químicos ligados intimamente pelas forças da natureza - assim eu poderei incluir os pensamentos num sistema mineralógico - o "pensaclínico - que diz respeito aos minerais pensantes constituídos pelos neurónios e ligados intimamente pelas sinapses. O que é um facto que qualquer estudante de medicina verifica nas primeiras práticas de anatomia. Todos constatam, se não estão na galhofa costumada, que ao pegar num cérebro de qualquer animal terão que usar um microscópio muito potente, muito especial - que não sei se já se encontra à venda nos mercados - para encontrar os neurónios.
Já estou muito corado, pelo ataque que vou sofrer da parte dos especialistas nestas matérias , o mínimo que poderão dizer é que não falamos a mesma língua.
Pensar é perfurar a memória, conseguindo que alguns genes se entretenham em combinações lógicas. "Despensar", uma palavra da qual são meus os direitos de autor, é envolver-nos no sono da apatia, esse sono sem sonhos, essa vacuidade sem vácuo, esse nada que muito desconhecemos mas onde germina a semente invisível do despertar. Despensar nunca pode acontecer a quem não pensa tal como não podemos entregar ou dar um objecto que desconhecemos, ou dizer uma palavra que ainda não sabemos, que nem sequer ainda ouvimos. Quem não pensa pode dormir mas não despensar. E a mineralogia veio a propósito porque, àlém daqueles sistemas complicadíssimos em que se classificam os minerais, triclínico, ortorrômbico,etc.., como os pensamentos são combinações intrincadas de neurónios vadios ou muito organizadinhos e ligados por sinapses diligentes - como os minerais são combinações de elementos químicos ligados intimamente pelas forças da natureza - assim eu poderei incluir os pensamentos num sistema mineralógico - o "pensaclínico - que diz respeito aos minerais pensantes constituídos pelos neurónios e ligados intimamente pelas sinapses. O que é um facto que qualquer estudante de medicina verifica nas primeiras práticas de anatomia. Todos constatam, se não estão na galhofa costumada, que ao pegar num cérebro de qualquer animal terão que usar um microscópio muito potente, muito especial - que não sei se já se encontra à venda nos mercados - para encontrar os neurónios.
Já estou muito corado, pelo ataque que vou sofrer da parte dos especialistas nestas matérias , o mínimo que poderão dizer é que não falamos a mesma língua.
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