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segunda-feira, 20 de março de 2017

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       O António trabalhara para os avós de Fernando mais de doze anos, sempre bem disposto, desses homens sempre afáveis no trato, de boa disposição inalterável, nunca negando uma palavra simpática, um favor sem exigência. Era cocheiro ao serviço da casa, preparador de lenha partindo as cepas grandes arrancadas das vinhas velhas, para os fogões, limpador do sarro dos toneis vazios da adega, tratador do Palhaço, o grande cavalo branco. De salário modesto, como eram modestos todos os salários daqueles tempos de vidas simples e modestas. Habitava  com a esposa, costureira e uma filha, estudante, uma casa emprestada pelos patrões, perto da cocheira. Conhecia Fernando desde que este andava ao colo da mãe e mais que uma vez, encontrando-o no quintal, levara-o a ver o Palhaço, contava-lhe histórias de cavalos, ensinava-lhe como se tratava um bicho daquele tamanhão - o garoto passava por debaixo da barriga do cavalo quase sem se agachar. E o António, uns meses antes, ensinara-lhe a ser amigo do Palhaço:
          - Olhe menino Fernando, se quer que ele seja seu amigo traga-lhe um papo seco!
     Naquele que seria o primeiro dia de escola, parou à porta da cavalariça, dizendo:
          -António, trago um papo seco para o teu cavalo! -e este, como de costume, relinchou, virando a cabeço para a porta.
          - Traga, traga, menino, tem de ser o menino a dar o pão!
     Fernando, repetindo o gesto que aprendera tempos antes, aproximou-se do cavalo, tirou um papo seco do bolso, colocou-o na mão e aproximou esta da boca do Palhaço, que aguardava , expectante. Com toda a delicadeza, abocanhou o pão, nem tocando na mãozinha delicada que o oferecia.  

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