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Aquele comboio, nesse 1953 era um comboizito do tipo dos comboios das minas, de carris de via estreita, nas carruagens apenas uma fila de assentos envergonhados, uma locomotiva de brinquedo rebocando duas carruagens de uma fila de bancos e uma carruagem de mercadorias abarrotada com os nossas malas e as dos outros catorze passageiros. Uma dezena de quilómetros de paisagem desértica, sem qualquer vegetação nem outra forma de vida, vinte à hora ou pouco mais, convidando ao torpôr, ao sono, reforçado pelo "deficit" acentuado pelo curto dormir da noite anterior. Pouco mais adiante, a locomotiva ofegante atacou orgulhosa a grande subida da serra da Chela. Mas eis que pára e o revisor avisa-nos que teremos de sair, não tenham medo aqui não hã leões, para se distrairem até podem dar uma ajudazinha à locomotiva, despertámos e lá fomos prestar a ajudazinha requerida pelo revisor, que não se esqueceu de colaborar. Foram não muitos metros, entramos na estação de vila Arriaga, da povoação pouco se via. Daí em diante mais algumas paragens curtas para a máquina tomar fôlego e jã noite cerrada, às nove e trinta, de acordo com o horário previsto, chegámos a o Lubango, cidade então conhecida por Sá da Bandeira.
comentários, poemas, situações e circunstâncias da vida, escrtos e da autoria do que escreve neste blog
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domingo, 30 de abril de 2017
sábado, 29 de abril de 2017
Saltos na luz
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- Muita coisa não acontece. E outras muitas não as encontramos, por mais que as procuremos.
- O bocado que esteve guardado nem sempre foi comido pelo destinatário.
- Há todas as cores dentro da escuridão, ainda que digam que é negra. Porque ainda não se descobriram os limites da imaginação.
- Ouvimos dizer:"quanto mais alto, maior a queda". Com a excepção da bondade.
- O bom político deverá sempre chamar os vencidos e dizer-lhes: vamos reconstruir a vossa cidade"
- Malhar no brando também pode endireitar. Malhar no ferro frio, também aquece.
- Não é decorando um dicionário que se faz poesia.
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- Muita coisa não acontece. E outras muitas não as encontramos, por mais que as procuremos.
- O bocado que esteve guardado nem sempre foi comido pelo destinatário.
- Há todas as cores dentro da escuridão, ainda que digam que é negra. Porque ainda não se descobriram os limites da imaginação.
- Ouvimos dizer:"quanto mais alto, maior a queda". Com a excepção da bondade.
- O bom político deverá sempre chamar os vencidos e dizer-lhes: vamos reconstruir a vossa cidade"
- Malhar no brando também pode endireitar. Malhar no ferro frio, também aquece.
- Não é decorando um dicionário que se faz poesia.
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sexta-feira, 28 de abril de 2017
Outra noite de viagem até ao Lobito, outra cidade sem caracter, como Luanda que, apesar dos seus quatro séculos e meio de existência>: Uma cidade sem catedrais, sem grandes parques ou jardins, sem universidades, sem avenidas largas, sem muralhas arruinadas ou reconstruidas com maior ou menor autenticidade.
Fernando e Tari, não sairam do Uige e, na manhã seguinte, vinte e um dias depois de partirem de Lisboa, desembarcaram no porto final da viagem, Mossâmedes, uma pequena cidade de microclima raro, de vinhas generosas em duas produções por ano, primavera constante, chuva raríssima, as oliveiras nunca produzindo azeitona, o deserto começando ali com aquela única e bonita planta, a Welwitchia Mirabilis, só conhecida neste deserto, que se contenta por receber água da chuva de dez em dez anos e da humidade que alguma e rara brisa marít ima pode transportar. E com as duas malas de porão desembarcadas, uma boleia ocasional deixou-os no único e modesto hotel. Deveriam embarcar no comboio para o Lubango, de nome portugues Sá da Bandeira, um comboio que só partiria às "seis da manhã do dia seguinte.
Saíram do hotel, era ainda bem cedo, sentaram-se num banco,na rua larga que vinha do porto, sem trânsito, sem habitantes ali passando, parecia-lhes uma cidade deserta, espantados pela ausência de ruidos de fábricas, de buzinas ou motores carros, de ladrar de cães, de cantares de galos.
Mas apareceu um "jeep" sem capota, conduzido por um homem de camisa e calções, duns quarenta anos de idade, ar desenvolto, que parou junto ao casal, vestidos à moda europeia.
- Desembarcaram agora, de onde vêm? - perguntou sem mais aquelas.
- Chegámos no Uige, há poucas horaEs iremos amanhã para Sá da Bandeira e para a brigada do Cunene - respondeu Fernando, aproximando-se do "jeep".
- E donde são, em Portugal - Fernando e Tari começavam a habituar-se à explntâneidade dos que viviam em Engols
Fernando e Tari, não sairam do Uige e, na manhã seguinte, vinte e um dias depois de partirem de Lisboa, desembarcaram no porto final da viagem, Mossâmedes, uma pequena cidade de microclima raro, de vinhas generosas em duas produções por ano, primavera constante, chuva raríssima, as oliveiras nunca produzindo azeitona, o deserto começando ali com aquela única e bonita planta, a Welwitchia Mirabilis, só conhecida neste deserto, que se contenta por receber água da chuva de dez em dez anos e da humidade que alguma e rara brisa marít ima pode transportar. E com as duas malas de porão desembarcadas, uma boleia ocasional deixou-os no único e modesto hotel. Deveriam embarcar no comboio para o Lubango, de nome portugues Sá da Bandeira, um comboio que só partiria às "seis da manhã do dia seguinte.
Saíram do hotel, era ainda bem cedo, sentaram-se num banco,na rua larga que vinha do porto, sem trânsito, sem habitantes ali passando, parecia-lhes uma cidade deserta, espantados pela ausência de ruidos de fábricas, de buzinas ou motores carros, de ladrar de cães, de cantares de galos.
Mas apareceu um "jeep" sem capota, conduzido por um homem de camisa e calções, duns quarenta anos de idade, ar desenvolto, que parou junto ao casal, vestidos à moda europeia.
- Desembarcaram agora, de onde vêm? - perguntou sem mais aquelas.
- Chegámos no Uige, há poucas horaEs iremos amanhã para Sá da Bandeira e para a brigada do Cunene - respondeu Fernando, aproximando-se do "jeep".
- E donde são, em Portugal - Fernando e Tari começavam a habituar-se à explntâneidade dos que viviam em Engols
quinta-feira, 27 de abril de 2017
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Oito dias e noites de viagem, a rotina das refeições como a distracção principal, algumas atenções de dos tripulantes, os conhecimentos anatómicos do interior do paquete, as conversas insípidas com outros passageiros, o decorrer insensível do tempo sem incidências que ocupassem lugar na memória, a chegada a São Tomé, sem porto de cais definido, o desembarque por barcaça até ao pequeno cais de madeira. trabalhadores nativos noutra barcaça, de pele negra brilhante, dum negro mais negro que qualquer escuridão. A ida a pé até à a capital, uma povoação modesta com tres ou quatro ruas, um orgulhoso edifício mal caiado, o único com dois pisos, com pomposidade chamado palácio do governo da colonia. Oito horas da manhã, encontrando apenas um habitante branco. um velhote mirrado de palavra dificil, olhar inerte. trajar pobre. E regresso breve ao Uige, como à ida através da mata, lá para cima as fazendas com plantações de cacau e do famoso café de São Tomé, um dos melhores de sabor, no mundo.
E mais tres dias e três noites de viagem marítima, ate à foz do Zaire e mais uma noite seguindo até Luanda, a cidade fundada por Diogo Cão em fins do século quinze e para onde os portugueses, apesar de Angola oficialmente ser província de Portugal. para lá apenas poderiam emigrar munidos de carta de chamada ou na condição de funcionarios para ali designados. Passaram a manhã na cidade com o pouco interesse abafado por o calor humido intenso convidando ao regresso a bordo, ántes do almoço.
Oito dias e noites de viagem, a rotina das refeições como a distracção principal, algumas atenções de dos tripulantes, os conhecimentos anatómicos do interior do paquete, as conversas insípidas com outros passageiros, o decorrer insensível do tempo sem incidências que ocupassem lugar na memória, a chegada a São Tomé, sem porto de cais definido, o desembarque por barcaça até ao pequeno cais de madeira. trabalhadores nativos noutra barcaça, de pele negra brilhante, dum negro mais negro que qualquer escuridão. A ida a pé até à a capital, uma povoação modesta com tres ou quatro ruas, um orgulhoso edifício mal caiado, o único com dois pisos, com pomposidade chamado palácio do governo da colonia. Oito horas da manhã, encontrando apenas um habitante branco. um velhote mirrado de palavra dificil, olhar inerte. trajar pobre. E regresso breve ao Uige, como à ida através da mata, lá para cima as fazendas com plantações de cacau e do famoso café de São Tomé, um dos melhores de sabor, no mundo.
E mais tres dias e três noites de viagem marítima, ate à foz do Zaire e mais uma noite seguindo até Luanda, a cidade fundada por Diogo Cão em fins do século quinze e para onde os portugueses, apesar de Angola oficialmente ser província de Portugal. para lá apenas poderiam emigrar munidos de carta de chamada ou na condição de funcionarios para ali designados. Passaram a manhã na cidade com o pouco interesse abafado por o calor humido intenso convidando ao regresso a bordo, ántes do almoço.
quarta-feira, 26 de abril de 2017
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O doutor Frederico de Freitas e a esposa, aguardavam o casal no cais. A oferta do ramo de Anturiuns fora desse casal, casal amigo dum primo de Fernando, daquelas pessoas que oferecem sem exigências, com a naturalidade de quem se habituou a gostar de dar sem esperar retribuição.
A oferta multiplicou-se num passeio de automovel pela ilha, num explêndido almoço onde sobressaiu, como recordação inesquecivel, o aroma intenso e agradável dum vinho velho da Madeira. Durante a tarde, a Tari e o marido, percorreram a cidade, o Funchal, cumprindo a inevitavel descida turística duma rua íngreme, num carro trenó de patins ensebados, regressando ao por do Sol ao Uige, que pouco depois reiniciou a viagem para Angola.
Pela frente, oito dias de viagem até São Tomé, segunda escala antes de Angola, atravessando poucas horas antes da chegada, a linha imaginária do equador. Viagem monótona, sem tempestades, não é o mar que é bravo, os ventos é que o excitam, o irritam, lhe provocam ondas que o defendem dos ataques dos ventos, como uma indigestão não é culpa do estômago mas dos alimentos que lhe provocam as defesas. A única curiosidade nesses dias foi a observação de cardumes de peixes voadores, que, como os golfinhos, as baleias e outros, gostam de saltar para a atmosfera, acima do seu habitat aquático, procurando talvez, libertar-se do ambiente em que vivem, como as mulheres e os homens gostam de saltar, voando para a atmosfera, saindo para outros continentes ou procurando viajar para outros planetas, não contentes com aquele onde vivem, onde têm tudo para bem viver e que persistem em conspurcar com poluições de ordem diversa.
O doutor Frederico de Freitas e a esposa, aguardavam o casal no cais. A oferta do ramo de Anturiuns fora desse casal, casal amigo dum primo de Fernando, daquelas pessoas que oferecem sem exigências, com a naturalidade de quem se habituou a gostar de dar sem esperar retribuição.
A oferta multiplicou-se num passeio de automovel pela ilha, num explêndido almoço onde sobressaiu, como recordação inesquecivel, o aroma intenso e agradável dum vinho velho da Madeira. Durante a tarde, a Tari e o marido, percorreram a cidade, o Funchal, cumprindo a inevitavel descida turística duma rua íngreme, num carro trenó de patins ensebados, regressando ao por do Sol ao Uige, que pouco depois reiniciou a viagem para Angola.
Pela frente, oito dias de viagem até São Tomé, segunda escala antes de Angola, atravessando poucas horas antes da chegada, a linha imaginária do equador. Viagem monótona, sem tempestades, não é o mar que é bravo, os ventos é que o excitam, o irritam, lhe provocam ondas que o defendem dos ataques dos ventos, como uma indigestão não é culpa do estômago mas dos alimentos que lhe provocam as defesas. A única curiosidade nesses dias foi a observação de cardumes de peixes voadores, que, como os golfinhos, as baleias e outros, gostam de saltar para a atmosfera, acima do seu habitat aquático, procurando talvez, libertar-se do ambiente em que vivem, como as mulheres e os homens gostam de saltar, voando para a atmosfera, saindo para outros continentes ou procurando viajar para outros planetas, não contentes com aquele onde vivem, onde têm tudo para bem viver e que persistem em conspurcar com poluições de ordem diversa.
terça-feira, 25 de abril de 2017
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Só sei fugir para tráz porque ás vezes fujo de mim próprio.
Pouco digo "boa vai ela" digo mais: bom vou eu.
As artimanhas raras vezes são artes.
Pensando, vive-se. Amando, renova-se. Chorando, consola-se.
Um grama de uma coisa por vezes torna-a saborosa. Um gesto de ternura, sempre aproxima.
A pele defende o corpo, a alma protege o espírito.
Só sei fugir para tráz porque ás vezes fujo de mim próprio.
Pouco digo "boa vai ela" digo mais: bom vou eu.
As artimanhas raras vezes são artes.
Pensando, vive-se. Amando, renova-se. Chorando, consola-se.
Um grama de uma coisa por vezes torna-a saborosa. Um gesto de ternura, sempre aproxima.
A pele defende o corpo, a alma protege o espírito.
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Segunda parte - a viagem
A consciência do casal centrava-se apenas naquele mundo à sua volta. Depois das despedidas no terminal da Rocha do Conde de Óbidos, ainda sem o aguilhão da saudade, sem vislumbrarem a intensidade da ausência posterior, embalados pela perspectiva optimista do futuro, a Tari e o Fernando, debruçando-se na amurada do Uige, acenavam risonhos para os familiares - a mãe dele enxugando uma lágrima e uns primos envergando sorrisos encorajadores.
O navio afastou-se com a lentidão própria do arranque contra a corrente, os últimos acenos, a nova visão de Lisboa desde o meio do Tejo, o rumo obediente do paquete,de proa apontada ao futuro, o mar era o novo futuro, diziam que até à ilha da Madeira a tradição avisava temporal nos dias de viagem, a estranha sensação pelo desconhecido mar alto, tomar as pastilhas contra o enjôo antes de mais nada, a passagem pelo forte do Bugio, a entrada no mar profundo, aquele mar longíquo parente deste que tantas vezes o intrigou quando o avistava da praia, a calma, nada de temporal por enquanto e a chamada para ensaio de naufrágio, envergar os coletes de salvação, conhecer todos os passageiros, alinhados a bombordo do convés do navio, cumprir as
instruções e regressar ao camarote para arrumar os coletes, conhecer os cantos do camarote.
Dois dias e três noites de viagem calma, nada de temporais, apos o jantar até se dançava na pequena
sala de dança do barco, refeiçõoes a contento, na manhã do terceiro dia o Uige encostando ao cais da cidade do Funchal. Cidade bonita, aquela, de casario subindo pela encosta íngreme. E mal aportámos a surpresa dum ramo de flores, dos célebres Anturiuns da ilha da Madeira.
Segunda parte - a viagem
A consciência do casal centrava-se apenas naquele mundo à sua volta. Depois das despedidas no terminal da Rocha do Conde de Óbidos, ainda sem o aguilhão da saudade, sem vislumbrarem a intensidade da ausência posterior, embalados pela perspectiva optimista do futuro, a Tari e o Fernando, debruçando-se na amurada do Uige, acenavam risonhos para os familiares - a mãe dele enxugando uma lágrima e uns primos envergando sorrisos encorajadores.
O navio afastou-se com a lentidão própria do arranque contra a corrente, os últimos acenos, a nova visão de Lisboa desde o meio do Tejo, o rumo obediente do paquete,de proa apontada ao futuro, o mar era o novo futuro, diziam que até à ilha da Madeira a tradição avisava temporal nos dias de viagem, a estranha sensação pelo desconhecido mar alto, tomar as pastilhas contra o enjôo antes de mais nada, a passagem pelo forte do Bugio, a entrada no mar profundo, aquele mar longíquo parente deste que tantas vezes o intrigou quando o avistava da praia, a calma, nada de temporal por enquanto e a chamada para ensaio de naufrágio, envergar os coletes de salvação, conhecer todos os passageiros, alinhados a bombordo do convés do navio, cumprir as
instruções e regressar ao camarote para arrumar os coletes, conhecer os cantos do camarote.
Dois dias e três noites de viagem calma, nada de temporais, apos o jantar até se dançava na pequena
sala de dança do barco, refeiçõoes a contento, na manhã do terceiro dia o Uige encostando ao cais da cidade do Funchal. Cidade bonita, aquela, de casario subindo pela encosta íngreme. E mal aportámos a surpresa dum ramo de flores, dos célebres Anturiuns da ilha da Madeira.
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