Número total de visualizações de páginas

sábado, 2 de junho de 2012

Folhetim - Sonho de sorte - 133 -

                                                                     LXIX

              Eu conhecia o primeiro ministro. Com muito boas qualidades mas que, após três anos de governação  não conseguia encobrir alguns defeitos, o maior dos quais, em minha opinião, era a demagogia frequente.
              O poder ressalta as qualidades mas cria quase sempre, em quem o possui, a ilusão da diminuição  ou ausência dos defeitos. Esbatem-se e desfarçam-se os prejuizos ou problemas que causam ao servir-se das alavancas de que dispõe. Existe sempre uma legião de simpatizantes recentes, em maior número que os mais fieis, que se deslocam para o lado donde sopram os ventos favoráveis. Representam uma percentagem considerável do eleitorado, agrupando indivíduos muito pouco conscientes de se próprios. São quase todos os que vemos vociferando palavras de ordem nas ruas, em manifestações orgnizadas ou entusiasmadas num jogo de futebol.
              Mas eu também reconhecia algumas boas qualidades ao primeiro ministro: não menosprezava a condição de católico praticante, respeitava os adversários, dialogava com seriedade, sendo incapaz de prejudicar quem auer que fosse, servindo-se dos poderes conquistados nas eleições. Pelo que me convencera que a tempestade política que desabara sobre a FAP não fora de sua iniciativa nem teria o seu apoio. Não foi difíícil conhecer a origem dessa guerra, faltava-me descobrir o motivo.

              O livro que começei a escrever sobre a FAP refere a obra, também deverá referir as dificuldades, as oposições e os inimigos encontrados.
              Tendo oportunidade de falar com Júlia, perguntei-lhe:
                         - Doutora, qual a origem de todos estes problemas que afligem a FAP?
                         - Não tenho a certeza mas tudo parece ter origem no ministério da administração interna. Porém, a parte mais importante da resposta, a de descobrir quais os mentores e os seus motivos para essa acção, deve ser mais complicado, mais difícil de enumerar. Talvez por razões políticas nada relacionadas com a direcção, talvez porque apenas tenha origem em sentimentos recalcados provocados por factos que atingiram esses dirigentes num passado mais ou menos distante, deixando-lhes desejos de desagravo, desforra e retaliação inconfessados.
                          - De imediato o mais importante é saber o resultado da vossa diligência no tribunal. Qual foi?
                          - O juiz deferiu a providência cautelar, já arrancámos os selos das portas da fábrica, amanhã teremos o nosso páo quente ao peequeno almoço.
                          - Não continuaram as tentativas para fechar as outras fábricas?
                          - Tetarem, nada consiguindo até hoje. O doutor Manuel Macedo tem comseguido abortar tudo o quer intentaram!

               No dia seguinte, de manhã, o primeiro ministro, no seu gabinete, iniciou uma revista rápida aos diários que um seu assessor, como sempre, lhe colocara sobre a secretária. Se alguns artigos lidos nos dias anteriores lhe haviam despertado a curiosidade, esta última, que lia no jornal à sua frente, fê-lo tomar uma decisão. Chamou o seretário:
                           - Traga-me tudo o que consiga sobre esta fundação a que os jornais tanto se referem. Avise o condutor do meu carro para estar aqui à porta às onze horas. Iremos os dois, não se esqueça do gravador.
                O PM era impulsivo, sem ser precipitado. Tomava por vezes decisões simples sem antes as comunicar,  mesmo essas após reflectir durante alguns minutos.
                Ao entrar no carro, disse ao condutor:
                           - Vamos para o Dafundo, para a sede da fundação que fica perto, deve conhece-la pelos jornais.
                Quando chegou à FAP, fizeram-se anunciar na recepção. Laura atendeu-os mal disfarcando a surpresa inesperada de tal visita.
                           - Senhor primeiro ministro, muito bom dia, que boa surpresa ter aceite o nosso convite. Sou a subdirectora desta fundação, Laura Azevedo, os directores não estão, não foram avisados da sua visita.. Acompanhem-me para combinarmos a agenda para hoje.
                 Entrando na sala de reuniões Laura indagou:
                           - Não sei quanto de quanto tempo dispõem, o que proponho...
                 O PM,  abrindo a pasta que trouxera, interrompeu-a:
                           - Tenho hoje a agenda muito carregada, teremos de vos deixar às treze horas.
                 Júlia e Fernando tinham dicidido que as visitas oficiais deveriam iniciar-se fora da sede , para um conhecimento directo e imediato das realizações e actividade da FAP. Pelo que Laura propôs:
                           - Senhor primeiro ministro, porque apenas despomos de duas horas, não sendo o trânsito muito intenso proponho-lhe que de imediato sigamos para a zona onde temos, com excepção desta sede, todos os nossos investimentos e onde exercemos as nossa actividades mais importantes.
                  Enquanto seguiam para a outra margem, Lura pegou no telemóvel. O PM, porém, interrompeu-lhe a intenção de telefonar, dizendo-lhe:
                           - Doutora Laura não avise ninguém da nossa chegada, prefiro observar como tudo se passa dentro da normalidade, sem interferências. E Laura, fechando o telemóvel. respondeu:
                           - De acordo senhor primeiro ministro.
                  Passaram pelas fábricas, detendo-se com brevidade em cada uma. Quando pararam nos pontos de venda, Laura informou:
                           - Senhor primeiro ministro, embora dispondo de  pouco tempo, ainda gostaria que vossa excelência observasse aqui muito perto, o trabalho das nossos colaboradores que procedem à distribuição das ofertas aos mais necessitados.
                  Perante a anuência do PM, pararam um pouco depois. Saindo do carro, Laura chamou um dos distribuidores que muito perto entregava um envelope a um dos moradores na rua. Ao reconhecer quem saía do carro, saudou:
                           - Muito bom dia senhor primeiro ministro!- ao ue o PM indagou:
                           - O senhor efectua esta distribuiçao desde quando?
                           - Desde dezembro de mil novecentos e noventa e sete.
                           - Vi que entregou um envelope àquele senhor, sabe o que o envelope contem?
                           - Um cheque de cinquenta mil escudos.
                    O PM fez mais duas ou três preguntas. Demonstrou interesse crescente em cada local onde paravam. E foi Laura que avisou o PM que haviam ultrapassado a hora para finalizar a visita:
                           - Embora sendo tarde, senhor primeiro ministro, ainda nos falta visitar os pontos de venda.
                           - Doutora Laura, o que vi e ouvi decidiu-me ficar mais algum tempo. Que me propõe que visitemos mais?
                           - Proponho-lhe que visitemos os pontos de vendas, regressemos à FAP e que aceite o nosso convite para almoçar.
                     Passaram pelos pontos de venda. Laura apresentou todo o processo de aquisição ou venda de bens sem dinheiro em circulação e regressaram à FAP. O PM poucos comentários fez ao que viu. E após felicitar Laura e toda a direcção pela obra realizada, recusou o convite para almoçar e prometeu dar resposta, dentro de poucos dias,  aos pedidos que a direcção lhe apresentou. Despediu-se em seguida.
                    Fernando e Júlia chegaram pouco depois. Laura relatou-lhes a visita, frisando que não os havia avisado por imposição do primeiro ministro.
(continua)

Sem comentários:

Enviar um comentário